Caminha, corno

Charles Kiefer


"Contei e recontei a história tantas vezes que j?nem sei mais o que ?memória, o que ?invenção. (A velha enfermeira, cega e meio caduca, com quem trabalhei durante décadas, sequer reconheceu minha voz. ?isto, então, o que nos tornamos? Um saco desconjuntado de carnes moles, um conjunto de córneas vazias, uma boca gretada?) Lembro, sim, do médico que entrou no Hospital de Clínicas com um mendigo nos braços. Não fosse a ação rápida do doutor Nelson, o homem teria morrido. Não, dos detalhes não. Não sei de que cor eram os seus olhos, o tempo deixou as coisas meio nebulosas. Castanhos? Então, o senhor o conheceu? Ah, viu fotos, no hospital. Agora, minhas lembranças mais freqüentes são as de infância, e não desse período intermediário, os anos que passei metida num avental azul, correndo de um quarto ao outro do hospital, injetando morfina, trocando gaze, fechando, sobre olhos mortos, pálpebras espetadas. (Solitários são assim, quando encontram alguém disponível, desfiam o rosário todo. Mas a voz da velha ainda ?agradável e melodiosa, e faz-me recordar as intermináveis noites de plantão, quando comecei a namorar a Júlia. No final da Residência, trocamos as incômodas macas de ambulatório pela cama sólida do casamento.) Escritores, como o senhor, além de não temer os clichês — que, afinal, o que seria da literatura, e da vida, sem os clichês? —, deviam passar os finais-de-semana em salas de emergência, para conhecer sangue, osso triturado, corte de faca, furo de bala. Flaubert, para melhor descrever os tormentos de Ema, tomou, ele próprio, arsênico. Espero que o seu interesse por mendigos passe, ao menos, pela vivência de uma ou duas noites ao relento, nos altos do inverno, sob a marquise de uma calçada. (Mais que escritor, sou médico. E como Pedro Páramo, personagem de Rulfo, s?estou querendo saber quem foi meu pai. Não, não ?s?isso. A traição de Júlia, agora que eu supunha sua carne apaziguada, os e-mails que encontrei em seu computador, trouxeram at?aqui.) Sim, o senhor tem razão, viver ?recordar. Sem memória, não somos nada. O doutor Nelson exigiu que fizéssemos a higiene  no paciente com o mesmo rigor de sempre. "Não ?por ser mendigo que ser?tratado como cidadão de segunda classe", ele disse. "E quem pagar?a conta?", aventurou-se a enfermeira-chefe. "Eu", disse o médico. Toda a implicância que eu nutria pelo jovem e orgulhoso doutor desfez-se naquele instante. Enfim, estávamos diante de um homem justo e sensível. (Não foi fácil localizar essa velha. Na Rua Felipe Camarão, onde residiu por décadas, disseram-me que talvez tivesse retornado a sua terra natal. Em Santa Cruz do Sul, encontrei parentes que me forneceram o endereço na capital, no Morro da Cruz. Meses de busca, e aqui estamos, um diante do outro. Na favela, todos a conhecem. Apesar da idade, presta auxílio aos necessitados. Enxerga pouco, mas tem boa mão para arrumar ossos. Na medida em que sua aposentadoria perdia poder aquisitivo, afastava-se do centro da cidade, e das livrarias. Acabou neste barraco imundo. Muitas vezes, no hospital, presenteei-a com livros. Era a única, na Zona 13, que aproveitava os raros instantes de folga para ler. J?então eu tinha pretensões literárias. A simples visão de um ser humano agarrado a um romance comovia-me. Prometi trazer-lhe algumas novidades, o último Saramago, as memórias de Garcia Márquez.) Não podes imaginar o fedor que exalava. Tinha o corpo coberto de escarras, os cabelos infestados de piolhos. Depois do banho, fiz-lhe a barba. Pelos dentes ainda sadios, percebi que não vivia h? muito na rua. A recuperação foi rápida, era um velho forte. Dias depois, quando fui aplicar-lhe um sedativo, segurou a minha mão. Quero te contar um segredo. Não posso morrer com isso. Ali, naquela hora, imaginou o pior. Mas recuperou-se completamente, e retornou ?rua. Nunca mais o vi. Sentei-me a seu lado e ouvi-o com atenção. Sempre fui delicada com os doentes. A gente nunca sabe o que o destino nos reserva, não ?mesmo? (Muitas vezes eu o via, nas calçadas, arrastando as suas bugigangas, dormitando nos parques, acompanhado de um cachorro sarnento. Jamais me reaproximei. Salvei-o do infarto, era o suficiente. Fiz o meu trabalho, apenas isso. Respeitei a opção radical que