Medo
Charles Kiefer
O que vejo, ao retrovisor, são imagens invertidas: a cicatriz que estava no lado direito
do rosto vai para o esquerdo. O rosto, aprendi no táxi, não é a soma de testa, nariz,
bochechas e queixo, o rosto é outra coisa. Tem gente com feição furiosa que é mansa
como cordeiro, tem gente com jeito de passarinho que é jararacuçu. Aqui, saber
interpretar o rosto é uma questão de sobrevivência. Tive companheiros de profissão que
cometeram o último erro, leram delicadeza onde só havia mágoa funda, ódio bruto. Hoje,
os tais, os que não souberam ler, soletram vermes e terra, no Campo Santo. Eu, sobrevivo,
sem tirar os olhos dos que se aboletam no banco traseiro. Entrou no carro, está
registrado. Pelos espelhos, vejo além do rosto. Da prática, quase posso dizer a
profissão, o estado civil, o bairro em que o vivente mora. É como se as pessoas fossem
incorporando, na cara, o que fazem, o que são. Ontem, o casalzinho não me enganou. Ela,
num vestido florido, cabelo de francesinha; ele, num camisão xadrez, melenudo. Ainda
antes de apanhá-los na esquina da Oswaldo Aranha com a Santo Antônio, enfiei o trinta e
oito embaixo da perna esquerda. Estavam muito longe de um supermercado, a sacolinha com as
compras era disfarce, só podia ser. Entraram, sem cumprimentar. Boa tarde, eu disse. Ela
respondeu, ele continuou quieto. Fixei-me nos olhos dela, ansiosos, e na boca dele, cheia
de trejeitos e dentes saudáveis. Cafungadores. São os mais perigosos. Quem tem fome,
não mata. Ou muito raramente. Quase sempre na primeira vez, que o nervosismo dispara o
gatilho. Quem cheira, já atravessou o Rubicão, sabe que não tem volta. Matam, que já
estão mortos. Segui rodando, o mais lento possível, queria tirá-los da toca. Atravessei
o Túnel da Conceição, peguei a Farrapos, em direção à Zona Norte, conforme o
solicitado. Não demorou cinco minutos, o magrão reclamou. Tudo bem, eu disse, e apertei
o acelerador. Eu já ia recolher, provoquei. Pelo retrovisor não deu para ver, mas tenho
certeza que as pupilas dela dilataram. Desde quando na luta? Ela quis saber. Cinco anos,
eu disse. Na luta de hoje, ela continuou. Fiquei calado, à espreita. Desde que hora na
rua? Ela insistiu. Seis da matina, rodo doze horas. Meu filho roda as outras doze, na
noite. Somos sócios. Encurtei caminho, não valia a pena ficar toureando a novilha. O dia
foi gordo, eu continuei, como que satisfeito. Assim que largar vocês, vou comprar um
vestido, Dona Encrenca merece. Dona o quê?, ela perguntou. Minha mulher, expliquei.
Riram, os dois. Aproveitei a distração deles, meti o pé no freio. Antes que se
recuperassem, saltei do carro, abri a porta traseira e calcei a mulher no revólver. Mãos
na cabeça, que arrebento os miolos dessa puta. Medo, nessa hora não se pode ter medo.
Já me livrei de várias, porque aprendi a não ter medo. Nunca tive medo. Minto, uma vez
sim, há trinta anos. O cheirador obedeceu, que ainda não estava em síndrome de
abstinência. Na sacola de compras, a loira oxigenada trazia o trinta e dois niquelado.
Ele, tinha no bolso um canivete de pressão. Formou uma fila de carros atrás do meu, na
avenida, e um coral de buzinas. Seus merdas, não vêem que é um assalto? Demoraram pra
perceber que era, e que o assaltante não era eu. Mantive os dois com as mãos espalmadas
sobre o capô, até que chegasse uma viatura. Nem fui à DP, os praças me conhecem, me
aposentei como delegado. Quando o Marcos, que era funcionário concursado do Banco do
Estado, entrou no Plano de Demissão Voluntária, compramos o carro e a licença. Ia ficar
fazendo o que, em casa? Vendo bundas na televisão? Eu rodo de dia, ele roda de noite.
