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Arnaldo Nogueira Jr



Cícero Sandroni

 


Um suicida

Cícero Sandroni
Para Bob Testinha


Quando o maldito dia de 24 de agosto de 1974 amanheceu em São Paulo, cinzento, brumoso e frio como geladeira de necrotério, eu estava acordado, olhos ardendo, prostrado na poltrona onde tinha passado a noite, bebendo gim e fumando, solitário como cão danado. Às seis da manhã, na boca amarga e ressequida, a língua áspera, grossa, implorava litros d'água; eu negava, porque àquela altura do campeonato, não tinha força para levantar minha gorda bunda e ir até à cozinha. Com a garganta entupida de catarro, mal conseguia respirar.

Quando fraco raio de sol saído não sei de onde projetou-se sobre meus olhos, pensei que ficaria cego. A luz entrava pela veneziana aberta e se espalhava no meu rosto. Não sei onde encontrei ânimo pra levantar a cabeça que pendia inerte sobre o peito. Olhei pra fora, enfrentando aquela luminosidade opaca, estranha, que descia do céu escuro lá dos lados da Mooca. Um panorama de assustar leão. No ar, aquele chumbo grosso, filtrado pelo sol; aquela névoa encardida e porosa. Estou falando da poluição que amanhecia ao meu lado, à minha volta, envolvendo todo este maldito burgo, este maior parque industrial da América Latina , esta latrina de monóxido de carbono.

"Merda de cidade", pensei, mas pensar doía. A cabeça latejava terrivelmente. Eu sofria a pior ressaca da minha vida; não obstante, dentro daquele bloco de granito enroscado no alto do pescoço, no centro daquela pedra dolorida, havia uma idéia; à qual eu me agarrava como última saída, derradeira solução, desfecho final do meu problema. Eu ia me matar.

A maldita certeza de acabar de vez com a existência naquele dia, me dava forças, apesar do porre ciclópico da noite e a ressaca. Escrevo porre ciclópico mas sei que só me entenderão os que, como eu, já passaram por boa carraspana de gim.

É o estraçalhamento total do corpo, até à última gota de sangue. Imagine-se enfiado numa máquina de moer carne, enquanto alguém gira a manivela devagar, devagar. O corpo é moído e triturado e assim fica o dia todo, até o cair da noite, quando sobrevém aquela sensação de alívio e bem-aventurança; aí é hora de começar de novo. Se você tiver caráter suficiente pra enfrentar a parada, é claro.

Pois bem. Eu estava justamente naquela fase do esbagaçamento total. Mas a perspectiva de liquidar de vez com a fatura me dava ânimo pra voltar do país dos mortos. Não sei explicar a razão deste súbito paradoxo; afinal, eu estava exatamente a fim de comprar a passagem de ida pra lá.

Agora, pequena pausa pra meditação. Por que um cara se mata? Ou melhor: existe razão pra estar vivo, só porque se foi parido? No meu caso, e nos milhares de outros — milhares, sim senhor — a resposta é negativa. Nós constituímos a minoria de pessoas que se mata neste país. Se mata a faca, a bala, se enforca, se atira de edifício, toma guaraná com formicida. Segundo o Anuário Estatístico do IBGE, que consultei, os suicidas de São Paulo preferem matar-se a bala. Gente macha.

Eu não sou exceção. Bom paulista quatrocentão, fruto decadente de família tradicional, bisneto de um cara que ajudou a fundar São Carlos, eu acabaria com a vida dignamente, apertando o gatilho de meu Taurus calibre 32 sem tremer. A bala penetraria velozmente neste peito varonil e, num segundo, bumba! Menos um neste festim de merda que nos servem no planeta e mais um na relação de suicida do Anuário do IBGE, capítulo comportamento social brasileiros.

Neste momento você pode pensar que meu desejo de morte seria o resultado da bebedeira, mas ta completamente enganado. Vou dar razões objetivas, claras, irrespondíveis. Como já disse, sou o que geralmente se conhece por fruto podre da família. Recebi minha parte da herança de um avô fazendeiro e, sem o menor arrependimento ou sentimento de culpa, gastei tudo nas bocas do luxo e depois nas bocas do lixo de São Paulo. Só me restou o apartamento do Alto das Perdizes. Aos 42 anos, depois de trinta dissipados numa boa vida, sou hoje o que os bem-pensantes, os bem sucedidos, os que venceram, chamam de fracassado.