fizera. "Enlouqueceu", dizia minha mãe, encerrando o assunto. Se aos lençóis quentes um homem prefere a escarcha da rua, ?problema seu. Não seria eu, que dele tantas vezes ouvi, em seu inglês britânico, Live and let live, que o desrespeitaria. Dei-me apenas o direito de não comunicar a ninguém o grau de nossas relações. Quando foi necessário, salvei-o. Teria morrido na calçada, diante do hospital, sem a cirurgia. Depois, quando me formei, fui trabalhar no interior. Nunca mais o vi. Júlia era, então, apaixonada por mim.) Ele não devia ter fuçado nas coisas dela. Todo casal precisa manter espaços invioláveis. Se Carlos Bovary não tivesse aberto o compartimento secreto da escrivaninha de Ema, teria morrido feliz. Acho que para um homem ?ainda mais difícil. Deles, at?as mulheres exigem que sejam machos. Não somos as primeiras a desdenhar quando descobrimos que o vizinho ?corno e não faz nada? De vez em quando, a esposa dormia na casa de uma amiga. No meio da noite, ele precisou de alguma coisa, era muito desorganizado. Resolveu telefonar. At?aquele instante não desconfiara de nada. O embaraço da outra, a explicação estapafúrdia — que Maurem saíra para comprar cigarros, mas a esposa não fumava —, fizeram soar o alarme. Tinha a noite inteira para procurar. Localizou as cartas. (Envergonhado, mantive em segredo meu parentesco com o mendigo. Quando essa mesma enfermeira, que agora mastiga a boca sem dentes, observou a coincidência de nomes no prontuário, desconversei.) Eu sabia, ele disse, agarrando-me a mão com firmeza. No instante em que apalpei o revólver na cintura, soube que não devia mat?los. Ouvi os gemidos de Maurem, atrás da porta, e compreendi que o que ela sentia era mais que paixão. Meses depois, quando anunciou que estava grávida, cheguei a sentir uma certa alegria, embora tivesse certeza de que o filho não era meu. O menino nasceu saudável, e de olho azul. Um professor de biologia, como eu, que ensinava a Teoria de Mendel a alunos sonolentos, não poderia enganar-se. Romeu comparou os olhos de Julieta a nozes-moscadas. Eu, depois, para faz?la sofrer, comparava os olhos negros de minha mulher a suculentas ervilhas", disse-me o mendigo. Criei o menino. Sabia que um dia ele me salvaria. Não, ele não citou nenhum nome. Médico ou dentista, não tenho certeza. No início da gravidez, para proteg?la de assalto, de estupro, ele a levava at?a porta do prédio. Enquanto ela se divertia, no consultório, ele fumava, na rua. Ao saber de seu estado, o amante quis que abortasse. Ela abriu a janela e apontou-lhe o marido, escorado numa árvore, no outro lado da rua. Ele vai nos matar, desesperou-se o homem. ?manso, ela deve ter dito para acalm?lo. O médico, ou dentista, nunca mais a recebeu. (Caminha, corno, essas ruas são ideais para um mergulho assim, ao fundo, ao que não se expressa ao melhor amigo, que não emerge nem mesmo do sono. Caminha sem pressa, h?sempre uma janela interessante, um fundo de corredor inquieto, uma calçada de lajotas portuguesas, uma árvore mais velha, doente, de casca rugosa e remelenta para ser admirada. Caminha, corno, e esquece o calor infernal de março. Não podes negar, ele ?bonito, assim, semi-nu nas fotos, bermuda gêmea da tua, presente de aniversário, para ele também, ora, então te pensaste exclusivo e único?, jovem, forte, tórax volumoso, braços que a abraçam, sonham-se, escrevem-se, tratam-se com um carinho que desconhecias nela, a tão dura companheira, econômica no afeto, no sexo, no sorriso, caminha e aquece o teu rancor, o teu ódio, a tua mágoa, toma coragem de encontr?los, combinaram por escrito, h?uma rua na cidade, um sof?estratégico, uma amiga alcoviteira, gemidos ainda não, gemidos s?mais tarde. Caminha, corno, e avança por essas ruas com o frio do revólver na ilharga —) Sim, foi o que ele disse, que os gemidos dela, a intensidade deles, o tom, a freqüência, o espanto de descobri-la capaz de amar com fúria, fizeram-no mudar de idéia. Não, eu também não compreendo. A imagem dele, transtornado, decidido a mat?los, caminhando furiosamente por alamedas arborizadas, subindo os degraus de três em três, não teve paciência de esperar o elevador, nunca me saiu da cabeça, não, nunca me saiu da cabeça a imagem dele, escorado na porta e ouvindo os gemidos, e sorrindo."


