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Cora Coralina
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O lampião da Rua do Fogo
Cora
Coralina
Ali, naquele velho canto onde a Rua de Joaquim Rodrigues faz um recanteio, morava Seu
Maia, casado com Dona Placidina, numa casa de beirais, janelas virgens da profanação das
tintas, porta da rua e porta do meio. Portão do quintal, abrindo no velho cais do Rio
Vermelho. Isso, há muito tempo, antes da rua passar a 13 de Maio e da casa ser fantasiada
de platibanda.
Seu Maia era muito conhecido em Goiás e era porteiro da Intendência. Boa pessoa.
Serviçal, amigo de todo mundo e companheirão de boas farras. Gostava de uma pinguinha em
doses dobradas, dessas antigas que pegavam fogo. Então, se misturava vinho, conhaque e
aniseta; só voltava para casa carregado pelos companheiros, que o entregavam aos cuidados
da mulher.
Esta, acostumada, embora com a sina ruim, como dizia, não poupava a descalçadeira quando
recebia o marido naquele fogo, arrastando a língua, de pernas moles, isto quando não
virava valente, quebrando pratos e panelas e disposto a lhe chegar a peia.
Dona Placidina era muito prática, nessas e noutras coisas... Ajeitava logo um café
amargo, misturado com frutinhas de jurubeba torrada, que o marido engolia careteando e o
empurrava para a rede, onde roncava até pela manhã ou se agitava e falava a noite
inteira.
Coitada de Dona Placidina, comentavam as amigas. Seu Maia é um santo homem sem
esse diabo da pinga.
E ensinavam remédios, simpatias, responsos, rezas fortes. Simpatia que dera certo em
outros casos, era nada para ele. Remédios? Inofensivos como a água do pote. Os próprios
santos se faziam desentendidos dos responsos, velas acesas e jaculatórias recitadas.
Dona Placidina, cansada daquele marido incorrigível, acabou botando o coração ao largo,
embora achasse, no íntimo, que melhor seria uma boa hora de morte para ela... ou antes,
para o marido, esta parte no subconsciente.
Naquele dia, como a dose da boa fosse mais pesada, Seu Maia, que já vinha se ressentindo
do fígado com passamentos e vista escura, se achou pior.
Os amigos o trouxeram para casa mais cedo. Tiveram mesmo de o levar para a cama e o meter
entre as cobertas. De nada valeu a chazada caseira.
No dia seguinte, chamaram Seu Foggia que diagnosticou empanchamento e doença do
coração. Receitou um purgativo e uma poção. Seu Maia piorou. Dona Placidina se
desdobrou em cuidados especiais. Esqueceu o defeito do marido, as desavenças, os pratos
quebrados e passou a sentir, antecipadamente, os percalços da viuvez.
Os amigos não arredaram. Faz-se a conferência médica das vizinhas prestativas.
Escalda-pés, benzimentos, sinapismo, nada deu jeito. Nem valeu promessa de muito boa cera
ao senhor São Sebastião. Seu Maia morreu.
Os companheiros tomaram conta do morto. Levaram o corpo.Vestiram-lhe o fato preto de
sarjão, que tinha sido do casamento. Calçaram meias, ajuntaram-lhe as mãos no peito.
Pearam as pernas e passaram um lenção branco, bem apertado, no queixo. Chamaram um
canapé, largo de palhinha, para o meio da sala, deitaram o cadáver, cobriram com um
lençol. Cuidou-se do pucarinho de água benta, com seu ramo de alecrim. Acenderam-se as
quatro velas e, nos pés do morto, botou-se um caco de telha com brasa e grãos de
incenso. Era assim que se arrumava defunto em Goiás, antigamente.
Os amigos foram chegando, tomando posição e começou o velório. Dona Placidina,
entregue aos cuidados das amigas, mal escapava de uma vertigem, caía noutra. Afinal, à
força de chás de arruda, de casca de tomba e de Água Florida de Murray, voltou a si e,
como era decidida e de espírito prático, botou de parte o abatimento e passou a cuidar
do pessoal que fazia sentinela.