Temos ponto na frente da Assembléia Legislativa. Ele tem clientela fixa, transporta essa
gurizada rica para as boates, as festas de formatura, os casamentos, leva as madames
perfumadas para casa, depois das sessões do Theatro São Pedro. De vez em quando, ele me
conta depois, acaba em cama de cetim. Eu, de dia, ando com gente fina, deputados,
prefeitos, a mulherada que vem saracotear no parlamento, essa gente do Piratini,
subversivos de paletó e gravata. Ainda há pouco, levei um deles ao Centro
Administrativo. Um velho conhecido. Vez que outra, a moira coloca a gente no mesmo barco.
Ou no mesmo carro. No mesmo porão. O que vi, ao retrovisor, na primeira vez em que ele
entrou no meu táxi, foi o olhar suave, quase doce, o mesmo olhar sereno, de pomba
enamorada, que tinha aos dezoito anos. Envelheceu. Está careca, mais gordo, a barba
branca. Com certeza, nas horas de folga, nos finais de semana, continua a escrever poesia.
Eu confiscava, na prisão, tudo o que ele punha no papel. Examinava verso a verso, à
procura de mensagens cifradas. Poemas para a namorada, ele dizia no pau-de-arara, poemas
para Alice. Medo, o poetinha me fez sentir medo. Nem em tiroteio, com as balas zunindo
perto dos ouvidos, senti tanto medo como naquele sábado, há trinta anos. Ele entrou no
táxi, afrouxou o nó da gravata. Pra onde vamos, doutor? Eu indaguei, antes de
reconhecê-lo pelo espelho central. Senti que seu corpo se contraía, como que atingido
por uma corrente elétrica. Ele ainda não sabia de onde vinha o medo, a ansiedade, o
desconforto que o assaltava sob o efeito da minha voz. Minhas mãos grudaram no volante,
molhadas de suor, meu intestino se contorceu, os músculos das pernas se retesaram. Eu
sabia que ele andava por ali, no Palácio, secretário, assessor especial, coisa assim. A
revolução deles deu no que deu, mas chegaram ao poder pelo voto, quem diria. Justo eles,
que zombavam da democracia burguesa. Era impossível que eu o esquecesse. O único homem
que me fez sentir medo. Pelo retrovisor, vi seus olhos verdes, tensos, quase suplicantes,
como que em busca de um registro, um detalhe, que conectasse a voz que o angustiara a um
rosto, a um episódio. Dos porões do Palácio da Polícia, eu disse. Nos conhecemos lá,
na fossa, como vocês chamavam aquele buraco. O rosto crispado se descontraiu, o olhar
ficou vago. Mirou, de viés, a multidão atravessando a faixa de segurança. Eu podia ver
seu ar de beato, satisfeito consigo mesmo, vaidoso com o prazer que extraía de sua
ridícula superioridade moral. Olho por olho, dente por dente, julgo eu. Por isso, gosto
dos árabes, eles não perdoam. Depois, durante toda a viagem, evitou me encarar,
mergulhado na sua atitude plácida, quase bovina, budista. Eu conhecia bem esse
alheamento, essa fuga da realidade. Naquele sábado, tentei de todas as formas arrancá-lo
desse pântano, fazê-lo abrir a boca, confessar o assalto, entregar a célula. Arranquei
chumaços de cabelos, pedaços de carne, mas nenhuma palavra que incriminasse outros
agitadores. Era sábado, e para que eu pudesse conviver um pouco com o meu filho, levara-o
comigo, ao trabalho. Enquanto ele brincava no andar de cima, sob os cuidados de algum
agente, eu apertava o poeta, no de baixo. Pedro, codinome, é claro, era franzino, barba
rala, cabelo comprido e sujo, mas de uma resistência admirável, é preciso reconhecer.
