Palavras de adeus

Eustáquio Gomes


Conheci um rapaz, um estudante de filosofia, que tinha fixação com a morte. Com a hora da própria morte. Curiosamente, não era um sentimento doentio o que ele cultivava. Ele tinha a aspiração — uma espécie de mitomania — de, na hora final, fosse no dia seguinte, fosse dali a 60 anos, ter na ponta da língua uma frase de efeito com que impressionar a platéia.

Porque, na visão que ele tinha da própria morte, haveria uma platéia em torno. Pequena, educada e atenta. E então, no último instante, ele abriria os olhos, sorriria tranqüilamente para todos e diria qualquer coisa como:

— Fechem a janela. É belo demais.

Extraordinária maneira de se despedir do mundo. Todos ficariam boquiabertos com a profundidade, a poesia e a serenidade de suas últimas palavras. Descontando o fato de que foi Voltaire que disse tal coisa no leito de morte, a frase era uma de suas preferidas para o caso de não encontrar outra melhor.

Deveria haver uma janela, portanto, e o dia estaria esplêndido. Em todo caso, se o céu estivesse emburrado ou mesmo troasse o canhonaço de uma dessas tempestades de verão (ele se imaginava partindo no verão), sentenciaria solenemente, de modo a impressionar os dois ou três cronistas presentes:

— Chegou a hora, senhores. permitam que me reincorpore às forças da natureza.

Qualquer coisa assim elevada. Os cronistas registrariam o fato e ele se tornaria uma legenda. Mas não era fácil encontrar sentenças desse naipe. Vivia buscando-as nos livros, nos almanaques e nas revistas semanais. Copiava-as caprichosamente num caderno.
Uma vez me permitiu folhear esse caderno. Lembro-me de algumas de suas jóias funéreas. "Na vida, o importante não é o ponto de chegada, mas o percurso" (Alexander Lowen). "A morte não existe" (Tolstoi). "O sentido da vida é que ela acaba" (Franz Kafka). "Amigos, viver bem é a melhor vingança" (Provérbio basco).

Lembro que me intrigou, na época, a evidente contradição entre muitas das sentenças. Leocádio (era esse o seu nome) não estava preocupado com coerência. Tudo o que lhe importava era ter algo brilhante para dizer na hora da morte. Até que de fato morreu. Vou contar como foi (por obra de algum deus brincalhão, presenciei seus momentos finais).

Dizem que nesse dia (eu já não o via há um bom tempo), Leocádio encontrou numa biblioteca o livro que procurava desde os tempos da faculdade, uma raridade intitulada As mais belas palavras proferidas na leito de morte, do autor chinês Lin Yu-Tang.

Meteu o livro debaixo da camisa e foi saindo de fininho. Para azar seu, uma bibliotecária flagrou o furto e deu o alarme. Ele poderia ter parado junto ao balcão e desfeito a suspeita, mas não. Começou a correr. Correndo passou entre as mesas de leitura, derrubando cadeiras e pastas escolares. Aos saltos desceu a escadaria que dava na avenida, onde explodia o trânsito das três da tarde. E tropeçando desembocou na faixa de pedestres, pois era vital apanhar o sinal aberto. Já na escadaria da biblioteca surgiam os primeiros perseguidores, dois, três cinco, dez funcionários berrando e gesticulando para uma viatura que por coincidência apontou na esquina.

— Rápido! Ladrão! Por ali!

Todos viram quando ele deu um salto e tentou alcançar o canteiro central. Se pusesse os pés ali, conseguiria o impulso necessário para ser catapultado à rua transversal e à multidão que entupia a feira. E o mais importante: de posse do livro. Mas todos viram também quando um ônibus lotado, vindo a toda velocidade pela avenida, colheu-o no meio do vôo, projetando-o na calçada oposta.

Logo juntou gente em torno dele, muita gente, talvez mais do que ele tivesse desejado. Achava-se todo torto no chão, ensangüentado e quebrado, mas mantinha firme o livro na mão direita. E respirava, conforme notou um dos bibliotecários. Logo após, esbugalhando os olhos e fixando a platéia, murmurou qualquer coisa. Algo assim:

— Estou...

Foi quando me aproximei. Reconheci-o. Fui reconhecido por ele. Sabedor do grande projeto de sua vida, esperei pela frase célebre, a última. Que mensagem ele daria, que autor famoso evocaria? Agucei os ouvidos. Então, olhando diretamente em meu rosto, como se tentasse explicar o que tinha acontecido, continuou gaguejando:

— Estou... Estou...

E por fim:

— Estou ferrado.

Na verdade ele disse outra coisa, mas deixo assim por delicadeza de estilo. Chegou a ser levado ao hospital pelos policiais, mas morreu ao dar entrada.


Eustáquio Gomes
nasceu em Campo Alegre, povoado localizado no oeste de Minas Gerais, em 1952. Filho de pais lavradores, realizou seus estudos lutando contra dificuldades, primeiro na cidade de Luz (MG) e depois em Assis (SP), antes de bacharelar-se em jornalismo pela Universidade Católica de Campinas. Mais tarde tornou-se Mestre em Letras pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e defendeu tese sobre os modernistas de província. Sua infância é tema recorrente das crônicas que tem publicado em jornais e revistas, como "O mestre escola", "Os paramentos" e "Paisagem com neblina". Os seis anos vividos em colégios internos lhe inspiraram um romance, "Jonas Blau". O curso de jornalismo lhe deu uma profissão, a de repórter e depois editor, que exerce desde os 19 anos. Trabalhou em jornais do interior do Estado de São Paulo e colabora ocasionalmente em jornais da capital, tais como O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde. Entre 1973 e 1981 atuou também na área de propaganda e publicidade, primeiro na empresa Bosch do Brasil, em Campinas, e em seguida na White Martins, no Rio de Janeiro. Mas é na condição de jornalista que está, desde 1982, ligado à Unicamp. Como colaborador regular do jornal Correio Popular, de Campinas, já publicou mais de 500 crônicas, além de reportagens especiais, entrevistas culturais e outros textos. Dos dez livros publicados de Eustáquio Gomes, a maioria é desconhecida do grande público. "A Febre Amorosa", o mais difundido, está na segunda edição e é considerado "um pequeno clássico do underground" (Luiz Fernando Emediato). Foi adaptado para o teatro em 1996. Além de "A Febre Amorosa" (romance, 1994), seus outros livros são: "Cavalo Inundado" (poemas, 1975), "Mulher que Virou Canoa" (contos, 1978), "Os Jogos de Junho" (novela, 1982), "Hemingway: Sete Encontros com o Leão" (ensaio biográfico, 1984), "Jonas Blau" (romance, 1986), "Ensaios Mínimos" (ensaios, 1988), "Os Rapazes d'A Onda e Outros Rapazes" (ensaio, 1992), "Um Andaluz nos Trópicos" (entrevista com o pintor Bernardo Caro, 1995), "O Mapa da Austrália" (romance, 1998) e "A Febre Amorosa: Romance Bandalho" (romance, 2001) .

Aos domingos escreve no suplemento "Metrópole" do jornal "Correio Popular", de Campinas (SP), de onde extraímos esta crônica.é jornalista e escritor.

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