Os Maias, de Eça de Queiroz
Eça, pintor e fotógrafo
Cláudio Mello e Souza
Foi ainda no primeiro ano clássico, e hoje nem sei mais ao que equivale essa antigualha,
para me valer de palavra tão castiçamente portuguesa. O ano era o de...deixemos isso pra
lá. Por dever curricular, vivia preso, às ordens do professor Mário Barreto, entre as
paredes severas de Alexandre Herculano, que impressionavam mas sufocavam, e as
extravagâncias sintáticas de Camilo Castelo Branco, que maçavam a leitura e emperravam
o entrecho (como vêem, insisto em castigar o estilo, um pouco à maneira daqueles dois).
Eles muito me ilustravam, mas pouco ou nada me comoviam.
A minha primeira grande e devastadora comoção literária só me veio mesmo, pouco
depois, com a leitura de Eça e, principalmente, com a travessia inaugural d´Os Maias.
Ainda me lembro das aflições que passei a sentir quando, contando as páginas que
faltavam, me dei conta de que me aproximava do desfecho da tragédia e tragédia
ainda maior! que chegava ao fim do livro.
Não vou fazer aqui e agora o inventário das virtudes e grandezas literárias que me
seduziram e ainda seduzem em Eça no romancista, no cronista, no memorialista, no
jornalista, no polemista e o que chega a ser estranho em se tratando de um
literato! no pintor e no fotógrafo que ele foi, com olho sagaz e mãos precisas.
Fico apenas e é bastante com esses dois últimos.
Sim, porque entre as mais fortes impressões que me ficaram, dessa primeira leitura, e que
se repetiram, nas seguidas releituras, estavam os personagens que ele retratava, e as
paisagens e prédios que reproduzia, dos mais elevados aos mais torpes, das mais belas às
mais miseráveis, dando-lhes vida e paixão, velhacaria e nobreza, ventura e tragédia.
Não é à toa que essa obra, mesmo na perigosa forma de uma adaptação, chega à TV,
como já poderia ter chegado ao cinema. Porque ela é, antes de tudo, mas não acima de
tudo, uma visualização.
Não há descrições decorativas. São todas lindíssimas, mas todas definidoras de uma
circunstância, de um caráter, de um trecho de paisagem significante, que completa a
psicologia de um tipo como o de Afonso da Maia, ao contemplar o Tejo, na sua volta
ao Ramalhete e a Lisboa .
Quando tive a idéia de lhes apresentar os personagens d´Os Maias, tal como Eça os viu e
os escreveu, pensei se não estaria a desmembrar e a apequenar o romance. Concluí que
não. Primeiro, porque esses retratos são quase autônomos. Têm valor literário em si
mesmos. Podem, por isso, ser entendidos e admirados fora do contexto. Depois, porque, por
força de atração, esses retratos acabarão por convencê-los a conhecer o grande painel
de que fazem parte, esse empolgante épico das paixões humanas a que o Eça dedicou oito
anos de cuidados e talentos todos recompensados.
E agora, chega de papo e vamos à prosa.
Comecemos pelo cenário da tragédia e, depois, vamos em frente, a mostrar os retratos.
Não todos, que são muitos, mas os principais ao menos.
1 - O Ramalhete :
A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875, era conhecida na
vizinhança da rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela
casa do Ramalhete, ou simplesmente o Ramalhete. Apesar deste fresco nome de vivenda
campestre, o Ramalhete, sombrio casarão de paredes severas, com um renque de estreitas
janelas de ferro no primeiro andar, e por cima uma tímida fila de janelinhas abrigadas à
beira do telhado, tinha o aspecto tristonho de Residência Eclesiástica que competia a
uma edificação do reinado da Sra. D. Maria I: com uma sineta e com uma cruz no topo,
assemelhar-se-ia a um Colégio de Jesuítas. O nome de Ramalhete provinha decerto dum
revestimento quadrado de azulejos fazendo painel no lugar heráldico do Escudo de Armas,
que nunca chegara a ser colocado, e representando um grande ramo de girassóis atado por
uma fita onde se distinguiam letras e números duma data.