Os amigos de infância, das farras de adolescência, das surubas juvenis, dos porres inenarráveis, cada um deles encontrou sua vereda, seu caminho, cada um realizou-se à sua maneira. Por exemplo, os que se meteram em política. Ou estão no exílio, ou no governo. Uns levaram porrada na polícia. Outros estão no poder. Semana passada vi um deles descendo de automóvel oficial - porra, o cara é importante pra caralho. Mas eu conheço ele do tempo de faculdade, tivemos juntos um matadouro na Lapa e por isso sei que não é muito chegado a mulher. Agora, o que ele goza com o poder, não está no gibi.

Outra parte da turma se meteu em negócios e enriqueceu pra burro. Meu Deus, nesta cidade, quem quer fica rico em pouco tempo. E só saber explorar os outros, organizar sua senzala, como diz o Mário. Ou então casar com filhas de imigrantes endinheirados e comer as sobras que turcos e italianos deixam nos pratos. E um vale tudo para o qual não tenho a menor vocação. Assim, enquanto os amigos fraternos, todos irmanados nos ataques de madrugada às domésticas na Avenida Angélica, enquanto eles mamavam nas negociatas, subiam na política ou eram empalados e levavam choques nos culhões, eu calmamente raspava os vinténs finais da arca do avô, com a maior despreocupação.

Também não casei. Deixei passar o que na minha época a família chamava de bons partidos porque não sou de me amarrar em mulher e nem gosto de brancas. Tenho um fraco pelas mulatas, mas nesta altura já estou desiludido e cansado. Acho grande sacanagem pagar mulher, sempre que tenho tesão. Estou farto de pagar mulher! Pombas! Será que nesta puta desta cidade de São Paulo não existe uma só mulata capaz de ir comigo pra cama, por amor? Não existe, já procurei; é tudo no michê, e cada vez mais caro.

Sentiram o drama? Hipertenso, míope, lerdo, meio brocha, gordo feito um capado, e o que é pior, na beira da falência; abandonado pelos amigos que, dispersos pela vida só pensam em ganhar dinheiro e empanturrar os filhos com pizzas e quibes; eu estava só; só, fudido e mal pago. Estava no fim da linha. E em excelentes condições de meter uma bala na cabeça. E me mandar de vez.

Mas devo dizer por obrigação de consciência que atribuo ao gim, esta santa bebida, a força moral e a coragem para pôr em prática tal decisão. Ouvi dizer que bebedor de gim é mau caráter. Discordo — ou então sou a exceção. Devasso, dissipado, preguiçoso e prevaricador, sim. Mas mau caráter, não. Depois, o gim dá a clarividência cética, objetiva, que só o bebedor tem. Se você passa trinta anos de sua vida enchendo a cara e encharcando o organismo diariamente com este líquido perfumado e amargo, tua visão do mundo se transformará completamente; e você então chegará à definitiva conclusão. Nada mais a fazer senão aquilo. E o gim também te dará forças pra disparar a arma.

Assim, resolvido e reconfortado, ao levantar da poltrona arrastei a carcaça até o banheiro e dei uma boa mijada. Depois, em direção à cozinha. Como de hábito, tomei quatro engoves com meio litro d'água. Eu precisava equilíbrio pra realizar meu plano. No apartamento estava tudo quieto, aquela placidez a indicar a ausência de empregada. Melhor. Arrumei uma pequena mala de papelão onde botei camisa, cueca, a escova de dentes e outra pasta de vinil onde botei o revólver. Comi um pedaço de queijo de Minas e dei a última olhada no apartamento herdado do avô. Ficaria pra um distante sobrinho, que morava em Franca. Escrevi o tradicional bilhete de adeus pros amigos, deixei em cima da mesa da sala. Eles iam ter uma puta surpresa. Saí de casa e peguei um táxi.

— Para o hotel Mayflower — eu disse.

