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Arnaldo Nogueira Jr



Carlito Maia

 


A volta por baixo

Carlito Maia


De dom José Cavaca
(*), humorista inesquecível: "Criminosos brasileiros brilham na Inglaterra, cuja polícia só está preparada para crimes inteligentes".

Verdade: somos especialistas em crimes burros, irreparáveis; tal a grandeza das perdas que acarretam. Sem falar da impunidade. Crimes contra a Pátria, contra o povo, contra a Humanidade. Como no tempo da Inventona de 1° de abril de 64, quando a ditadura militar deitou e rolou, sem que os criminosos fossem punidos e, em muitos casos, sequer identificados. Caso de Sete Quedas, hoje só uma saudade para os que conheceram aquela maravilha da Natureza, que foi por água abaixo, literalmente, porque os milicos no poder (e bota poder nisso) assim o quiseram. Resolveram (resolviam tudo) fazer a hidrelétrica de Itaipu, de parceria com os donos do Paraguai, e mandaram alagar tudo. O fim da picada. Em nome do sinistro binômio "segurança & desenvolvimento", que os levou também à loucura das usinas atômicas, feitas só para salvar da falência a indústria nuclear alemã, jogando fora (boa parte na Suíça) bilhões de dólares.

Os jovens que me honram com a sua leitura não fazem idéia do que foi aquele tempo, embora estejam sofrendo como todo mundo — as conseqüências do desvario do "Brasil potência". Ou onde vocês acham que teve início a rebordosa em que estamos, heim? E o pior é que a pusilanimidade aqui reinante botou uma pedra em cima da imundície e nunca mais se tocou no assunto.

Outro crime monstruoso, e igualmente irreparável: a morte de Henfil. Paradigma da dignidade, da coragem, do patriotismo, Henfil foi assassinado. Hemofílico, como seus irmãos homens, submetia-se a freqüentes (e caríssimas) transfusões de sangue para sobreviver. Numa dessas — em busca da salvação — encontrou foi a morte. Injetaram nele sangue contaminado pela Aids. Também em Chico Mário e Betinho, seus manos. Mas a viúva de Chico Mário acaba de ser reconhecida pela Justiça, que condenou a União e o Estado do Rio pelo seu desaparecimento. E, claro, também pelo de Henfil.

Mas o juiz teve uma recaída e não reconheceu o direito de Lúcia Lara, brava e digna companheira de Henrique por mais de dez anos, impedindo-a de fazer jus a indenização pela brutal perda sofrida. A verdade é que Lucinha não cogitou jamais de receber dinheiro em troca da vida de Henfil, o que não o traria de volta. Mesmo que — num acesso de loucura, dando uma de amoral nato — exigisse a execução dos responsáveis pelo crime nefando, não teríamos de novo o exemplar cidadão. Crime irreparável e, portanto, impunível. Mas Henfil acaba de dar a volta por baixo, se deu! Henfil vive! "Se não houver frutos/ valeu a beleza das flores/ Se não houver flores/ valeu a sombra das folhas/ E, se não houver folhas, valeu a intenção da semente". Suas lições não serão esquecidas jamais. Valeu, Henfil!

Outubro 1991

(*) - Dom Rossé Cavaca.

Carlito Maia (Carlos Maia de Souza), nasceu em Lavras (MG), a 19/02/1924. No início dos anos 30 veio para São Paulo (SP). Segundo seu depoimento, nunca freqüentou escola e foi, sucessivamente, "moleque, lavador de xícaras de café, rebelde, office-boy, contestador, reservista de 2ª categoria (Exército), antifascista, sargento da FAB, boêmio, despachante policial, picareta, corretor de seguros, clochard, ajudante de despachante aduaneiro, bon vivant, tradutor público juramentado".
Mas pisou pela primeira vez na trilha do sucesso no dia 19-02-54, quando completava 30 anos. Levado pelo irmão Hugo Maia de Souza, prestou exame na Escola de Propaganda do Museu de Arte Moderna. Passou em primeiro lugar, chamando a atenção do presidente da mesa examinadora, Geraldo Santos, que se tornou seu amigo e o levou para ser "contato" na agência de publicidade McCann-Erickson, onde foi atender à conta da Good-Year. Sua carreira de sucesso na área de propaganda o fez trabalhar nas grandes empresas do setor no Brasil: Atlas (onde ganhou seu primeiro prêmio - o "Souza Ramos"), Norton, Alcântara Machado, Magaldi, Maia & Prosperi (onde lançou a "Jovem Guarda", "Calhambeque", etc), P.A. Nascimento, Estúdio 13, Esquire e, finalmente, na Rede Globo, onde permaneceu por mais de 20 anos. Em 1978, foi eleito o "Publicitário do Ano". Frasista dos melhores ("
Brasil? Fraude explica"), foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT), sendo de sua autoria os "slogans" "Lula-lá", "O
PTei". Homem de oposição, certa vez declarou que deixaria o partido quando este chegasse ao poder.

Em sua homenagem, foi criado, em 2000, o Troféu Carlito Maia de Cidadania, que premia pessoas que desenvolvem ações sociais em prol da cidadania e na luta pelos direitos humanos.

Carlito faleceu em São Paulo no dia 22 de junho de 2002, aos 78 anos.

Texto extraído do livro "Vale o escrito", Editora Globo - Rio de Janeiro - 1992, pág. 72.

 

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