Charles Kiefer ?natural de Três de Maio (RS), onde nasceu em 05 de novembro de 1958. Estreou na ficção em 1982 com Caminhando na Chuva, novela de temática adolescente que j?vendeu mais de 100.000 exemplares. Em 1985, Kiefer ganhou projeção nacional com a novela O Pêndulo do Relógio, agraciada com o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro. Em 1993, com o livro de contos Um Outro Olhar o escritor recebeu outro Prêmio Jabuti. E em 1996, com Antologia Pessoal, o terceiro Prêmio Jabuti. O autor vem acumulando nos últimos anos uma série de outras premiações, entre elas o Prêmio Guararapes, da União Brasileira de Escritores, para O Pêndulo do Relógio; O Prêmio Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras, em 1993, por Um Outro Olhar; e o Prêmio Altamente Recomendável para Adolescentes, pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, em 1986, para o livro infanto-juvenil Voc?Viu Meu Pai Por A?, entre dezenas de outros. Tem mais de 30 livros publicados no Brasil, na França e em Portugal. As editoras Ática, Record e Leya são suas principais casas publicadoras no Brasil.

Em 2010, a Editora Leya publicou Para Ser Escritor, obra em que o autor elabora seus mais de 25 anos de experiência como professor de oficinas literárias.

Charles Kiefer ?professor de Escrita Criativa, Produção de Textos Poéticos, Oficina de Criação Literária e Conto Brasileiro: Teoria e Prática, na PUCRS, e orientador de oficinas literárias particulares.

Fonte: charleskiefer.blogspot.com

Bibliografia:

O lírio do vale (1977)
Caminhantes malditos (1978)
Vozes negras (1978)
Caminhando na chuva (1982)
Aventura no rio escuro (1983)
A dentadura postiça (1984)
O pêndulo do relógio (1984)
Valsa para Bruno Stein (1986)
Voc?viu meu pai por a? (1986)
A face do abismo (1988)
Dedos de pianista (1989)
Quem faz gemer a terra (1991)
Um outro olhar (1992)
Museu de coisas insignificantes (1994)
Mercúrio veste amarelo (1994)
Borges que amava Estela & outros duplos (1995)
Antologia pessoal (1996)
Os ossos da noiva (1996)
O elo perdido (1997)
O guardião da floresta (1997)
O poncho (1999)
Contos escolares (1999)
O perdedor (2000)
Nós, os que inventamos a eternidade e outras histórias insólitas (2001)
O escorpião da sexta-feira (2002)
A última trincheira (2002)

A poética do conto - 2004
Logo tu repousarás também (2006)
A revolta das coisas (2009)
Para ser escritor (2010)
A poética do conto: de Poe a Borges, um passeio pelo gênero (2011)

Participação em antologias:

Companheiros de duro ofício
Geração 80
Rodízio de contos
Setecontos, setencantos
O fino do conto
100 anos na frente
Histórias de xadrez
Amigos secretos
Identidades
Antologia crítica do conto gaúcho
Para ler os gaúchos
Etnias & carisma
Pátria estranha
Histórias dos tempos de escola

(Fonte: Wikipedia)


O conto acima nos foi enviado gentilmente pelo autor. Inédito, far?parte do livro "Logo tu repousarás também", em fase de edição.

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