Tio Galileu
Dalton Trevisan
A pobre mãe deu Betinho àquele homem: agradasse ao tio Galileu, com os dias contados,
podia ser o herdeiro.
Depois de partir lenha, puxar água do poço, limpar o poleiro do papagaio, o menino
enxugava a louça para a cozinheira. Toda noite, Betinho subia a escada, para levar o
urinol e tomar a bênção ao tio Galileu. Batia na porta: Entre, meu filho, O rapaz
beijava a mão branca, mole e úmida mãe-dágua. No domingo recebia a menor
moeda, que o padrinho catava entre os nós do lenço xadrez.
Tio Galileu raramente saía e, ao tirar o paletó, exibia duas rodelas de suor na camisa.
Arrastava o pé, bufando, sempre a mão no peito. Afagava o papagaio, que sacudia o
pescoço e eriçava a penugem: Piolhinho... piolhinho... Subindo a escada, dedos
crispados no corrimão, isolava-se no quarto. O assobio através da porta: alegria de
contar o dinheiro?
Fechava a porta e conduzia a chave. Diante dele era feita a limpeza, pelo rapaz ou pela
negra, nunca por Mercedes. Sentado na cama, coçando eterno pozinho na perna, vigiava. E
não assobiava com alguém no quarto. Instalado na cama que, essa, ele mesmo arrumava, sem
permitir que virassem o colchão de palha.
Mercedes fazia compras, perfumada e de sombrinha azul. O homem discutia com ela, que o
arruinava, por sua culpa sofria de angina.
Domingo, a negra de folga, Betinho preparava o.café para Mercedes. Abria a porta,
esperava acomodar-se à penumbra do quarto e, ao pousar a bandeja, sentia entre os
lençóis a fragrância de maçã madura guardada na gaveta.
Uma noite Mercedes surgiu no quarto de Betinho. Já deitado, luz apagada. Sentou-se ao pé
da cama, casara com tio Galileu por ser velho, a anunciar que morria de uma hora para
outra. Mentira, para iludir a pessoa e servir-se dela. Não sofria do coração, nem sabia
o que era coração, a esconder mais dinheiro entre a palha. Ao crepitar o colchão lá no
quarto o avarento remexia no tesouro.
Um bruto, que a esquecia, dormindo em quarto separado, com medo fosse roubá-lo. Ó diabo,
ela o xingou, pesteado como o papagaio louco, que a bicara ali no dedinho. O rapaz
inclinou-se para beijar a unha de sangue. Mercedes ergueu-se e jurou que, se o monstro
morresse, daria a Betinho o que lhe pedisse.
O rapaz não pôde dormir. Meia hora depois, saltou a janela. Agarrou no poleiro o
papagaio, cabeça escondida na asa os piolhos corriam pelo bico de ponta quebrada.
Torceu o pescoço do bicho e o enterrou no quintal.
Dia seguinte o homem buscou a papagaio, a assobiar debaixo de cada árvore. Betinho
sugeriu que a ave fugira. Foi colocar o vaso sob a cama e, ao tomar a bênção ao
padrinho, o piolho correu de sua mão para a do velho um dos piolhos vermelhos da
peste.
Mercedes voltou ao seu quarto. Reclinada na cadeira, amarrava e desamarrava o cinto. Noite
quente, queixou-se do calor, abriu o quimono: inteirinha nua.
Vá disse a mulher. Vá, meu bem. Primeiro o papagaio. Agora o velho.
Betinho ficou de pé. Tremia tanto, ela o amparou até a porta:
Vá, meu amor. A vez do velho.
Hora de pedir a bênção. Betinho subiu a escada. Aos passos no corredor o avarento,
entre a bulha do colchão, perguntava quem era. Aquela noite nada falou. Betinho abriu a
porta, avançou lentamente a cabeça. Tio Galileu deitara-se vestido, o saquinho de fumo
espalhado no colete de veludo. O último cigarro, sem poder enrolar a palha com os dedos
imóveis... Olho arregalado, a boca negra não abençoou Betinho. Fazia-se de morto, nunca
mais fingiria.
Tio Galileu não gritou. Nem mesmo fechou o olho, mais fácil que o papagaio. Betinho
afogou debaixo do travesseiro a boca arreganhada.
Os pés descalços de Mercedes desciam a escada. Ele ergueu o colchão, rasgou o pano,
revolveu a palha: nada. Deteve-se à escuta: os passos perdidos da mulher. Avisá-la que o
velho os enganara.
Era tarde, abria a janela aos gritos:
Ladrão. Assassino! Socorro...
Texto extraído do livro "Novelas nada exemplares", Editora Record - Rio de
Janeiro, 1979, pág. 42.
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