Café com biscoito pelas 10 horas. Mais tarde, mexido de lombo de porco e ovos fritos com
farofa, comido na cozinha, e requentão quando a noite esfriou mais e os galos passaram
amiudar.
Entre a diligência caseira e suspiros puxados, a viúva, de vez em quando, levantava a
ponta do lençol que cobria o marido e enxugava umas lágrimas hipotéticas. Bom
marido, lastimava e, lá consigo, não fosse a pinga, era a falta que
tinha...
No dia seguinte, veio o caixão com tampa solta, como de costume. Agasalharam ali o
defunto. Chegaram mais amigos e mais comadres. Dona Placidina louvava as virtudes
conjugais do finado, em crises nervosas de choro seco sem lágrimas, o choro mais
difícil que existe.
A cada visita que chegava, com seu carinhoso abraço e formalíssimos meus
pêsames; havia uma exaltação no choro ressecado da viúva.
Pelas duas horas, começou a fazer vento de chuva e um trovão surdo se ouviu ao lado da
Santa Bárbara. Como o caixão teria mesmo de ser carregado na força dos braços, os
amigos resolveram apressar o saimento, antes que o tempo enfarruscado se decidisse em
água. Vento da Santa Bárbara é chuva certa no São Miguel. E enterro debaixo de chuva
era a coisa mais estragada que podia acontecer em Goiás.
Dona Placidina se debruçou em cima do morto. Não queria deixar sair Seu Maia, coitado...
As amigas com chazadas de alecrim. Os amigos tomaram conta das alçadas e ganharam a rua.
Entraram na outra, que era Direita, naquele tempo. Passaram a ponte da Lapa, subiram e
entraram no Rosário para encomendação do corpo.
Os sinos das igrejas, todas, dobrando a lamentação de finados. Pela intenção do morto,
cada amigo mandava dar um sinal nas igrejas, quanto quisesse. Ainda que os sinos tocam
como a gente quer, alegres ou soturnos.
Os sineiros sempre tiveram esmero especial para anjinho ou defunto. Essas duas palavras,
em Goiás, delimitavam as circunstâncias da idade, sem mais explicações. Anjinho era
criança mesma ou moça virgem e, defunto, gente pecadora.
Ia o cortejo subindo e os homens se revezando nas alças, que o morto estava pesado. Com a
doença curta, nem tivera tempo de emagrecer. Iam depressa, que a chuva já tinha posto
uma carapuça branca no cocuruto do Canta Galo.
Na frente, um popular, afeito àquele préstimo, carregava a tampa que só ia ser colocada
na beira da cova. Outros levavam os dois tamboretes, tradicionais, para o descanso do
ataúde, quando se trocavam os que iam carregando. Os músicos, de fardão escuro, tocavam
um funeral muito triste. Sendo de notar que não havia enterro em Goiás sem
acompanhamento de música, somente os muito pobrezinhos. Na rabeira, a molecada da rua.
Queriam ver o caixão descer no buraco, se divertiam com aquilo.
Na esquina da Rua do Fogo com a Rua da Abadia, existiu, durante muito tempo, um poste de
lampião antigo, saliente, fora de linha, puxando mesmo para o meio da rua. Era um
tropeço. Coisa embaraçosa. Não foram poucos os esbarros, cabeçadas, encontrões
verificados ali.
Enterros que subiam, já de longe, começavam a torcer à direita para se desviar do
lampião, que não tinha outra conseqüência senão atrapalhar. Naquele dia, com a
aflição da chuva que vinha perto e com o peso do caixão que era demais, ninguém se
lembrou do poste. Foi quando o compadre Mendanha, que ia na alça dianteira pela esquerda,
pisou de mau jeito num calhau roliço, falseou o pé, fraquejou a perna e... bumba! Lá se
foi o caixão bater com toda força no lampião.
Com a violência do baque, o defunto abriu os olhos, desarrumou as mãos e fez força de
levantar o corpo.
A essa hora, o pessoal do enterro tinha se desabalado, em doida carreira pela rua abaixo e
largado o morto se soltando da laçada das pernas. O dia inda estava claro, não era hora
de assombração. Alguns, mais esclarecidos, resolveram voltar e ver de perto o
acontecido.
