Tarciso

Dinah Silveira de Queiroz


Além da ponte cinzenta e empedrada começava o muro dos Vilares. Por cima dele se inclinavam alguns chorões desgalhados e sofredores, pendendo para o chão poeirento, ansiando por um descanso. Um vento morno e enervante roçava-lhes as folhas mais altas, fazia tremer as janelas vermelhas do sobrado, como se as forçasse de propósito.

O jardineiro dos Vilares, de joelhos sobre a terra, arrancava, com cuidado para não magoar as flores, aqui e ali, pequenas plantas daninhas. De vez em quando olhava o céu. A terra pedia chuva, e era só aquele vento seco e ruinoso soprando em cima das plantas e das criaturas, com impiedade. Estava no seu trabalho, quando a porta da frente se abriu, e Maninha apareceu com os cabelos voando, o vestido branco palpitando igual a uma asa, fininha, comprida e pálida:

— Se chegar alguém de automóvel, espie a entrada da ponte. Avise para ter cuidado com a vala.

— Está direito — assentiu o jardineiro. Eu aviso. Espera cá a menina!

Pôs-se em pé, apanhou um molho de algumas altas flores vermelhas, inchadas, grandes, tão viçosas que pareciam artificiais, e levou-as à Maninha

— Estas são fortes. Não há vento que dê cabo delas.Maninha sorriu, apanhou as flores, e voltou correndo. Ao entrar na sala sentiu a mesma atmosfera tensa e irritante que ali deixara havia poucos momentos. A mãe e o pai continuavam a discutir, com aquele modo especial. Feriam-se mutuamente numa guerra severa e contida. Nem gritos, nem desabafos, nem acessos de ira, ou crises de choro. Mas uma batalha fria e metódica, em que todos os gestos eram estudados, todas as palavras determinadas e inflexíveis, nunca apaixonadas e descuidosas. Passou Maninha como uma lufada branca e leve pela sala de móveis escuros e pesados, com a mancha vermelha das flores em uma das mãos. Subiu a escada de ferro. Lá em baixo, fitando a filha, disse Carlos Vilares à sua mulher — Luísa.

— Já sei para que são estas flores! O menino está doente, talvez em perigo de vida, e você impele a sua própria filha para fazer o irmão piorar, num exagero de beatice!

Carlos havia dito isto mais como ironia, com um repuxar nos lábios finos, que queria ser um sorriso, tornar menos graves suas palavras, mas Luísa respondeu erguendo a face fina de ave, fixando-o de perfil, com um olho apenas, como prestes a dar uma bicada violenta, à traição:

— São flores para o altar, que Tarciso mesmo fez quando era pequenino. Seu filho sempre foi crente e calmo. Você o mergulhou na dúvida. Você, com seu materialismo, com seus discursos fora da moda! Não foi a minha fé; não foram as flores com que eu e Maninha enfeitamos os pés de Nossa Senhora, que confundiram o menino, que o desnortearam. Foi você! — "Meu filho há de ser mais feliz do que eu, ter mais prazeres na vida. Tome dinheiro, meu filho! Eu não tive. Você tem. Vá divertir-se. Deixe as saias da mãe." Lembre-se! Lembre-se de que foi isso que precipitou a crise — os seus conselhos.

Carlos Vilares desabotoou o paletó, começou a dar passadas e mais passadas, que pareciam calmas e medidas:

— Chamei Tarciso aqui como qualquer pai o faria. Dei-lhe algumas explicações.

É claro! Meu filho não podia continuar como um maricas. Quantas vezes eu mesmo — vendo-o do meu tamanho, já quase um homem feito, me envergonhava da sua timidez. Incrível!

Luísa virou a face magra, de todo, focalizou o marido com seu olhar duro:

— Sua vaidade sacrificou o menino. A verdade é que de repente você sentiu que ele me pertencia. Era meu! Toda a sua eloqüência, e todas as suas idéias de um materialismo grosseiro não encontraram apoio em Tarciso. O que você fez... foi crime. Sim! — eu digo com a maior clareza e assumo a responsabilidade do que estou dizendo: você fez o menino ficar doente; talvez para sempre!

— Minha família não tem malucos. A sua já não é a mesma coisa. Aquele seu tio que vestiu uma opa — e saiu pelo mundo: — "Esmola para os pobres! Esmola para os pobres! "Deu tudo que tinha, botou dinheiro fora com toda a espécie de vagabundos. Minha família é de gente equilibrada!

