Jorge Oxossi Amado
Carlos Coqueijo
No alto mastro da República Independente do Rio Vermelho tremula, invicta, a bandeira de
Iemanjá, a dos cinco nomes. No peji, os deuses que vieram da África começam a se
inquietar. Exigem o tam tam dos grandes atabaques, porque o dia é hoje. O Pai Branco de
não sei quantos capitães de areia, saveiristas, gente da beira do cais, capoeiristas,
amigos de Rosa Palmeirão, de Besouro irmão, vai sair do seu terreiro para batizar novos
filhos que ele deu à Grande Cidade, onde vão morar, correr, gargalhar, roubar, sofrer,
amar no areal do cais, onde as negrinhas são derrubadas nas noites estreladas e perdem a
sua virgindade sem muitos ais de amor.
Lá vai ele, o Pai, que é filho de Inaê e habita as terras de Aioká, onde acena a
bandeira de Janaína, a que é Maria. Vai carregado de alegria e com ele vão todos os que
saíram dos seus livros, como os Orixás que nasceram do ventre de Iemanjá, numa noite de
temporal terrível. E desde então Inaê nunca mais teve sossego, seu filho Orungan
perseguindo-a sem piedade.
Vão para a Cidade Alta, onde vivem os que sorriem a boa vida e se divertem às custas de
Pedro Bala, do Sem Pernas, de João Grande, do Gato, e nem se lembram que a bexiga roeu
Almiro, mesmo com as rezas do Querido de Deus e com a bondade do Padre José Pedro. Eles
não sabem porque Volta Seca quer retomar ao cangaço para o seu "padrim", seu
herói que vinga os meninos das malvadezas da Polícia tirando a vida e o couro dos
macacos do sertão, nem conhecem as estórias que contam a valentia de João de Adão e
enchem as noites de lua dos capitães de Areia, que são os donos da Cidade.
O cortejo já engrossa, o chefe branco vai na frente, batendo pernas com eles por essa
Cidade que é só deles. Mas ainda há muita gente para aumentar as fileiras desse povo
sofredor, que ama nas noites da Bahia como Iemanjá ama os seus filhos do mar. É preciso
não esquecer Jubiabá, o pai preto, que tem o poder nas mãos, todo o mistério das
rezas, dos filtros de amor, das benzeduras que curam tudo. Com ele irão Antônio
Balduino, sem as suas luvas de box, que nessa hora ele não é mais escravo do empresário
Luigi, e Zé Camarão, que lhe ensinou os segredos dos rabos de arraia e do violão.
Augusta das Rendas diz que está vendo lobisomem mas vai sem medo. E Felipe o Belo, o
Gordo sempre rezando, o Sem Dentes, o Anão Viriato, saem todos da "Lanterna dos
Afogados", sob o comando do Capitão de Longo Curso Vasco Moscoso de Aragão, e se
unem ao grupo. Do cais partem os que não podem faltar à festa do Grande Pai que os gerou
na Cidade da Bahia. Guma e Lívia estão de mãos dadas, tanto amor enche seus corações,
mas ele vai escrabriado, porque seu peito dói quando vê Rufino, e sente na carne o
pecado daquela noite em que Lívia à morte no quarto, ele no chão da sala se perdia na
carne de Esmeralda. Rosa Palmeirão deixou suas armas no cais, não leva a navalha no cós
da saia nem o punhal no seio, porque hoje é dia de festa, não de lutar pelos seus
direitos e de seus irmãos perseguidos. Vêm também o invencível Besouro, o velho
Francisco, o misterioso Leôncio, que chegou só para a grande data, o Dr. Rodrigo, com
sua maleta de médico, seu Manoel e Maria Clara cantando aquelas cantigas que embalam o
saveiro nas viagens disparadas. Todos vieram do "Farol das Estrelas" onde
combinaram encontro, tomaram um trago e quem pagou foi Quincas Berro d'Água, para quem
"o impossível não há".
Estão todos com o olho da piedade bem aberto, que hoje é dia de festa no peji de Dmeval,
na rua da Ajuda, novos irmãos vão nascer nas estórias de d. Flor e suas complicações
com os dois maridos.
Vão todos se misturar no mundo mágico que Oxossi do Rio Vermelho, o de corpo fechado
pelas mandingas de Jubiabá, criou para eles.
(1°. VII. 1966)
Carlos Coqueijo Torreão da Costa (05/01/1924 - 20/01/1988) foi compositor,
maestro, jurista, jornalista, poeta, letrista, homem de teatro, cronista e cantor. Nasceu
em Salvador (BA) em família de músicos. Sua mãe era exímia pianista e seu pai,
médico, tocava violoncelo. Faziam saraus e reuniam em casa músicos, intelectuais,
poetas, artistas plásticos e escritores.
Em 1945, Coqueijo formou-se em Direito pela Universidade Federal da Bahia, e
em 1955 formou-se em Filosofia pela Universidade Católica daquela cidade. Estudou violino
no Instituto de Música da Bahia e logo depois vários outros instrumentos.
Multiinstrumentista, tocava violino, piano, violão, órgão, "escaleta",
bandolim, entre outros.
Como cronista, manteve colunas diárias e semanais no Jornal da Bahia e no
jornal A Tarde intituladas Crônicas de Viagens, Crônicas
da Segunda-Feira e Mais Dia, Menos Dia, sendo esse último título
sugerido pelo amigo Stanislaw Ponte Preta).
Em 1966 escreveu e dirigiu a peça "Flor dos Vinicius de Moraes e Mello
também", apresentada no Teatro Vila Velha, em Salvador (BA). Lecionou Filosofia,
Sociologia e Direito do Trabalho na Universidade de Brasília.
Recebeu diversas condecorações, inclusive do governo francês.
Foi presidente da Fundação Teatro Castro Alves, levando para apresentações no teatro
artistas internacionais como Henry Mancini e Quincy Jones. Na Associação Atlética da
Bahia, clube do qual foi também presidente, levou para apresentações renomados amigos
como Vinicius de Moraes, João Gilberto, Silvinha Telles, Nara Leão, Quarteto em Cy,
Carlos Lyra, Elis Regina, entre outros. Exerceu a presidência do Clube de Cinema da
Bahia.
Poliglota, dominava os idiomas inglês, italiano, espanhol e francês. Manteve
correspondência sobre música com Carlos Drummond de Andrade (seu parceiro em
"Cantiguinha"). Foi Juiz do Tribunal Regional do Trabalho e Ministro do Tribunal
Superior do Trabalho. Juiz do Tribunal Administrativo da Organização dos Estados
Americanos (OEA), com sede em Washington D.C. (EUA) até 1988, ano em que faleceu vítima
de uma infecção hospitalar contraída no Hospital Espanhol. Jorge Amado
referindo-se a ele escreveu "O numeroso Coqueijo".
Texto extraído do livro Mais dia, menos dia, Editora Itapuã Salvador
(Bahia), 1972, pág. 18.
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