O hotel Mayflower, no fim da Avenida São João, foi escolhido com cuidado e atenção. É discreto, ao lado do Médico Legal. Eu não queria dar trabalho a ninguém. Quando cheguei na portaria, o espanhol do balcão, meu conhecido de outros carnavais, nem levantou a cabeça. Mas quando virou a folha do jornal, percebeu que estava sem mulher ao lado.

- Hoje veio de bagagem?

— Vou ficar uns dias.

— Então paga adiantado.

Paguei três diárias.

Para ir até o quarto 32. o meu preferido, eu teria de subir dois lances de escada. O elevador pré-diluviano estava enguiçado. A perspectiva me deixou meio morto. Levar noventa e cinco quilos escadas acima. Só uma coisa me animava: acabar logo com a história. Um tiro rápido, bang, e pronto.

O quarto 32 era simples e limpo, como qualquer quarto de hotel de terceira. A cama, o armário. a mesinha. Examinei o pequeno banheiro; abri a torneira da pia, saiu um fio d'água. "País subdesenvolvido é fogo", pensei. Voltei pro quarto, me estirei na cama. Espichei bem o corpo, como se quisesse crescer mais. Relaxei os músculos, quer dizer, aquela massa de carne e sebo, o que restava dos meus músculos. Aí fiquei deitado, quieto, tentando recordar alguns momentos da minha infância. Não é o que acontece com quem está prestes a passar desta pra melhor? Mas de infância, nada.

Em seguida levantei-me. sentei na cama e peguei a pasta onde trazia o Taurus. Abri lentamente o fecho e deixei que o revólver deslizasse para cima da cama. Quero ser preciso: exatamente neste momento, tive pequena ereção. Não foi nada demais. No momento em que o Taurus saiu da pasta, o pau deu aquele pequeno impulso pra cima. Achei engraçado. Mulher seria a última coisa em que eu pensaria naquele momento.

Quando o pau se acalmou, peguei o revólver com carinho e desvelo, até com certa ternura. Alisei aquela peça metálica que finalmente acabaria com o meu problema. Procurei as balas no bolso do paletó e encaixei uma a uma, no tambor. Depois de alimentá-lo, dei pequeno impulso pra direita; o tambor aninhou-se de volta na arma. Destravei o cão e preparei-me para morrer.

Meu plano previa que tudo corresse discretamente — isto é, não queria matar-me no apartamento para não causar escândalo na vizinhança. Também não queria escândalo ali no hotel, aquele esporro, todo mundo ouvindo o tiro, gente correndo, o escambau. Por isto, resolvei botar dois travesseiros entre o cano do revólver e o peito, pra abafar o som do tiro. Botei os travesseiros bem em cima do coração. Peguei o revólver e firmei o cano de encontro ao travesseiro. Desajeitadamente preparei-me para puxar o gatilho.

No momento final lembrei que estava deitado na cama exatamente como o Getúlio. Achei engraçado. Eu ia morrer da mesma forma que o Getúlio, vinte anos depois. Naquele mesmo dia, vinte anos antes, eu estava nas ruas de São Paulo, comemorando com a turma a morte do homem. Fizemos passeatas, baderna, tomamos porres homéricos — nós, a jeunesse dorée de São Paulo, a garotada boa, filhos de gente fina, da UDN histórica, os meninos de ouro contra o ditador que chafurdava no mar de lama. A recordação era engraçada e triste ao mesmo tempo. Por que eu me lembrava do Getúlio?

Num segundo, pensei naqueles vinte anos. Em tudo o que tinha acontecido com o pessoal que no dia 24 de agosto de 1954 festejava com bebedeiras a morte do Getúlio. O crescimento de cada um, a dispersão pela vida; o grupo que vivia atrás do dinheiro. Os que queriam o poder. Os que desejavam a glória. Os casamentos, a dissipação, os estudos, as bebedeiras, a conscientização, o esquerdismo, a riqueza, a miséria, as traições, a loucura. E o que sobrou de tudo? Para uns, boas posições no governo, tão mandando pra burro; pros executivos, as grandes indústrias, os proletas no eito e eles poluindo tudo; e pros fudidos, os conscientizados, as prisões, as torturas, o exílio. Vinte anos. Um ciclo. Que pra mim terminava ali, naquele quarto, com um tiro no peito. Como o Getúlio.