A face de Luísa tremeu, mas sua voz era firme e áspera:

— Você?... Nem se deu o respeito. Mostrou livros indecentes a Tarciso... Isto é, não mostrou, mas "esqueceu" de propósito para o menino ler! O que está acontecendo com nosso filho é que... foi um choque que ele teve — grande demais para sua inocência.

Carlos passou a mão pelos belos cabelos grisalhos:

— Quando o Doutor Laertes chegar — você me chame logo.

A fala de Luísa subiu um tom: nunca ela se pareceu tanto com uma ave arisca:

— Chamei Padre Nicolau. Os meus direitos são iguais aos seus. Você acha que Tarciso precisa de um médico. Eu acho que não. Prefiro um sacerdote

O marido pôs o pé na escada, pronto para subir:

— Coitado! Até tenho pena de você meter o Padre Nicolau nessa história. Aquele jeito dele — não sei se escrúpulo, se falta de inteligência — de pensar meia hora, antes de dizer qualquer coisa! Pode chamar à vontade. Chame o jardineiro, se quiser, também... contanto que o Doutor Laertes venha. Isso é que é o principal.

E Carlos foi subindo devagar. No meio da escada encontrou Maninha; vinha correndo para junto da mãe. Enquanto o pai entrava no quarto de Tarciso, Maninha se chegava a Luísa, com maneiras assustadas:

— Mamãe — eu jurei, mas pra senhora eu conto: até não foi mesmo um juramento, eu enganei Tarciso, e disse: "Juro por Deus!" bem depressa, ele pensou que eu estava jurando. Eu agora sei tudo! Ele falou! Ele contou!

— Fez alguma coisa... malfeita, quando saiu de casa? Hein? Fez? Fale, mas fale baixo por causa de seu pai. Senão tudo arrebenta em cima de mim...

— Foi horrível, mamãe. Não sei. Acho que não fez. Mas teve vontade de fazer.

Maninha ergueu os olhos, olhou para a porta de Tarciso. Estava fechada, não havia perigo:

— Tudo foi por causa de uns sonhos. Foi por isso que ele foi embora. A senhora se lembra quando ele ficava acordado, estudando noites e noites? A senhora zangava e ele dizia que não tinha sono. Mas estava enganando... Ele não queria dormir... com medo dos pesadelos. Meu Deus, como é que uma pessoa como Tarciso pode sofrer tanto?

A campainha tocou.

— Deve ser o médico. Quieta! — disse Luísa a Maninha, enquanto rápida se encaminhava para a porta. Mas, para sua surpresa, quem chegara era o lento e ofegante Padre Nicolau.

— Vim depressa — disse ele, com pequenas pausas para respirar. — O Coronel Juliano me trouxe... de automóvel. Que há... então?

E se atirou pesadamente numa poltrona, antes que Luísa o mandasse sentar:

— Este vento... me faz mal. Por pouco que o carro não bateu... na quarta da ponte. Quando levamos o susto... apareceu... seu jardineiro para nos avisar... que tivéssemos cuidado...

Luísa disse, polida:

— O senhor desculpe. Sinto muito. Mas foi só o susto, não foi?

— Isso mesmo. Que é que a senhora... quer? Alguma... dificuldade? Esta menina...

Maninha disse, viva:

—Não é comigo. É com meu irmão Tarciso. Eu não tenho nada.

Luísa fê-la interromper-se com um gesto brusco: amaciou a fala, dirigindo-se ao padre:

— Tarciso anda esquisito. Meu marido acha que ele está doente. Porque deu pra fugir de casa, e ficar horas e horas, depois, sem querer dar a palavra a ninguém.

— Ah! — fez Padre Nicolau. — Então o Tarciso... aquele que brincava de dizer missa, quando era... pequenino... deu para fugir?

— Nós pensávamos... que fosse coisa de meninote — disse Luísa.

— Até uma paixão...— era a Maninha quem falava, e coma gravidade de irmã mais velha:

O padre se abriu num sorriso:

— Isso deve ser... um excesso de amor. Talvez... mimos. Mimos demais.

— Mamãe, eu posso falar? Posso contar ao Padre Nicolau ?

— Decerto, Maninha. Mas fale baixo. Olhe seu pai. Seu pai é capaz de ouvir.