2 - Os Maias
Os Maias eram uma antiga família da Beira, sempre pouco numerosa, sem linhas colaterais,
sem parentelas e agora reduzida a dois varões, o senhor da casa, Afonso da Maia,
um velho já, quase um antepassado, mais idoso que o século, e seu neto Carlos que
estudava medicina em Coimbra. Quando Afonso se retirara definitivamente para Santa
Olávia, o rendimento da casa excedia já cinqüenta mil cruzados: mas desde então
tinham-se acumulado as economias de vinte anos de aldeia; viera também a herança dum
último parente, Sebastião da Maia, que desde 1830 vivia em Nápoles, só, ocupando-se de
numismática.
3 - Afonso da Maia :
Afonso era um pouco baixo, maciço, de ombros quadrados e fortes: e com a sua face larga
de nariz aquilino, a pele corada, quase vermelha, o cabelo branco todo cortado à
escovinha, e a barba de neve aguda e longa lembrava, como dizia Carlos, um varão
esforçado das idades heróicas, um D. Duarte de Menezes ou um Afonso de Albuquerque.(...)
Todavia, Afonso ainda ia longe, como ele dizia, de ser um velho borralheiro. Naquela
idade, de verão ou de inverno, ao romper do sol, estava a pé, saindo logo para a quinta,
depois da sua boa oração da manhã, que era um grande mergulho na água fria. (...) Em
Santa Olávia as chaminés ficavam acesas até abril; depois ornavam-se de braçadas de
flores, como um altar doméstico; e era ainda aí, nesse aroma e nessa frescura, que ele
gozava melhor o seu cachimbo, o seu Tácito, ou o seu querido Rabelais.
4 - Carlos da Maia
Era decerto um formoso e magnífico moço, alto, bem-feito, de ombros largos, com uma
testa de mármore sob os anéis de cabelos pretos, e os olhos dos Maias, aqueles
irresistíveis olhos do pai, dum negro líquido, ternos como o dele e mais graves. Trazia
a barba toda, muito fina, castanha-escura, rente na face, aguçada no queixo o que
lhe dava, com o bonito bigode arqueado aos cantos da boca, uma fisionomia de belo
cavaleiro da Renascença.
5 - Maria Eduarda (I) (quando ela aparece, pela primeira vez, à porta do Hotel Central):
... uma senhora alta, loura, com um meio véu muito apertado e muito escuro que realçava
o esplendor de sua carnação ebúrnea. Craft e Carlos afastaram-se, ela passou diante
deles, com um passo soberano de deusa, maravilhosamente bem-feita, deixando atrás de si
como uma claridade, um reflexo de cabelos de ouro, e um aroma no ar. Trazia um casaco
colante de veludo branco de Gênova, e um momento sobre as lajes do peristilo brilhou o
verniz de suas botinas.
6 - Maria Eduarda (II) (quando, afinal, Carlos da Maia conhece-a, pessoalmente):
Voltou-se, viu Maria Eduarda diante de si. Foi como uma inesperada aparição e
vergou profundamente os ombros, menos a saudá-la, que a esconder a tumultuosa onda de
sangue que sentia abrasar-lhe o rosto. Ela, com um vestido simples e justo de sarja preta,
um colarinho direito de homem, um botão de rosa e duas folhas verdes no peito, alta e
branca, sentou-se logo junto da mesa oval, acabando de desdobrar um pequeno lenço de
renda. (...) E depois dum instante de silêncio, que lhe pareceu profundo, quase solene, a
voz de Maria Eduarda ergueu-se, uma voz rica e lenta, dum tom de ouro que acariciava.
(...) Os cabelos não eram louros, como julgara de longe à claridade do sol, mas de dois
tons, castanho-claro e castanho-escuro, espessos e ondeando ligeiramente sobre a testa. Na
grande luz escura de seus olhos havia ao mesmo tempo alguma coisa de muito grave e de
muito doce.
7 - Pedro da Maia:
O Pedrinho no entanto estava quase um homem. Ficara pequenino e nervoso
como Maria Eduarda [Eça refere-se à mulher de Afonso, mãe de Pedro, também Maria
Eduarda], tendo pouco da raça, da força dos Maias; a sua linda face oval dum trigueiro
cálido, dois olhos maravilhosos e irresistíveis, prontos sempre a umedecer-se, faziam-no
assemelhar a um belo árabe. Desenvolvera-se lentamente, sem curiosidades, indiferente a
brinquedos, a animais, a flores, a livros.