Um tiro a queima roupa, mesmo quando a bala é de calibre 22 e antes deve passar por dois travesseiros, causa um impacto desgraçado. Você sente aquele murro, é empurrado pra trás com violência. Então uma dor terrível se espalha pelo corpo e você empacota. Senti o impacto violento, mas nada de dor. O cano do revólver continuava encostado no meu peito, amassando os travesseiros. Um cheiro de pólvora tomou conta do quarto. Mas não senti dor nem vi sangue. Fiquei intrigado.

Será que mesmo com o revólver apoiado no meu peito, eu, sempre gauche, teria errado a pontaria?

Revolvi dar outro tiro. Apertei o gatilho mais uma vez. Novo tiro, novo impacto, mas novamente não senti dor. Que diabo estava acontecendo? Eu já devia estar nas profundas dos infernos e continuava ali, vivinho, naquele quarto miserável.

Exatamente neste ponto, começou aquela dorzinha fodida; no início, um fino estilete enfiado entre as costelas. Dois minutos depois, eu já estava berrando feito um bezerro desmamado. Eu queria morrer, morrer sim, mas não sentir a puta de uma dor miserável. Eu queria sair deste mundo de vez, pra não sofrer. Mas estava ali, num quarto de hotel de terceira, sangrando, sofrendo e berrando.

Berrei com todas as forças, chamando por socorro, sentia que ia desmaiar a qualquer momento. O esporro movimentou o hotel. O espanhol, quando abriu a porta do quarto e viu a cena, eu na cama, todo empapado de sangue, compreendeu tudo e acho que quis me dar porrada.

— Filho da puta! Tu queres desgraçar meu hotel!

Naquele momento eu não era homem pra responder o insulto. Mas guardei lembrança do que ele disse. Se escapasse, ainda ia dar porradas no espanhol. Pra dizer a verdade estava quase perdendo a consciência. Olhei pro homem com ódio e raiva quando dois imensos crioulos entraram no quarto me embrulharam num lençol e me puxaram escadas abaixo. Pensei no pior: vão me jogar por aí, num terreno baldio ou no rio Tietê. No mesmo instante lembrei que tinha pago três diárias, portanto havia saldo a meu favor na caixa. Mas num instante percebi que qualquer objeção tanto quanto ao destino que me aguardava como ao saldo seria completamente inútil. O espanhol estava realmente furioso.

Carregado pelos dois crioulos, fui levado até a saída dos fundos, beco onde já estava estacionado um fusca meio arrebentado. De dentro do lençol eu percebia as coisas muito vagamente, mas senti quando me atiraram com brutalidade pra dentro do carro. "Estou nas últimas" pensei. O fusca saiu em disparada, eu rezava as derradeiras orações de despedida da cidade que passava célere na janela. Eu já tinha perdido um bocado de sangue, mas não sei como, num certo momento, a hemorragia estancou. A dor também diminuiu, mas ainda era intensa. Enquanto um dos crioulos dirigia o fusca, o outro me vigiava, voltava-se para trás constantemente e me lançava olhares de facínora.

De repente o carro estancou. Os dois crioulos desceram. "É agora" pensei. Eles me pegaram com violência, me atiraram na calçada e partiram em disparada. No chão, ferido, embrulhado num lençol eu comecei a dar graças ao bom Deus e ao espanhol; ainda estava vivo. E fiquei numa puta alegria ao olhar pra cima; os crioulos me deixaram em frente ao Pronto Socorro. Me arrastei até à porta, tentei levantar e entrei cambaleante. Na verdade eu estava dando espetáculo lastimável mas o que fazer? Precisava ser medicado com urgência.

Esbarrei num cara que parecia ser enfermeiro e perguntou:

— O que foi?

O cara perguntou isso com a maior calma do mundo. Parecia que eu era um sujeito normal, e não o molambo ensangüentado, enrolado num lençol. Senti todo o ridículo da minha situação, mas o cara estava na maior tranqüilidade.

— Tiro — eu disse.

— Assalto?