— Padre Nicolau, — começou Maninha — é uma coisa tremenda. Nem sei como começar.

— Minha filha, pense que é como se você... estivesse no confessionário. Não tenha medo.

— São os pesadelos de Tarciso. No princípio, ele disse que sempre fazia um esforço... e acordava antes... Era horrível, mas depois...

A mocinha fixou o padre e a mãe com os olhos mergulhados num medo denso.

— Ele via chagas. Uma porção de chagas. Homens sem rosto, os ossos de fora, a carne escorrendo para o lado, como trapos sangrentos. Via pernas inchadas, via gangrenas, via lábios comidos de ferida, via tumores exalando pus, e o pior...

Os olhos de Maninha estavam rasos d'água:

— O pior é que tudo isso agradava Tarciso. Não sei. Ele disse assim mesmo: "Maninha, eu não quero mais guardar segredos de você. Nem uma daquelas... posso falar, posso, Padre Nicolau?... Nem uma daquelas figuras de mulheres dos livros — que é pecado a gente ver — me atraíram tanto! Em vez de me encher de nojo, tinha vontade de apalpar aquelas feridas... de beijar aquelas chagas, de mergulhar o dedo no pus."

Houve um silêncio. Depois Maninha prosseguiu:

— Tarciso disse que no começo reagia. Vinham aqueles homens horríveis à sua frente...

Luísa comprimiu os lábios. Logo disse num tom fundo, doído:

— Pobre do meu filhinho!

Padre Nicolau se tornara vermelho, e mais ofegante ainda, quase apopléctico. Com voz difícil perguntou:

— Depois?

Ouviu-se o ruído de uma porta que se abria.

— Depois os sonhos começaram a ficar confusos: aqueles homens cheios de chagas iam ficando pequeninos, pequeninos, e Tarciso se sentia grande e forte. Eles o enlaçavam com seus braços esqueléticos, cobertos de feridas, pedindo uma esmola, ou o quê, nem Tarciso sabia: — "Não nos deixe! Não nos deixe!", gritavam. E Tarciso sentia vontade de se deixar abraçar, queria beijá-los também. Uma vontade louca de ficar com eles, de se unir a eles. Mas meu irmão não podia explicar direito o que sentia, como era aquela atração terrível, a mais terrível... Mas de repente ele ficava com medo, fugia. E os homenzinhos desfigurados o perseguiam, agarravam-se às suas pernas como anões pavorosos..."

— Então era isso!

Carlos, muito pálido, estava diante de Maninha:

— Conte para seu pai — disse ele. —Eu devo saber! Eu preciso... Não acontece nada. Eu não faço nada! Mas quero saber! Por que Padre Nicolau há de entender melhor o que se passa em minha própria casa? Por que escondem de mim? Diga, então!

— Só isso, papai! Nos dias seguintes a esses sonhos tremendos, Tarciso... tinha vontade de ir à igreja...

Carlos balançou a cabeça, num gesto raivoso:

— Justamente como eu pensava. E então?

— Então ele se chegava à escada, ficava... ficava olhando fascinado para os mendigos. Sabe? Aquela mulher com erisipela, a perna inchada — o homem com uma chaga no lugar do nariz... Tarciso ficava olhando, olhando. Dentro dele subia uma vontade esquisita. Beijar! Apalpar aquela chaga, acariciar a perna doente. Depois fugia dali, e dizia para si mesmo: — "Meu Deus! Salvai-me! Estou ficando louco!" — Uma noite andou, andou sonhando confusamente com chamados misteriosos... e o dia veio, e ele sempre sonhando de olhos abertos e andando como se fosse empurrado.

Carlos olhou Luísa com um ar ao mesmo tempo vitorioso e triste:

— Eu não lhe disse? Ainda imagina que eu sou o culpado?

E voltando-se para Padre Nicolau:

— Luísa pensou que certas revelações... tivessem chocado demais Tarciso. Pensou, ora, pensou que tudo fosse obra do meu "materialismo". Diga lhe o senhor mesmo que isso — de Tarciso — é uma doença, uma doença cuja culpa não me cabe. Como está vendo!

Padre Nicolau estava ansioso:

— As vezes... dois... o pai e a mãe, em seu excesso de amor... podem fazer mal... levar um filho à confusão. Querem imprimir sua alma... na alma de seu filho. E lutam por estampar o próprio retrato no coração da criança. Querem destruir seu espírito, por um egoísmo natural, às vezes...

