Apelo
Dalton Trevisan
Amanhã faz um mês que a Senhora está longe de casa. Primeiros dias, para dizer a
verdade, não senti falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa de esquina. Não foi
ausência por uma semana: o batom ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a imagem de
relance no espelho.
Com os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou. A notícia de sua perda veio aos
poucos: a pilha de jornais ali no chão, ninguém os guardou debaixo da escada. Toda a
casa era um corredor deserto, até o canário ficou mudo. Não dar parte de fraco, ah,
Senhora, fui beber com os amigos. Uma hora da noite eles se iam. Ficava só, sem o perdão
de sua presença, última luz na varanda, a todas as aflições do dia.
Sentia falta da pequena briga pelo sal no tomate meu jeito de querer bem. Acaso é saudade,
Senhora? Às suas violetas, na janela, não lhes poupei água e elas murcham. Não tenho
botão na camisa. Calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolha? Nenhum de nós sabe,
sem a Senhora, conversar com os outros: bocas raivosas mastigando. Venha para casa,
Senhora, por favor.
O Negócio
Grande sorriso do canino de ouro, o velho
Abílio propõe às donas que se abastecem de pão e banana:
Como é o negócio?
De cada três dá certo com uma. Ela
sorri, não responde ou é uma promessa a recusa:
Deus me livre, não! Hoje não...
Abílio interpelou a velha:
Como é o negócio?
Ela concordou e, o que foi melhor, a
filha também aceitou o trato.
Com a dona Julietinha foi assim. Ele se chegou:
-- Como é o negócio?
Ela sorriu, olhinho baixo. Abílio
espreitou o cometa partir. Manhã cedinho saltou a cerca. Sinal combinado, duas batidas na
porta da cozinha. A dona saiu para o quintal, cuidadosa de não acordar os filhos. Ele
trazia a capa de viagem, estendida na grama orvalhada.
O vizinho espionou os dois, aprendeu o
sinal. Decidiu imitar a proeza. No crepúsculo, pum-pum, duas pancadas fortes na porta. O
marido em viagem, mas não era dia do Abílio. Desconfiada, a moça surgiu à janela e o
vizinho repetiu:
Como é o negócio?
Diante da recusa, ele ameaçou:
Então você quer o velho e não
quer o moço? Olhe que eu conto!
Espere um pouco atalhou
Julietinha. Já volto.
Abriu a janela, despejou água quente na
mão do negro, que fugiu aos pulos.
A moça foi ao boteco. Referiu tudo ao
velho Abílio, mão na cabeça:
Barbaridade, ô neguinho safado!
O vizinho não contou e o cometa nada
descobriu. Mas o velho Abílio teve medo. Nunca mais se encontrou com Julietinha, cada dia
mais bonita.
Textos extraídos do livro "Mistérios de Curitiba, Editora Record
- Rio de Janeiro - 1979,
págs. 73 e 103.
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