Nove Haicais

Dalton Trevisan


1

Dou com um perneta na rua e, ai de mim, pronto começo a manquitolar.

2

Uma bandeja inteira de pastéis. Como escolher um deles? São tantos.

— Fácil: deixe que ele te escolha.

3

A tipinha de tênis rosa para o avô que descola um dinheirinho:

— Pô, você me salvou a vida, cara!

4

O inimigo de futebol:

— O meu amor pela Fifi é maior que o amor pelo Brasil.

A doce pequinesa que sofre dos nervos com a guerra da buzina, corneta, bombinha, foguete.

5

— Sabe o que o João deu para o nenê, filho dele? Meia dúzia de fraldas e um pião amarelo.

6

— Casei com uma puta do Passeio Público. Tinha tanto piolho que, uma noite dormia de porre, botei um pó no cabelo dela. Dia seguinte, lavou a cabeça e ficou meia cega.

7

De repente a mosca salta e pousa na toalha branca. Você a espanta, sem que voe — uma semente negra de mamão.

8

Parentes e convidados rompem no parabéns pra você. De pé na cadeira, a aniversariante ergue os bracinhos:

— Pára. Pára. Pára.

Na mesa um feixe luminoso estraga o efeito das cinco velinhas.

— Mãe, apaga o sol.

9

A chuva engorda o barro e dá de beber aos mortos.


"Seu nome:
Dalton Trevisan. Seu instrumento de trabalho: o conto. Sua vítima: o leitor incauto. Sua meta: amedrontar, deliciando. Sua cara: pouco veiculada. Seu endereço: desconhecido. Seu diálogo com o público: um monólogo interior. Sua foto mais conhecida: a tirada por um repórter com teleobjetiva atrás de uma árvore em uma tarde de outono. Seu número de telefone: nem mesmo sua família sabe." Assim Duílio Gomes descreveu Dalton Trevisan (1925), ficando claro porque o chamam de "O Vampiro de Curitiba".


Texto extraído de "Dinorá: novos mistérios", Distribuidora  Record de Serviços de Imprensa - Rio de Janeiro, 1994, pág. 60.

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