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Arnaldo Nogueira Jr



Cláudio Mello e Souza

 


Bailaora

Cláudio Mello e Souza

À Esperança, nos tablados de Sevilha
"Tot cobert de roges flames,
ai, quin espant!"
(El comte Arnau", leyenda de autor anônimo do século XV)



É o anúncio desta véspera:
O que será é sempre acontecido,
feito esta luz tardia
a consagrar a espera.

No céu andaluz, o inútil infinito
É sexta-feira de paixão.

Alumbram teu rosto os madrigais
e em graça donzela te abstrais:
uma fuga perfeita, bachiana.
Olho teu olhar de sempre mais,
espantos de bruxas, límpidas madonas.
Ainda ficas quando te esvais.
E a isso chamas compartir.

Esperemos o desporvir.
O que pudermos saber,
os mortos já esqueceram.

Quando será velada a foto dessas núpcias,
festa em deserto e encarnado?

Lúcido alvoroço
de teu corpo
em repouso.

Alpendre solar,
a passarinha.

Calle soturna,
tua sombra nua
reluz de embriagar.

Todo sorriso é silêncio,
como esse teu jeito de prazer:
calado, mas retine.

Adourada deusa, passos de marfim,
adereços de grama nas pegadas.
E me vens prometendo
com o destemor do medo,
o que não tens e eu não mereço.
Pisas sem pesar na minha primavera.
E na gestalt de teus músculos,
minha terra treme.

Há um pomar na tua geometria:
são curvas de maçã,
recantos pêssegos.
Que líquida oliva
tremeluz na tua pupila?

Chorar? A lágrima não lavra,
que saudade é vingança da palavra.
Depois de nossas batalhas,
é triste viver em paz.

Ai de mim, ai de mim,
por quem não posso suspirar.
Morro de tantas mortes de amar.
És o que acaba e não tem fim.
Sou um espantalho que braceja;
de susto, minha sombra adeja.
Sevilha festeja o luto;
Em tua despedida me sepulto.
"Aimé, aimé".

É vestido ou nudez
o teu transparecer?

Linguagem vertical,
gravas no chão
fonemas de metal.

Entre tuas pernas abertas em arpejo,
creio na morte eterna e te solfejo.

Desfaz-se o nosso tormento,
em sobressalto e lamento.

Este o fim do nosso feito:
a inconclusão do perfeito.


Cláudio Mello e Souza
é jornalista, tendo iniciado sua carreira em 1959 como repórter no "Diário Carioca" e, em seguida, como crítico de cinema. Em 1960 vai para o "Jornal do Brasil", onde exerce as funções de copydesk e redator das notícias de primeira página. No governo Jânio Quadros, dirigiu a Fundação Cultural de Brasília. Com a renúncia do presidente, voltou ao JB como editor do Caderno B. Em 1966 transferiu-se para a TV-Rio, onde redigiu e apresentou, juntamente com Heron Domingues, os telejornais da noite. De 1967 a 1969, dirigiu a revista "Fatos e Fotos", sendo então convidado por Adolpho Bloch para assumir o cargo de Diretor das sucursais das revistas do Grupo Bloch na Europa, inicialmente em Portugal e, depois, em Paris. De volta ao Brasil, trabalhou no Departamento de Projetos Especiais da Rede Globo, sendo também colunista e, meses depois, editor de esportes do jornal "O Globo". Após dois anos e meio nessa área, passou a ser o criador de campanhas especiais da Central Globo de Comunicação. A convite de Roberto Marinho, assumiu o cargo de assessor da presidência da Rede Globo, em 1990.

Seus primeiros poemas foram publicados por Mário Faustino, no Suplemento Dominical do JB, em 1959. Tem três livros de poesias publicados: "
O Domador de Cavalos", "Corpo e Alma" e "O Passageiro do Tempo". Lançou, em maio/2001, o livro "Helena de Tróia - O papel da mulher na Grécia de Homero", pela Lacerda Editores - Rio de Janeiro.

Cláudio Mello e Souza faleceu no dia 12/08/2011.

O poema acima, inédito, nos foi gentilmente enviado pelo autor.

 

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