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Arnaldo Nogueira Jr



Cássio Pantaleoni


Desespantalhamundos

Cássio Pantaleoni


Tinha aquela menina. Fazia o padre rifar seus pecados com a ave-maria-cheia-de-graça na ponta da língua e o aleluia por debaixo da batina, em uma oferta que desassossegava até as excelências mais castas, quando a boca entreaberta presenteava a língua à hóstia.

Catequizada no rigor bíblico, nas frias salas do colégio das freiras, escolheu a comunhão para exorcizar a meninice e convocar a mulher que então vazava no quadril adolescente, época em que já emprestava um vestido de linho branco para alinhar um par de coxas fresco e arrepiar os seios, para o horror dos hábitos salesianos.

De pequena soube de sua vocação, nas brincadeiras atrás da casa, nos porões abandonados, nos esconderijos da escola, onde descobria dos meninos um outro jogo ao pé do ouvido, coisa que ainda lá não lhe conquistava a simpatia. Cuidou de ser menina até pintar de vermelho as rendas de seus segredos. Mas como a natureza exige a espécie, transformou-se naquilo para que veio ao mundo.

Aconteceu que toda a comunidade, em certo domingo de calor escancarado, deu com o diabo dentro de si, um ornamento novo para a alma tão imaculada que guardavam ao paraíso, untando a testa de queroque-te-como-toda, tonteando entre o bem e o mal, enquanto a menina, acomodada na cadeira solitária à frente da nave, filava olhares no cruza-descruza das pernas, vez que outra deixando escapar uma inocência fingida pelo canto dos olhos. Os outros, profanados, escondendo a ereção, perdiam os versículos que, no altar, o pároco resmungava já esvaziado de qualquer santidade; ela, que não se arredava da ocasião, que ali fazia palco da mímica improvisada, tentava olhares, trejeitos, com aquela oferta irrecusável de quem curva o sorriso aos quinze anos. O silêncio, uma espécie de vozerio surdo, censurável até as medidas das mais beatas, denunciava intenções que, em outras casas, pagaria por hora o aluguel do favor mundano. Desavisada de tudo, ela embalava os vícios reprimidos de uma dezena de entediados maridos, plantando uma promissória parelha de chifres nas amantes de final de mês.

Missa terminada, alcançou o sacristão, tamborilando os saltos pelos ladrilhos abençoados, confessando pressa em resolver questão que, se não tratada imediatamente, traria grandes dificuldades para as lidas da sacristia. O noviço, embeiçado no decote da mocinha, fingiu a maior atenção possível, enquanto ela acusava a mão sorrateira do João da Belinha, que trocava a moeda pela nota generosa dos dízimos de toda a gente. Uns tantos outros invejavam o deslumbrado moço que esforçava a alma no caminho reto, tão perto do cheiro da menina nova. Pela garganta do templo as mulheres escoavam doloridas, dor de inveja, de ciúme, dor de fêmea que pariu demais e já trocou os seios por um par de mamas preguiçosas, todas entocadas nas meias-calças, nos sutiãs, nas anáguas, nos vestidos abaixo dos joelhos. Restou apenas a devota, pelo padre apaixonada, mulher do tal João — Belinha por alcunha, Elizabete por certidão —, comendo a menina com um par de sobrancelhas duras e lábios contraídos, com jeito de quem descobre a calúnia depois da consagração.

O incontornável drama deu-se quando a Belinha, já desejando a orelha da guria, na ânsia de desfazer a porca imagem daquele tão seu João, tropeçou no aborrecimento, empilhando sobre o sacristão e os ameninados homens, os gestos de quem, desastrado, perde a pose, esgarçando os braços sobre o decote da delatora. Rasgou o vestido de cima a baixo, pondo à vista um par de seios empinados e adornados por auréolas rosas que firmemente apontavam para o horizonte dos olhares da matilha. Quando deu conta do acontecido, João emprestou o abraço à gazelinha, com a desculpa de um gesto nobre, na oportunidade única de chegar perto daquela preciosidade. O puta-que-te-pariu que esbofeteou à cúpula daquela assembléia divina despiu João de seu engenho, entoado pela mocinha que ali de Eva posava emputecida, mesmo que nos mais peculiares contornos de sua alma encontrasse o despudor, a desavergonhada vontade de oferecer a pia aos jorros incontidos dos mais recatados. Belinha, que desabrochava um despeito, ainda embrulhada entre os embeiçados, viu nas rugas jovens do marido um desejo de carne, uma vontade de sujeira, de emporcalhar o mundo todo, e deu-se conta, como aos doze, que dos homens pouco lhe coubera, senão um casamento apressado aos dezessete, umas poucas noites sem o gozo ávido, e um comichão que prometia e não cumpria, deixando gélida as entranhas da mulher que então ia sofrendo. Ele, debruçado ao pé da deusa, com a cara inchada e a elegância desfeita, ruminava a vergonha daquele ímpeto descontrolado que o lançara aos seios jovens da donzela.

Porém, nos enquantos de todo aquele quadro, entremeava um desespero no sacristão, algo que lhe abismava os critérios puros, mas que de outra sorte evocava a Trindade, os santos, os arcanjos, todo o tipo de visões de benevolência e inclinação frígida que só quem reza mais do que pensa pode manter. Enquanto salivava, maldizia. Maldizia o padre, o João da Belinha, maldizia a própria Belinha, a Virgem, a menina, todos que ali se enlaçavam na lascívia, nesse ou no outro mundo. Meu Deus, sou apenas um homem! gritou desvirtuado, jurando arrancar a pequena de tantas mãos ensebadas.

Todos calaram. Ainda voava o eco pelos cantos do altar quando Belinha avisou: é apenas uma fedelha! Tarde demais. A outra, despojada dos trapos, empinou o orgulho, oferecendo o seio, a boca e o mistério ao sacristão. Apenas homens, apenas uma menina, apenas as duras penas dos humanos, a insuperável sina dos humanos, pensou o já-não-tão-beato noviço, enquanto esfregava os beiços na fêmea.

Belinha, horrorizada, não se conteve. Atirou-se aos desavergonhados, esbravejando a pouca-vergonha que já então não era mais de João. Os outros, pasmados, escorreram a inveja disfarçada, emoldurando a cena toda com absurdos-que-vergonhas-onde-já-se-viu. João nada fez senão arrebanhar o grupo porta afora, com o tesão entre as pernas.

Na igreja, a mácula descurou a castidade.

Acordou, ao lado de quem não valia a pena, com as entranhas secas, no quartinho atrás da igreja, encarando o crucifixo que na parede aborrecia os demônios. No banheiro, lavou as pregas larga-fendadas no balde, sabão de pedra e água benta; depois veio a toalha, prometendo um nada-não, uma absolvição.

Vestiu os trapos, bateu a porta. Ajeitou a menina que ainda era, batizada, ganhando as ruas com quinze anos.


Cássio Pantaleoni (08/08/1963), escritor, filósofo e ensaísta, é gaúcho e reside em Porto Alegre (RS). Dono de formação eclética, é Mestre e Bacharel em Filosofia, com complemento curricular em disciplinas da Psicologia Social e Psicologia do Desenvolvimento. Atua profissionalmente na área de Soluções de Software para Processos de Gestão Empresarial. Devido à sua inquieta curiosidade multidisciplinar desenvolveu conhecimentos em diferentes áreas de estudo, demonstrando capacidade de dissertar sobre temas diversos, uma concessão ao entendimento de que a história do conhecimento humano é a história do entrelaçamento de idéias.

O texto acima nos foi enviado gentilmente pelo escritor.

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