8 - Maria Monforte:
Nunca Maria Monforte aparecera mais bela: tinha uma dessas toilettes excessivas e teatrais
que ofendiam Lisboa, e faziam dizer às senhoras que ela se vestia "como uma
cômica". Estava de seda cor de trigo, com duas rosas amarelas e uma espiga nas
tranças, opalas sobre o colo e nos braços; e estes tons de seara madura batida do sol,
fundindo-se com o ouro dos cabelos, (...) banhando as suas formas de estátua, davam-lhe o
esplendor duma Ceres.
7- João da Ega:
João da Ega, com efeito, era considerado não só em Celorico, mas também na Academia,
que ele espantava pela audácia e pelos ditos, como o maior ateu, o maior demagogo que
jamais aparecera nas sociedades humanas. Isto lisonjeava-o: por sistema exagerou seu ódio
à divindade, e a toda Ordem social: queria o massacre das classes médias, o amor livre
das ficções do matrimônio, a repartição das terras, o culto de Satanás. O esforço
da inteligência neste sentido terminou por lhe influenciar as maneiras e a fisionomia; e,
com a sua figura esgrouviada e seca, os pêlos do bigode arrebitados sob o nariz adunco,
um quadrado de vidro entalado no olho direito tinha realmente alguma coisa de
rebelde e de satânico, (...) perorando com os seus gestos aduncos de Mefistófeles em
verve...
9 - Eusebiozinho:
Do fundo da sala, destacando em preto, o Silveirinha, o Eusebiozinho de Santa Olávia,
estendia também o pescoço, afogado numa gravata de viúvo de merino negro e sem
colarinho, sempre macambúzio, mais molengo que outrora, com as mãos enterradas nos
bolsos tão fúnebre que tudo nele parecia complemento do luto pesado, até o preto
do cabelo chato, até o preto das lunetas de fumo.
10 - Raquel Cohen:
Era alta, muito pálida, sobretudo às luzes, delicada de saúde, com um quebranto nos
olhos pisados, uma infinita languidez em toda a sua pessoa, um ar de romance e de lírio
meio murcho: a sua maior beleza estava nos cabelos, magnificamente negros, ondeados, muito
pesados, rebeldes aos ganchos, e que ela deixava habilmente cair numa massa meio solta
sobre as costas, como num desalinho de nudez. Dizia-se que tinha literatura , e fazia
frases. O seu sorriso lasso, pálido, constante, dava-lhe um ar de insignificância. O
pobre Ega adorava-a.
11 - Tomás de Alencar:
E apareceu um indivíduo muito alto, todo abotoado numa sobrecasaca preta, com a face
escaveirada, olhos encovados, e sob o nariz aquilino, longos, espessos, românticos
bigodes grisalhos: já todo calvo na frente, os anéis fofos de uma grenha muito seca
caíam-lhe inspiradamente sobre a gola: e em toda a sua pessoa havia alguma coisa de
antiquado, de artificial e de lúgubre. (...) E parecia mais lúgubre com a sua grenha de
inspirado saindo-lhe de sob as abas largas do chapéu, a sobrecasaca coçada e malfeita
colando-se-lhe lamentavelmente às ilhargas.
12 - Dâmaso Salcede:
Em cima, no gabinete que o criado lhes indicou, Ega esperava, sentado no divã de
marroquim, e conversando com um rapaz baixote, gordo, frisado como um noivo de província,
de camélia ao peito e plastron azul-celeste. (...) Ega apresentou a Carlos o Sr. Dâmaso
Salcede, e mandou servir vermouth, por ser tarde, segundo lhe parecia, para esse requinte
literário e satânico do absinto...(...) Desde que Carlos habitava Lisboa, tivera ali,
naquele moço gordo e bochechudo, sem o saber, uma adoração muda e profunda; o próprio
verniz dos seus sapatos, a cor das suas luvas eram para o Dâmaso motivo de veneração, e
tão importantes como princípios. (...) E as suas perguntas foram terríveis. O senhor
Maia achava chic ter um cab inglês? Qual era mais elegante, assim para um rapaz de
sociedade que quisesse ir passar o verão lá fora, Nice ou Trouville? Depois ao sair,
muito sério, quase comovido, perguntou ao senhor Maia (se o senhor Mais não fazia
segredo) quem era o seu alfaiate.