Encontraram Seu Maia de pé, muito amarelo, escorado no poste, com tremuras pelo corpo e
olhando, com desânimo o caixão vazio. Reconheceram, então, que o mesmo estava vivo e
que era preciso voltar com ele para casa. Guardaram o caixão inútil na igreja da Abadia
e desceram a rua, amparando o ex-morto.
Todas as janelas, agora, com gente assombrada ante aquele caso novo na cidade. A meninada
na frente, gritava:
Evém o defunto...
De dentro das casas, os moradores corriam para as portas e só se ouvia:
Vem ver, Maricota... vem ver, Joaninha. Óia o defunto que evém voltando...
Amparado pelos amigos, metido naquele sarjão preto, desusado, calçado só de meias,
lenço na cara e muito devagarinho vinha Seu Maia de volta.
Um portador foi na frente avisar Dona Placidina, daquela ressurreição e conseqüente
retorno, ao que ela só teve expressão sintomática:
Seja pelo amor de Deus.
Seu Maia chegou afinal, entrou, recebendo um abraço de boas-vindas mais ou menos
calorosas da mulher. Bebeu um cordial. Meteu-se na cama e de novo foram chamar Seu Foggia.
Este veio. Examinou, apalpou, auscultou, pediu para ver a língua. Concluiu, com
sabedoria, que tinha sido um ataque de catalepsia, muito parecido com a morte, mas que
não era morte, não.
A providência tinha sido o lampião do meio da rua, senão teria sido mesmo enterrado
vivo.
A cidade comentou o caso por muito tempo. Seu Maia foi entrevistado por todos os
sensacionalistas da terra gente insuportável daquele tempo. Muita língua
desocupada levantou a suspeita de que vários fulanos e sicranos daquele tempo tivessem
sido enterrados vivos e toda a gente ficou se pelando de catalepsia. Os letrados foram
até o Chernoviz e Langard. Conferiram-se diploma no assunto e discorriam de doutor e com
muita prosódia, sobre catalepsia ou morte aparente.
Enquanto os comentaristas faziam roda, o doente recuperava a saúde. Dona Placidina, muito
prática como sempre, aproveitou o acontecimento para uma pequena homilia doméstica,
complicada e cheia de boa dialética feminina, de que aquilo fora aviso do céu e
castigo de Deus...
E já pelo choque emocional vá lá que naquele tempo não havia destas coisas não
já pelo medo de novo ataque e de ser mesmo enterrado vivo, o certo é que o homem
moderou a bebida.
Dona Placidina, no entanto, já havia, no seu foro íntimo, aceitado a idéia da viuvez e
aquela volta inesperada do marido vivo não melhorou de muito os pontos de vista da
ex-viúva.
Alguns meses depois, Seu Maia adoecia gravemente. Vieram os amigos da primeira viagem.
Apareceram as clássicas e inefáveis comadres. Deram-se os remédios. Da botica e
extrabotica. Foi bem purgado e lhe aplicaram ventosas e sinapismos. Nada serviu. Seu Maia
morreu.
Seu Foggia então declarou que, por via das dúvidas, só levassem o morto quando
começasse a feder. Fez-se de novo o velório com todas as regrinhas de costume. Café com
biscoito pelas dez horas. Viradinho de feijão e lingüiça comidos, com voracidade e
discrição na cozinha, e quentão forte de canela e gengibre, quando a noite esfriou e os
galos amiudaram.
Contaram-se casos. Louvaram as virtudes do finado, num breve necrológio. Passaram a
anedotas discretas. Falou-se da carestia da vida, dos erros do governo e se fez a
filosofia da morte.
A viúva chorou, mais ou menos conformada com aquela segunda via. O compadre Mendanha
tomou conta de trocar as velas que iam se consumindo, de regrar o pucarinho de água benta
com seu raminho de alecrim.
No dia seguinte, quando perceberam que não mais haveria engano, os amigos ajuntaram as
alças e levantaram o caixão.