Luísa baixou os olhos:

— Padre Nicolau, vamos ver o menino?

— Tarciso está dormindo. Está extenuado. Não devem acordá-lo agora — disse Carlos.

Maninha falou aflita:

— E o médico que não vem!... Tarciso me disse que essa força que ele sente é tão grande... Ele tem medo de ir não sabe para onde! Eu tirei a chave lá de cima da porta do quarto que dá para a escada. Primeiro — tranquei, naturalmente. Acho que tranquei direito, nem vale a pena ver — concluiu baixinho.

Padre Nicolau, visivelmente perplexo, atirava palavras a esmo:

— O menino sempre me pareceu... calmo... normal.

E se dirigindo a Luísa:

— Minha filha, Deus é bondade, é doçura. Em vez de combater seu marido... dele devia tentar aproximar-se tanto quanto ele da senhora. Não oferecer a Tarciso essa contradição tão viva... que, decerto, feriu o rapaz. Pobrezinho! Não sabia em quem devia crer... Na sua confusão... ficou-lhe perturbado o cérebro, sim... deve ser isso. Não lhe parece... Dr. Carlos? Também não pensa assim? Agora? E é preciso que se não esqueçam — neste momento — do poder da oração...

Mas Carlos dardejava sobre Luísa um olhar carregado de intenções: — "Eu não falei?" — parecia significar. Enquanto isso, Maninha abria a porta. Entardecia. Ainda ventava. "E o Doutor Laertes que não chega!" pensava.

* * *


O automóvel veio muito devagar. Um homem pôs a cabeça para fora. O jardineiro gritou:

— Passe por aqui que passa, sim! Por aqui!...

Logo que atravessou a ponte o homem freou o carro, e saltou:

— Eu bem reconheci você! Logo no mesmo momento...

O jardineiro ficou lívido:

— Doutor Laertes!

— Eu mesmo! Você pensou que pudesse escapar do hospital, assim?

A figura do médico tomava certa atitude suficiente, autoritária, semelhante à de um chefe militar:

— Por que fez isso? Eu devia puni-lo, Mandar o carro dos doentes pegá-lo aqui mesmo, diante de todos, e depois prendê-lo! Prendê-lo na cela!

— Doutor... eu não estou doente...

E o jardineiro cruzava os braços atrás das costas, ao mesmo tempo que olhava súplice para o médico.

— Você está doente: sabe que está doente. Não esconda as mãos. Quer enganar-me? Pensa que me engana?

O homem tremia de emoção:

— Já ando muito velho para acostumar-me no hospital...

Trinta anos cuidando das flores, mexendo na terra. Ai! Que triste a vida lá, "seu' doutor, para um pobre como eu, que nem sabe ler, nem gosta de ouvir rádio, como os outros... Doutor Laertes... por Deus que está no céu, não me faça voltar!

E o pobre homem rompeu em soluços, como uma criança. Depois, continuou:

— Mesmo dizer que eu viva com esta família — isto não vivo, não! Durmo num quarto lá para os fundos da casa... Tenho os meus pratos, faço minha comida...

— É inútil — disse o médico. — Sou obrigado a dar parte! Se não quiser ir por bem — agora mesmo — pior para você! O carro virá buscá-lo!

O doente limpou os olhos com a manga da camisa:

— Não é pelo dinheiro que perco, nem pela liberdade de andar pelas ruas... É pelo amor que sinto às plantinhas de Deus. É também pelo menino. Pode-se lá governar o coração? O pequeno vinha por aqui, dava-me prosa... Por alma de minha mãe! Nunca vi uma criança daquele jeito. Gosta-se logo dele, como... um filho. Mas doutor! Só converso com ele assim, como estou falando com o senhor... Nunca lhe ponho as mãos.

O médico consultou o relógio, a fisionomia fechada:

— Arrume-se, e vá embora; já lhe disse. Se quiser, invente uma desculpa qualquer para se despedir. Mas ande depressa!

E o Doutor Laertes, com seus passos rígidos, tomou a direção da casa dos Vilares. O jardineiro então, resolutamente, se encaminhou para os fundos do quintal. Diante do seu quarto, porém, hesitou, e, voltando, começou a subir a escada que dava para o quarto de Tarciso.