Naquele sábado, cansei de bater, apertar, eletrocutar. Antes que eu o matasse, o ódio
contra aquela arrogância estúpida podia me levar ao desatino, entreguei-o ao cabo
Esteves, um maricas humanitário, para que o lavasse, estava mijado e cagado, e para que o
reanimasse, era o dia da primeira visita da família dos presos. Tomei uma ducha, subi ao
escritório, brinquei um pouco com o Marcos, deitei-me no sofá e adormeci. Acordei com a
gritaria do soldado Alfeu, o menino sumira. Marcos tinha nove, quase dez anos. Vasculhei
cada sala, nos andares de cima. Conferi o relógio, passava das seis. Eu tinha dormido
mais de quatro horas. Ao chegar às celas, nos porões, o coração disparou. Vi, no fundo
do corredor, à luz baça, uma sombra à porta do banheiro, e ouvi um murmúrio. Avancei
com dificuldade, meio que escorado à parede, sem coragem de enfrentar o que viria, o que
eu pressentia. Medo, eu senti medo, como nunca tinha sentido. Marcos, carne da minha
carne, não tinha nada a ver com aquela miséria, com aquele horror, eu cumpria ordens,
ele era apenas um menino. Meu filho, meu filho, eu murmurava a cada passo. Parei na porta
do cubículo, sem fôlego. Pedro, barbeado, já recuperado da sessão da tarde, um olho
quase fechado pelo inchaço do rosto, estava trocando os curativos diante de um espelho
manchado pela umidade, com o auxílio de Marcos. Sobre a pia, o jovem revolucionário
deitara a navalha inocente, recém-lavada, com a lâmina aberta. A seu lado, prestativo e
diligente, meu filho estendia-lhe uma gaze limpa, imaculada. Pedro virou o rosto e me
encarou, com seu olhar suave, quase doce, sereno, de pomba enamorada. Ao seu dispor, eu
disse, mas ele desceu do táxi em silêncio.
Charles Kiefer (1958) é natural de Três de Maio (RS). Formado em Letras, é
mestre em Literatura pela PUC-RS, tendo trabalhado com editor junto à Editora Mercado
Aberto, de Porto Alegre. Estreou na ficção em 1982 com "Caminhando na Chuva",
novela de temática adolescente que, já em sua 14ª edição, transformou-se num
clássico da literatura infanto-juvenil. Em 1985 Kiefer ganhou projeção
nacional com a novela "O pêndulo do relógio" agraciada com o Prêmio Jabuti,
da Câmara Brasileira do Livro. Em 1987 participou do International Writing Program, da
Universidade de Iowa, nos Estados Unidos, programa destinado a qualificar escritores. Em
1993, com o livro de contos "Um outro olhar" e com "Antologia Pessoal"
(primeiro lugar na categoria Conto), o escritor recebeu novamente dois prêmios Jabuti. O
autor vem acumulando nos últimos anos uma série de outras premiações, entre elas o
Prêmio Guararapes, da União Brasileira de Escritores, para o "O pêndulo do
relógio", Prêmio Afonso Arinos 1993, por "Um outro olhar", e Prêmio
Altamente Recomendável para Adolescentes 1986, pela Fundação Nacional do Livro Infantil
e Juvenil, para o livro infanto-juvenil "Você viu meu pai por aí?".
Seu nome consta da relação dos dez autores que concorrem ao patronato da 50ª Feira do
Livro de Porto Alegre, a ser realizada em outubro de 2004.
Outros livros do autor:
Aventura no rio escuro - 1983
A dentadura postiça - 1984
Valsa para Bruno Stein - 1986
A face do abismo - 1988
Dedos de pianista - 1989
Quem faz gemer a terra - 1991
Mercúrio veste amarelo - 1994
Museu de coisas insignificantes - 1994
Borges que amava Estela & outros brutos - 1995
Os ossos da noiva - 1996
O guardião da floresta - 1997
O elo perdido - 1997
Contos escolares - 1999
Poncho - 1999
O perdedor - 2000
Nós, os que inventamos a eternidade e outras histórias insólitas - 2001
A última trincheira - 2002
O texto acima nos foi enviado gentilmente pelo autor.
[ Voltar ]
RESPEITE OS
DIREITOS AUTORAIS E A PROPRIEDADE INTELECTUAL
Copyright © 1996 PROJETO RELEITURAS.
É proibida a venda ou reprodução de qualquer parte do conteúdo deste site. |