Maria Pintada de Praia
Dalton Trevisan
GRANDALHÃO, voz retumbante, é adorado pelos filhos. João não vive bem com Maria
ambiciosa, quer enfeitar a casa de brincos e tetéias. Ele ganha pouco, mal pode com os
gastos mínimos. Economiza um dinheirinho, lá se foi com a asma do guri, um dente de ouro
da mulher. Ela não menos trabalhadeira: faz todo o serviço, engoma a roupinha dos
meninos, costura as camisas do marido. Inconformada porém da sorte, humilhando o homem na
presença da sogra.
Para não discutir ele apanha o chapéu, bate a porta, bebe no boteco. Um dos pequenos lhe
agarra a ponta do paletó:
Não vá, pai. Por favor, paizinho.
Comove-se de ser chamado Paizinho. Relutante, volta-se para a fulana: em cada olho um
grito castanho de ódio.
O paizinho vai dar uma volta.
Tão grande e forte, embriaga-se fácil com alguns cálices. Estado lastimável,
atropelando as palavras, é o palhaço do botequim. E, pior que tudo, sente-se
desgraçado, quer o conchego do corpo gostoso da mulher.
Mais discutem, mais ele bebe e falta dinheiro em casa. Maria se emboneca, muito pintada e
gasta pelos trabalhos caseiros. Desespero de João e escândalo das famílias, a pobre
senhora, feia e nariguda, canta no tanque e diante do espelho as mil marchinhas de
carnaval. Os filhos largados na rua, ocupada em depilar sobrancelha e encurtar a saia
no braço o riso de pulseiras baratas.
Com uma vizinha de má fama inscreve-se no programa de calouro:
Sou artista exclusiva ufana-se, com sotaque pernóstico. A féria é
gorda!
Aos colegas de rádio oferece salgadinhos e cerveja. João escapole pelos fundos,
envergonhado da barba por fazer. Volta bêbado e Maria tranca a porta do quarto, obrigado
a dormir no sofá da sala. Noite de inverno, o filho mais velho, ao escutá-lo gemer, traz
um cobertor:
Durma, paizinho.
A cada sucesso de Maria o quinto prêmio da marchinha, o retrato no jornal, a carta
com pedido de autógrafo:
Ela ainda recebe uma vaia é o comentário de João. - Com uma boa vaia ela
aprende!
Ó não essa aí quem é de cabelo oxigenado? Acompanhada a casa, horas mortas,
pelo parceiro de vida artística. Ora o cantor de tangos, ora o mágico de ciências
ocultas. Demora-se aos beijos na porta e as mães proíbem as crianças de brincar com os
dois meninos. João sabe que é o fim dona casada que tinge o cabelo não é
séria. Vai dormir no puxado da lenha, encolhido na enxerga imunda, a garrafa na mão.
Dois dias fechado (assusta-lhe a própria força e jamais bate nos filhos), urra palavrão
e desfere murro na parede. Maria faz as malas e, sem que os pequenos se despeçam de
João, muda-se para casa dos pais.
Lá deixa os meninos e amiga-se com um pianista de clube noturno. Mais uma bailarina, que
obriga os clientes a beber. O pianista, vicioso e tísico, toma-lhe o dinheiro e, se a
féria não é gorda, ainda apanha.
Cansada de surra, volta à casa dos pais. Então a velha sai em busca de João e sugere as
pazes.
Ela que fique onde está. Não quero Maria, nem pintada de prata.
Despedido da fábrica por embriaguez, sobrevive com biscates. Ao vestir o paletó, da
manga surge uma cobra e, aos berros, lança-o no fogo. Aranha cabeluda morde-lhe a nuca;
inútil esmagá-la com o sapato, de uma nascem duas e três enrodilha-se medroso a
um canto e esconde nos joelhos a cabeça.
Domingo recebe a visita dos filhos, enviados pela sogra. Divertem-se no Passeio Público a
espiar os macaquinhos. O pai compra amendoim e pipoca, que os três mordiscam deliciados.
Afasta-se de mansinho e, atrás de uma árvore, empina a garrafa saliente no bolso
traseiro da calça as mãos cessam de tremer. Os meninos desviam os olhos: sapato
furado, calça rasgada, paletó sem botão. Alisando a mão gigantesca:
Não, paizinho. Não beba mais, pai.
Lágrimas correm pelo narigão de cogumelo encarnado. Despede-se com sorriso sem dentes.
Na esquina gorgoleja a cachaça até a última gota.
Em delírio na sarjeta, recolhido três vezes ao hospício. A crise medonha da
desintoxicação, solto quinze dias mais tarde. Mal cruza o portão, entra no primeiro
boteco.
Maria cai nos braços do mágico de ciências ocultas e, proibida de cantar com voz tão
horrorosa, consola-se no tanque de roupa. Nem o amante nem os velhos querem saber dos
piás, internados no asilo de órfãos.
Cada um aprende seu ofício e, no último domingo do mês, com permissão da freira, vão
bem penteadinhos à casa do pai. Ainda deitado, curte a ressaca; com alguns goles sente-se
melhor. Os pequenos varrem a casa, acendem o fogo, olhinho irritado pela fumaça. No
almoço apresentam café com pão e salame rosa. Sentado na cama, o pai contenta-se em
vê-los comer. Sorri em paz, um deles enxuga-lhe o suor frio da testa. Sem coragem de
abandoná-lo, os filhos a seu lado durante a noite: fala bobagem, treme da cabeça aos
pés, bolhas de escuma espirram no canto da boca.
Os meninos adormecem, ouvindo o ronco feio do afogado. O maior acorda no meio da noite,
vai espiar o pai em sossego, olho branco. Fala com ele, não se mexe. Tem medo e chama o
irmão:
O paizinho morreu.
Sem chorar, encolhidos na beira da cama, à escuta dos pardais da manhã.
Texto extraído do livro 20 Contos Menores, Editora Record
Rio de Janeiro, 1979, pág. 43.
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