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Arnaldo Nogueira Jr



Roberto Couto

 


Caixas chinesas

Roberto Couto



Suas mãos eram grossas, com os dedos bem amarelecidos do cigarro que substituía o outro seguidamente. Sua boca carecia de trato, amarelecida também. A idade não escondia os longos anos de tardança no tempo. Sorria, quando percebido. Ali, num canto escuro, todos os dias ajeitava seu banquinho e aguardava a generosidade de um passante.

Não se amofinava de ficar ali, esquecido. Nem a ausência de clientes era motivo de desesperança. Era apenas um dia. Outro dia seria outro dia. Seu olhar se fixou em minha mente de forma indelével. impossível esquecê-lo. Nem tentei, para falar a verdade. Acalma-me, quando me recordo que um dia estive do outro lado do mundo. E conheci aquele chinês. Não tinha nada de diferente dos demais, se é que é possível encontrar diversidade alguma naquela imensidão de terra e de gente.

Quando estava prestes a retornar, não resisti de comprar uns vasinhos de porcelana. Fui procurá-lo, ali no local de sempre. Como chinês era bom comerciante, mas entristecido com minha inexperiência de negociador e leniência na barganha. Lembrei-me dos comerciantes marroquinos, que têm horror de gente como eu. Um dos vasos fora pedido por uma vizinha. Meu desejo eram os leques já empacotados.

Feito o negócio, aprestou-se de velhos papéis de embrulho, velhos pedaços de cores esmaecidas. De repente, olhou-me com ternura e com extrema delicadeza alinhou duas pequenas caixas de rijo papelão, revestidas num papel de cores fugazes e esverdeadas. Retirou os vasinhos como segurasse uns recém nascidos, uns bebês de mais de cem anos, como alegara num inglês arranhado, mas compreensível. Deitou-os nas caixas de interior almofadado. A seda do revestimento interior conferia-lhes a pureza dos sonhos e revelava sortilégios indecifráveis. Olhou-os com um olhar comprido e cerrou as tampas.

A delicadeza de seus atos me comoveu tanto que no dia em que as duas caixas foram pro lixo de minha casa, senti uma terrível sensação de tristeza. Recuperei-as, no entanto, com angustiante e nervosa alegria. vejo-as todos os dias ornando uma estante, sem mais vasos, sei lá com quê dentro. Penso em abri-las, numa delas me deitar e retornar à China.


Roberto Couto
é bacharel em Direito, carioca da gema, um dos maiores conhecedores do Leblon, figura querida entre seus moradores. Fora dos tribunais, é praticante do sapateado e reconhecido pelos bambas como exímio executor do tamborim. Na arte de escrever, colabora com artigos sobre sua profissão no “Jornal do Commércio” do Rio de Janeiro. Seus contos e crônicas têm sido mantidos guardados, talvez nas caixinhas chinesas. Agora, vem à luz um desses trabalhos, de rara beleza.

 

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