13 - A Condessa de Gouvarinho:
Os olhos brilhavam-lhe, diziam mil coisas; em certos movimentos, o cabelo crespamente
ondeado, tomava tons de ouro vermelho: e em torno dela errava, no calor do gás e da
enchente, um aroma exagerado de verbena. Estava de preto, com uma gargantilha de rendas
negras, à Valois, afogando-lhe o pescoço onde pousavam duas rosas escarlates. E toda a
sua pessoa tinha um arzinho de provocação e de ataque.
14 - O Craft (De um diálogo entre João da Ega e Carlos da Maia):
Ega teve um grande gesto. Era indispensável conhecer o Craft! O Craft era simplesmente a
melhor coisa que havia em Portugal...
É um negociante do Porto, não é?
Qual negociante do Porto! exclamou o Ega erguendo-se, franzindo a face,
enojado de tanta ignorância. O Craft é filho de um clergyman da igreja inglesa do
Porto. Foi um tio, um negociante de Calcutá ou da Austrália, um nababo, que lhe deixou
fortuna. Uma grande fortuna. Mas não negocia. Dá largas ao seu temperamento byroniano,
é o que faz (...): coleciona obras de arte.(...) Carlos desceu também do coupê,
achou-se em face de um homem baixo, louro, de pele rosada e fresca, e aparência fria. Sob
o fraque correto percebia-se-lhe uma musculatura de atleta.
15 - O Cruges (ainda o mesmo diálogo):
...um Cruges, que o Ega não conhecia, um diabo adoidado, maestro, pianista, com uma
pontinha de gênio...
16 - O conde de Steinbroken e outros íntimos do Ramalhete (sempre o mesmo diálogo):
No Ramalhete, o avô fazia o seu whist com os velhos parceiros. Ia o Diogo, o decrépito
leão, sempre de rosa ao peito, e frisando ainda os bigodes...Ia o Sequeira, cada vez mais
atarracado, a estourar de sangue, à espera da sua apoplexia...Ia o conde de
Steinbroken...
Não conheço. Refugiado? Polaco?
Não, ministro da Finlândia...Queria-nos alugar umas cocheiras e complicou essa
simples transação com tantas finuras diplomáticas, tantos documentos, tantas cousas com
o selo real da Finlândia, que o pobre Vilaça, aturdido, para se desembaraçar, remeteu-o
ao avô. O avô, desnorteado também, ofereceu-lhe as cocheiras de graça. Steinbroken
considera isso um serviço feito ao rei da Finlândia, à Finlândia; vai visitar o avô,
em grande estado...
Isso é sublime!
O avô convida-o a jantar...E como o homem é muito fino, um gentleman, entusiasta
da Inglaterra, grande entendedor de vinhos, uma autoridade no whist, o avô adota-o.
Cláudio Mello e Souza é jornalista, poeta e escritor, já com quatro livros
publicados: "O Domador de Cavalos", "Corpo e Alma",
"Passageiro do Tempo" e "Helena de Tróia O papel
da mulher na Grécia de Homero" O texto acima, onde tece comentários sobre
o livro Os Maias, de Eça de Queiroz, nos foi enviado pelo autor amigo, tendo sido
publicado no jornal "Extra" do Rio de Janeiro, nesta data.
José Maria Eça de Queiroz (1845-1900) nasceu na Póvoa de Varzim,
Portugal, e faleceu em Paris, França. Estudou Direito na Universidade de Coimbra,
tornando-se amigo de Antero de Quental, entre outros. Participou nas Conferências do
Casino e é um dos da Geração de 70. Foi nomeado cônsul, tendo viajado pelo Egito,
Cuba, Londres, Paris, etc. Das suas obras destacam-se Uma Campanha Alegre (1871), O
Crime do Padre Amaro (1875-1876), O Primo Basílio (1878), A Relíquia (1887),
Os Maias (1888), Correspondência de Fradique Mendes (1900), A Cidade e as
Serras (1901) e Contos (1902). Traduziu o romance de Rider Haggard, As
Minas de Salomão. É considerado um dos maiores romancistas portugueses do século
XIX.
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