Dona Placidina, muito experiente, despediu-se do morto em soluços alternados. Teimou com
as amigas: dessa vez havia de acompanhar, ao menos até a porta.
O compadre Mendanha, muito metódico e apegado aos velhos hábitos de sempre pegar caixão
pela alça da frente e da esquerda, tomou posição. Outros pegaram pelos lados, adiante
saiu a tampa, carregada por um popular e os tamboretes indispensáveis, renteando o
caixão aberto.
Espalhado pelas ruas, o acompanhamento, só de homens. Agrupada com seus instrumentos
enlaçados de crepes, a banda do funeral. Arrumado o cortejo, Dona Placidina botou o corpo
fora da porta e chamou alto:
Compadre Mendanha... Escuta, compadre, cuidado com o lampião da Rua do Fogo,
viu... Não vá acontecer como da outra vez.
Cora Coralina (Ana Lins do Guimarães Peixoto Brêtas), 20/08/1889 10/04/1985,
é a grande poetisa do Estado de Goiás. Em 1903 já escrevia poemas sobre seu cotidiano,
tendo criado, juntamente com duas amigas, em 1908, o jornal de poemas femininos "A
Rosa". Em 1910, seu primeiro conto, "Tragédia na Roça", é
publicado no "Anuário Histórico e Geográfico do Estado de Goiás", já com o
pseudônimo de Cora Coralina. Em 1911 conhece o advogado divorciado Cantídio Tolentino
Brêtas, com quem foge. Vai para Jaboticabal (SP), onde nascem seus seis filhos:
Paraguaçu, Enéias, Cantídio, Jacintha, Ísis e Vicência. Seu marido a proíbe de
integrar-se à Semana de Arte Moderna, a convite de Monteiro Lobato, em 1922. Em 1928
muda-se para São Paulo (SP). Em 1934, torna-se vendedora de livros da editora José
Olimpio que, em 1965, lança seu primeiro livro, "O Poema dos Becos de Goiás e
Estórias Mais". Em 1976, é lançado "Meu Livro de Cordel", pela
editora Cultura Goiana. Em 1980, Carlos Drummond de Andrade, como era de seu feitio, após
ler alguns escritos da autora, manda-lhe uma carta elogiando seu trabalho, a qual, ao ser
divulgada, desperta o interesse do público leitor e a faz ficar conhecida em todo o
Brasil.
Sintam a admiração do poeta, manifestada em carta dirigida a Cora em 1983:
"Minha querida amiga Cora Coralina: Seu "Vintém de Cobre" é, para mim,
moeda de ouro, e de um ouro que não sofre as oscilações do mercado. É poesia das mais
diretas e comunicativas que já tenho lido e amado. Que riqueza de experiência humana,
que sensibilidade especial e que lirismo identificado com as fontes da vida! Aninha hoje
não nos pertence. É patrimônio de nós todos, que nascemos no Brasil e amamos a poesia
( ...)." Editado pela Universidade Federal de Goiás, em 1983, seu novo livro
"Vintém de Cobre - Meias Confissões de Aninha", é muito bem recebido
pela crítica e pelos amantes da poesia. Em 1984, torna-se a primeira mulher a receber o
Prêmio Juca Pato, como intelectual do ano de 1983. Viveu 96 anos, teve seis filhos,
quinze netos e 19 bisnetos, foi doceira e membro efetivo de diversas entidades culturais,
tendo recebido o título de doutora "Honoris Causa" pela Universidade Federal de
Goiás. No dia 10 de abril de 1985, falece em Goiânia. Seu corpo é velado na Igreja do
Rosário, ao lado da Casa Velha da Ponte. "Estórias da Casa Velha da Ponte"
é lançado pela Global Editora. Postumamente, foram lançados os livros infantis "Os
Meninos Verdes", em 1986, e "A Moeda de Ouro que um Pato Comeu",
em 1997, e "O Tesouro da Casa Velha da Ponte", em 1989.
Texto extraído do livro "Estórias da casa velha da ponte", Global Editora
São Paulo, 2000, pág. 63.
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A todos, muito obrigado. Arnaldo Nogueira Júnior. ® @njo |
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