A partida

Campos de Carvalho


PERNACCHIO — Quantas?

RADAMÉS — Me dê duas. Bem baixas, porém altas.

EU — Me dê uma. E mesa.

PERNACCHIO — Espera a vez, porra! Eu quero três.

O RELÓGIO — Tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac...

EU — Mesa, já dei.

PERNACCHIO — (Assobiando a protofonia do Guarani)...

RADAMÉS — Por falar em já dei, como irá indo a Rosa? Aquilo é que eram panquecas!

PERNACCHIO — Também mesa.

RADAMÉS — Aposto duzentos. Pensando bem, até que Rosa não era lá essas coisas. Senti mais ter perdido a cabra.

EU — Vamos mudar de assunto?... Não vejo.

PERNACCHIO — Duzentos? Então ponha as fichas.

RADAMÉS — (pondo metade das fichas) Cem. Duzentos.

PERNACCHIO — O professor está precisando trocar os óculos.

RADAMÉS — ...Oitenta. Noventa... Fico devendo.

PERNACCHIO — Pago.

RADAMÉS — Leva.

PERNACCHIO — (leva).

EU — Professor, como se explica que, sendo búlgaro, o sr. fale o português tão bem?

O RELÓGIO — Tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac...

RADAMÉS — Tinha um vizinho nosso que era natural do Ceará. E não só era natural do Ceará como freqüentava muito lá em casa.

PERNACCHIO — Antes ou depois que o professor nasceu?

RADAMÉS — Se em Pisa são os vizinhos que fazem os filhos, a senhora sua mãe deve ter sentido uma inclinação muito forte por todos os vizinhos da esquerda.

EU — Senhores: por favor!

O RELÓGIO (passando de 10h20min para 11h42min) – Tic-tac, tic-tac, tic-tac...

RADAMÉS — Quando eu cheguei, o defunto ainda nem estava compenetrado. Tinha ainda um ar de funcionário público, e só faltou me pedir os documentos; Mas os documentos eu apresentei depois à viúva, que aliás já os conhecia antes.

EU — Me dê duas.

PERNACCHIO — E descobriram o assassino?

RADAMÉS — Se descobriram, não sei. Eu pelo menos nunca fui molestado.

PERNACCHIO — O sr. então era o assassino? Quero uma.

RADAMÉS — Quero duas. Não digo que fosse o assassino, mesmo porque nunca o descobriram, que eu saiba. E como poderia ser uma coisa que nem sequer ainda foi descoberta?

EU — Aposto cem. A Bulgária ainda não foi descoberta e o sr. é um búlgaro. E, se pode ser um búlgaro, não vejo por que não pudesse ser um assassino búlgaro.

PERNACCHIO — Quantas pediu?

EU — Duas.

RADAMÉS — Mas, se eu fosse o assassino, eu saberia. Como sei que sou búlgaro ou que pelo menos nasci na Bulgária. (A Pernacchio) O senhor vai pagar? — E, depois, como eu poderia ser o assassino se nunca matei ninguém?

PERNACCHIO — Pago. Mas de que, afinal de contas, morreu o defunto?

RADAMÉS — Atropelado por um ônibus, segundo noticiaram os jornais. Não pago.

PERNACCHIO — Mas então por que o sr. disse que não era o assassino e que não haviam descoberto o assassino?

RADAMÉS — Quem falou em assassino foi o senhor. E se não foi descoberto é porque naturalmente não havia assassino nenhum.

O RELÓGIO (passando das 11h50min para as duas) — Tic-tac,tic-tac, tic-tac...

RADAMÉS — Eu sempre desejei conhecer a Bulgária.

PERNACCHIO, EU — Mas o sr. não é búlgaro?!

RADAMÉS — Saí de lá muito criança, meses apenas. Me dê três. O tal cearense conseguiu convencer meu pai de que o Ceará existia mesmo, e meu pai organizou a primeira expedição búlgara para descobrir o Ceará.

EU — Me dê uma. E descobriu?

RADAMÉS — Se descobriu, não sei. O fato incontestável é que moramos em Quixeramobim e em Quixadá durante quarenta anos. O que não deixa de ser uma prova de peso.

PERNACCHIO — Vou pedir uma. Então quer dizer que o Ceará também existe?

RADAMÉS — Sou eu quem fala? — Que diabo, se nem o Ceará nem a Bulgária existem, então eu fico mesmo num mato sem cachorro. Bato mesa. Mas como dizem que quem não tem cão caça com gato, eu pelo menos tenho o meu gato para caçar um jeito de sair dessa enrascada.

EU — Mesa, também. O diabo é que o seu gato não é de nada, professor. E ele, pelo menos — nasceu em algum lugar?

RADAMÉS — Presumo que no cu da gata, para não dizer pior. Quanto a não ser de nada, só por causa do seu ar ausente, digo que Deus é o rei dos ausentes e nem por isso você é capaz de dizer que ele não exista.

EU — Existe tanto quanto o Ceará ou a sua Bulgária.

PERNACCHIO — O que não quer dizer absolutamente nada. Bato.


Walter Campos de Carvalho (1916) nasceu em Uberaba (MG). Formado em Direito, aposentou-se como Procurador do Estado de São Paulo. São de sua autoria "Banda forra", 1941 (ensaios humorísticos), "Tribo", 1954 (romance), "A lua vem da Ásia", 1956 (romance), "Vaca de nariz sutil, 1961 (romance), "A chuva imóvel", 1963 (romance) e "O púcaro búlgaro", 1964 (romance), hoje considerados marcos da literatura brasileira. O autor também colaborou como o jornal "O Pasquim" e "O Estado de São Paulo", no período de 1968 a 1978. Campos de Carvalho renegou seus dois primeiros livros, "Banda forra" e "Tribo". Foram traduzidos para o francês "A chuva imóvel" e "A lua vem da Ásia". Em silêncio há muitos e muitos anos, seus livros continuavam sendo divulgados entre leitores fiéis, através de cópias. A publicação de sua "Obra reunida", em 1995, e o sucesso alcançado no teatro com a adaptação de "O púcaro búlgaro", nos traz de volta a irreverência e o humor refinado do autor.


Texto publicado no livro "O púcaro búlgaro", foi extraído de "Campos de Carvalho — Obra reunida", José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1995, pág. 380.

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