Respondi timidamente:

— Não.

O homem me fitou com um olho de peixe morto. Não resisti e confessei:

— Acho que eu queria me matar.

Ele disse "Anh" e fez um gesto com a cabeça indicando um banco de madeira no fundo do corredor.

— Senta ali e espera a sua vez.

Se você tem duas balas encravadas no corpo, está à procura de socorro urgente e é recebido com frieza de gelo, só tem duas alternativas: ou faz uma cena, cai estrebuchando no chão, berra até que te atendam, ou então senta humildemente, faz o que te mandam e espera a tua vez. Não dá praquela explicação normal que qualquer ser humano decente entenderia: "Olha aqui, estou ferido, ta saindo sangue, providencie um quarto...” Não dá. Eu não sei fazer cenas, então sentei, enrolado no lençol, no banco de madeira da sala encardida, em frente da mesa onde, sonolento, o enfermeiro preenchia fichas.

Aí começou o pequeno calvário. Teria de esperar que ele atendesse um cara que levou um tombo na calçada e estava com a testa rachada e uma mulher ferida, parece que num desastre, quando dirigia embriagada. Esta dona não parava de falar e dava um esporro tremendo no enfermeiro. Dizia que trabalhava no La Licorne, conhecia políticos e delegados, ia mandar prender todo mundo se não fosse atendida logo.

Ela estava meio fudida mesmo, tinha sangue em todo o corpo, mas o enfermeiro primeiro anotava as informações do testa rachada. E eu ali, sofrendo como o diabo, atônito e humilhado. Não sentia vontade de dizer coisa alguma, queria estirar-me no banco, tomar uma injeção para que a dor passasse, queria dormir, sei lá. Mas o testa rachada engrolava as palavras, acho que ele ficou meio biruta com o tombo e não dizia coisa com coisa. Depois de muito esforço a ficha dele ficou pronta e então chegou a vez da dona do La Licorne. Ela gritava dizendo que antes de dar qualquer informação queria ser tratada. Aí apareceu o guarda parrudo e disse que se ela não fechasse a matraca ia ser jogada na enfermaria dos matusquelas; então ela se acalmou.

Quando chegou minha vez — meu Deus, como meu peito doía! o enfermeiro me olhou com uma cara de cansaço mortal. Eu percebi, na expressão do rosto dele, censura à minha incompetência como suicida. Ele gostaria de gritar na minha cara: "por que é que você não se matou direito, seu filho da puta? Por que veio dar trabalho pra gente, seu traste?" Ele estava com vontade de terminar o meu trabalho. Com o mais profundo desprezo, e preguiça infinita, puxou a ficha da gaveta e começou interminável interrogatório que eu respondia com a alma na garganta. Foram os minutos mais humilhantes de toda minha vida. Responder questionário burocrático com duas balas nas costelas é das situações mais degradantes pelas quais alguém pode passar.

Felizmente fiquei pouco tempo no Pronto Socorro. Minha empregada encontrou o bilhete de adeus, achou estranho e avisou meus amigos. Santa empregada, santos amigos! Politiqueiros, exploradores da classe operária, negocistas, mas santos. O pessoal chegou ao galpão em que eu estava quando me levavam aos trambolhões para a enfermaria. Fui praticamente arrancado de lá na base do prestígio dos meus amigos, pois além do tratamento sórdido, esperavam-me várias complicações com a justiça. Mas os santos canalhas resolveram tudo. Quase chorei, quando senti o carinho da turma por mim. Por alguns momentos eles abandonaram as gordas vacas das esposas, as sôfregas amantes e os bezerrinhos dos filhos para acudir um amigo em situação desesperada.

Internaram-me no melhor hospital de São Paulo, pediram o melhor apartamento. Apartamento jóia. Senti-me reconfortado, depois que os médicos fizeram o exame completo e constataram que as balas não tinham afetado qualquer órgão vital; ficaram alojadas na gordura, entre as costelas flutuantes. No dia seguinte resolveriam se seria o caso de operar para retirá-las. Desejavam que eu passasse uma boa noite, e sugeriram que um dos meus amigos ficasse comigo, como acompanhante. Os médicos não confiavam em mim. Senti um certo mal estar entre a turma. Cada um queria safar-se o mais depressa possível — é compreensível. Mas finalmente ficou decidido que Mário seria o meu guardião. Todos se retiraram, menos o Mário, que entrou no banheiro e, ao voltar, de cuecas, perguntou:

— Tá tudo bom aí contigo?