* * *


O homem estava trêmulo, comovido, e sentia o suor correr pela face, como se levasse em si um peso descomunal. Bateu fracamente na porta. Depois, quis torcer o trinco. Mas, ao encostar a mão, a porta cedeu. Talvez fosse o próprio vento que a abrisse e não ele. Lá no canto, sobre a cama de madeira, uma vaga claridade descia da janela alta, semicerrada.

O jardineiro aproximou-se, devagarinho. Sentia a fronte latejar. "O menino estaria adormecido? Deus o guarde. Deus o guarde", pensava.

Tarciso, ainda imóvel na cama, abriu os olhos. Rodou-os pelo quarto, viu o jardineiro.

— Ah, é você? Pode entrar. Sente-se. Eu não estava dormindo. Estava só de olhos fechados.

O empregado chegou mais perto do leito:

— Pois então aqui venho eu... dizer adeus ao menino.

— Você? Você vai embora? Por quê? Então não gosta mais da gente?

— Bem que eu não queria dizer... Mas com o menino Tarciso eu não sei mentir. Eu queria continuar... sempre.

— Quem sabe se você está ganhando pouco? Quer que eu fale com papai?

— Não, meu pequeno. Não precisa falar com seu pai. É que me vou... por andar doente...

— Mas não parece!

Tarciso sentou-se, e continuou:

— Parece vender saúde. Tão forte! Acho que você não quer é mais morar conosco. Deve ser isso.

— Pois se não confia em mim... Foi o médico, que agora está lá em baixo, que me mandou... voltar para o hospital. Tenho que estar internado... O menino nunca reparou... que trago doentes as mãos? Verdade é que as tenho sempre sujas de terra.

A expressão de Tarciso subitamente mudou, num pressentimento. A tarde declinava, e um raio de luz alaranjada, o sol filtrando através da poeira, descia reto sobre seu rosto. A pele estava estirada, brilhante, cor-de-rosa, tão lisa como se fora de louça. Podia-se acompanhar, transparecendo profundamente, como estava, em seu rosto, uma intensa emoção que lhe ia no íntimo.

— Pensei que fosse do trabalho. Mas... Deixe ver suas mãos — ordenou Tarciso, com um estranho tom.

— Meu pequeno...

* * *


O homem ainda estava na sombra, e vinha mais e mais perto do leito iluminado. Porém, chegando rente à cama de Tarciso, parou. Juntou as mãos atrás de si, com receio, envergonhado. Tremia. Balbuciou "não", debilmente, medroso, de súbito, quase como uma criança.

— Quero ver suas mãos. As suas mãos. Ande!

O homem parecia hipnotizado. Relutou por segundos, depois estendeu as mãos, que penetraram na claridade, ganhando logo um mágico relevo. Eram mãos manchadas e tortas, pisadas, roxas e crescidas. Tarciso nunca reparara nelas. Estavam ali diante de seus olhos, pedaços marcados pela morte próxima, e no entanto vivos, bulindo como dois animais feridos, condenados.

Então o menino sentiu em si aquela impetuosa onda de esquisito carinho, avassaladora como um doce fogo de amor, e agarrando as pobres mãos doentes — paralisado o jardineiro por força invencível — inundou-as de longos beijos, de transbordantes beijos, juntando-lhes seus lábios devagar, interminavelmente.

* * *


Depois que Carlos explicou ao Doutor Laertes a doença de seu filho, disse o médico com certa gravidade afetuosa:

— Com quinze anos! Hum! Não deve ser tão grave quanto o senhor pensa. Tudo faz supor que se trate de uma crise de puberdade. Não vi ainda o garoto... Mas assim... como me contam... o caso parece revestir-se de um aspecto fácil até para a moderna psicologia. O temor religioso, infundido pela mãe — desculpe-me, Padre Nicolau! — desviou, com certeza, uma tendência normal. As chagas, as deformidades... tudo não passa, senão, de instinto sexual mascarado, que se não quer revelar... ao próprio menino, de índole tão religiosa, como o senhor disse.

Luísa e Padre Nicolau se entreolharam. Maninha fixava o médico com modo indagador. Não estava entendendo, via-se logo.

Doutor Laertes consultou novamente o relógio:

— Bem. Agora vamos ver o doentinho.