Olhei para ele com um olhar meio morno, meio morto. Eu estava cansado. Olhei o teto, virei-me e pedi:

— Me dá um copo d' água.

Mas o filho da puta nem me ouviu. Pulou na cama, tomou o meu mandrix, disse boa noite e encornou no mais profundo dos sonos.


Cícero Sandroni (1935) nasceu em São Paulo (SP). Cursou jornalismo na Pontifícia Universidade Católica - Rio e Administração Pública na Fundação Getúlio Vargas. Iniciou sua carreira jornalistica em 1956, no “Correio da Manhã”. Depois, no “Globo”, “Diário de Notícias”, “Tribuna da Imprensa” e no “Cruzeiro”. Em 1966 fundou a revista “Ficção”. Voltou ao “Correio da Manhã”, onde escreveu, durante cinco anos, a coluna “Quatro Cantos”. Em 1971 ingressou na Boch Editores. Em 1975 voltou ao projeto “Ficção” e dirigiu o “Jornal de Debate”. Foi redator do “Jornal do Brasil”. Ocupa a cadeira nº 6 da Academia Brasileira de Letras, na sucessão de Raimundo Faoro.


Livros publicados

- O Diabo só chega ao meio-dia, contos, Nova Fronteira, 1985.

- O vidro no Brasil, ensaio histórico, Objetiva, 1989.

- Austregésilo de Athayde, o século de um liberal, Agir, 1998.
  (Prêmio José Ermínio de Moraes de 1999 da ABL)

- Cosme Velho, passeio literário pelo bairro, Relume Dumará, 1999.

- 50 anos de O Dia, história do jornal, 2002

- O peixe de Amarna, romance, Record, 2003.

- Carlos Heitor Cony, da coleção Perfis do Rio, Relume Dumará, 2003.


Livros no prelo

- De Pedro I a Lula - História do Jornal do Commercio

- Testemunho da Esperança - Entrevistas com Alceu Amoroso Lima, Barbosa Lima Sobrinho, Antonio Houaiss, Raymundo Faoro, Roger Garaudy, Oscar Niemeyer e outros.

- Um dinossauro no Leblon - Crônicas.

- Morrer em Casablanca - Novela.

- Batman não foi a Búzios - Contos.


Texto traduzido

- Para o alemão, o conto "Um suicida", do livro "O Diabo só chega ao meio-dia", na antologia Dritte Welt, da Peter Hammer Verlag, com o título "Ein Selbstmörder".



Traduções para o português

- Introdução ao Jornalismo/Introduction to Journalism, de Fraser Bond, 1ª ed. 1959, 2ª ed. 1962. Editora Agir, RJ.

- O jardim da meia-noite/Tom’s Midnight Garden, de Philippa Pearce, 1998, prêmio o Melhor para a Criança, da FNLIJ. Editora Moderna SP.

- A maçã de Eva/Monólogo de Dario Fó e Franca Rame, montada por Clarisse Abujamra em várias capitais do País.


Colaborador em obras coletivas

- Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro, edição do CPDOC, da Fundação Getúlio Vargas, coordenação de Alzira Abreu, RJ.

- Novo Dicionário de Economia, de Paulo Sandroni, editora Best Seller, SP.


Verbetes sobre o autor

- Enciclopédia Delta Larousse, 1970, Antonio Houaiss, página 6077, vol. 13.

- Enciclopédia da Literatura Brasileira, 2ª ed., Afrânio Coutinho e J. Galante de Souza, página 1437, vol., editora Global, SP.


O conto acima foi publicado no livro "O diabo só chega ao meio-dia", tendo sido extraído da antologia "Ficção - Histórias para o prazer da leitura", Editora Leitura - Belo Horizonte (MG), 2007, pág. 336, organização de Miguel Sanches Neto.

Leia o texto. Compre o livro.

 

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