Mas um grito, um grito de homem, forte, cortante, encheu o ambiente. O jardineiro abriu a porta do quarto, projetou-se quase caindo pela escada, e chegou diante de todos rindo e chorando ao mesmo tempo, como um louco:

— Deus do céu! Deus do céu!

Doutor Laertes perguntou severo:

— Que é isso, homem? Que é que tem? Por que ainda está aqui? Quer então ser levado pelo carro do hospital?

— Eu vou dizer-lhe, doutor, vou dizer-lhe... Aconteceu uma coisa... Preciso falar — e não posso! Eu me fui despedir do pequeno, lá no quarto. — Não, não fique zangado, "seu" doutor. Eu pensava em só dizer adeus... nem queria que ele soubesse... da minha doença. Então... — As lágrimas desciam livremente pelo rosto. — Não sei... ele quis ver as minhas mãos quando sem saber como, fui-lhe dizendo que eram... doentes.

Luísa apertou a boca contendo-se apavorada.

— "Seu" doutor, aconteceu... aconteceu que o menino ao vê-las ficou mudado de rosto, tão diferente, que causava espanto, parecia outra criatura.

Todos cercavam o jardineiro, atônitos, abismados. Algo de terrível sucedera — eles sentiam.

O homem continuou:

— O menino Tarciso pegou-me as mãos... Meus braços pareciam de pedra. Quis retirá-las, doutor; por Deus que não tive forças! E Tarciso começou a beijá-las... Beijá-las com uma decisão muito meiga e muito carinho, que nem se pode contar direito... E então... aconteceu...

O jardineiro sufocava, quase.

Por fim, disse com voz liberta, num impulso delirante:

— Um milagre! Um milagre! Doutor Laertes: olhe para minhas mão!... Elas foram branquejando com os beijos daquele anjo de Nossa Senhora... Foram desaparecendo as nódoas. Até que se foram de uma vez as manchas! Repare!

E o homem estendeu para o médico as mãos puras, lisas, finas, como nascidas de novo.

Enquanto todos contemplavam o prodígio, e Padre Nicolau dizia baixinho, como que se lamentando: "e eu que não soube...", "e eu não vi...", Maninha subiu a escada:

— Tarciso! — gritou.

Abriu a porta e, depois de um momento, tornou a descer:

— Ele saiu! — disse, e acrescentou: — mas juro que fechei a porta... Eu me lembro perfeitamente!

— Não há mais portas que segurem o menino Tarciso! — gritou o jardineiro.

Maninha, acompanhada de Carlos e de Luísa, precipitou-se para o jardim. Os pais foram ficando para trás. Maninha corria leve, o vestido branco flutuando como uma vela no mar. Atravessou a ponte... Mais adiante ia indo Tarciso.

— Tarciso, não vá embora! Espere, espere por mim, Tarciso!

Apesar do esforço sobre-humano, não conseguiu alcançá-lo. De longe ele acenou sereno, dizendo adeus. Maninha sentiu vertigens imaginando o mundo tremendo de doentes, de miseráveis, de infelizes e deformados para o qual — ela adivinhava agora — seu irmão partia sem retorno, numa ânsia de amor. Todo o crepúsculo, tão violentamente sangüíneo, parecia concentrar-se na sua figura, que estranhamente crescia, ganhando em majestade, em vez de diminuir, na distância sempre maior.


Dinah Silveira de Queiroz
nasceu em 09/11/1910 na capital paulista. Publicou seu primeiro conto em 1937, e dois anos depois lançou seu primeiro livro, "Floradas na Serra", obtendo grande sucesso e sendo premiada pela Academia Paulista de Letras. Em 1954 recebeu o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra. Desempenhou as funções de adido cultural do Brasil junto à nossa Embaixada em Madrid. É a autora de "A Sereia Verde", "Margarida La Roque", "Aventuras do Homem Vegetal", "A Muralha", "O Oitavo Dia", "As Noites do Morro do Encanto", "Eles Herdarão a Terra" e "Os Invasores", dentre outros. Como cronista, assinou no jornal A Manhã, do Rio de Janeiro, a seção "Café da Manhã", e no Jornal do Commércio, da mesma cidade, a seção "Jornalzinho Pobre". Colaborou em programas na Rádio Ministério da Educação e na Rádio Nacional.


O texto acima foi extraído do livro "Maravilhas do Conto Moderno Brasileiro", Editora Cultrix, São Paulo, 1961.

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