Nhola dos Anjos e a cheia do Corumb?/font>

Bernardo Élis


— Fio, fais um zóio de boi l?fora pra nóis.

— O menino saiu do rancho com um baixeiro na cabeça, e no terreiro, debaixo da chuva miúda e continuada, enfincou o calcanhar na lama, rodou sobre ele o p? riscando com o dedão uma circunferência no chão mole — outra e mais outra. Três círculos entrelaçados, cujos centros formavam um triângulo eqüilátero.

Isto era simpatia para fazer estiar. E o menino voltou:

— Pronto, v?

— O rio j?encheu mais? — perguntou ela.

— Chi, t?um mar d'água! Qu?v? espia, — e apontou com o dedo para fora do rancho. A velha foi at?a porta e lançou a vista. Para todo lado havia água. Somente para o sul, para a várzea, ?que estava mais enxuto, pois o braço do rio a?era pequeno. A velha voltou para dentro, arrastando-se pelo chão, feito um cachorro, cadela, aliás: era entrevada. Havia vinte anos apanhara um "ar de estupor" e desde então nunca mais se valera das pernas, que murcharam e se estorceram.

Começou a escurecer nevroticamente. Uma noite que vinha vagarosamente, irremediavelmente, como o progresso de uma doença fatal.

O Quelemente, filho da velha, entrou. Estava ensopadinho da silva. Dependurou numa forquilha a caroça, — que ?a maneira mais analfabeta de se esconder da chuva, — tirou a camisa molhada do corpo e se agachou na beira da fornalha.

— Mãe, o vau t?que t?sumino a gente. Este ano mesmo, se Deus ajud? nóis se muda.

Onde ele se agachou, estava agora uma lagoa, da água escorrida da calça de algodão grosso.

A velha trouxe-lhe um prato de folha e ele começou a tirar, com a colher de pau, o feijão quente da panela de barro. Era um feijão brancacento, cascudo, cozido sem gordura. Derrubou farinha de mandioca em cima, mexeu e pôs-se a fazer grandes capitães com a mão, com que entrouxava a bocarra.

Agora a gente s?ouvia o ronco do rio l?embaixo — ronco confuso, rouco, ora mais forte, ora mais fraco, como se fosse um zunzum subterrâneo.

A calça de algodão cru do roceiro fumegava ante o calor da fornalha, como se pegasse fogo.


J?tinha pra mais de oitenta anos que os dos Anjos moravam ali na foz do Capivari no Corumb? O rancho se erguia num morrote a cavaleiro de terrenos baixos e paludosos. A casa ficava num triângulo. de que dois lados eram formados por rios, e o terceiro, por uma vargem de buritis. Nos tempos de cheias os habitantes ficavam ilhados, mas a passagem da várzea era rasa e podia-se vadear perfeitamente.

No tempo da guerra do Lopes. ou antes ainda. o av?de Quelemente veio de Minas e montou ali sua fazenda de gado, pois a formação geográfica construíra um excelente apartador. O gado, porém, quando o velho morreu, j?estava quase extinto pelas ervas daninhas. Da? para c?foi a decadência. No lugar da casa de telhas, que ruiu, ergueram um rancho de palhas. A erva se incumbiu de arrasar o resto do gado e as febres as pessoas.

"— Este ano, se Deus ajud? nóis se muda." H?quarenta anos a velha Nhola vinha ouvindo aquela conversa fiada. A princípio fora seu marido: "— Nóis precisa de mud? pruqu?senão a água leva nóis". Ele morreu de maleita e os outros continuaram no lugar. Depois era o filho que falava assim, mas nunca se mudara. Casara-se ali: tivera um filho; a mulher dele, nora de Nhola, morreu de maleita. E ainda continuaram no mesmo lugar a velha Nhola, o filho Quelemente e o neto, um biruzinho sempre perrengado.

A chuva caía meticulosamente, sem pressa de cessar. A palha do rancho porejava água, fedia a podre, derrubando dentro da casa uma infinidade de bichos que a sua podridão gerava. Ratos, sapos, baratas, grilos, aranhas,­o diabo refugiava-se ali dentro, fugindo ?inundação, que aos poucos ia galgando a perambeira do morrote.

Quelemente saiu ao terreiro e olhou a noite. Não havia céu, não havia horizonte — era aquela coisa confusa, translúcida e pegajosa. Clareava as trevas o branco leitoso das águas que cercavam o rancho. Ali pras bandas da vargem ?que ainda se divisava o vulto negro e mal recortado do mato. Nem uma estrela. Nem um pirilampo. Nem um relâmpago. A noite era feito um grande cadáver, de olhos abertos e embaciados. Os gritos friorentos das marrecas povoavam de terror o ronco medonho da cheia.

No canto escuro do quarto, o pito da velha Nhola acendia-se e apagava-se sinistramente, alumiando seu rosto macilento e fuxicado.

— Oc?bota a gente hoje em riba do jirau, viu? — pediu ela ao filho. — Com essa chuveira de dilúvio, tudo quanto ?mundice entra pro rancho e eu num quero drumi no chão não.

Ela receava a baita cascavel que inda agorinha atravessara a cozinha numa intimidade pachorrenta.

Quelemente sentiu um frio ruim no lombo. Ele dormia com a roupa ensopada, mas aquele frio que estava sentindo era diferente. Foi puxar o baixeiro e nisto esbarrou com água. Pulou do jirau no chão e a água subiu-lhe ao umbigo. Sentiu um aperto no coração e uma tonteira enjoada. O rancho estava viscosamente iluminado pelo reflexo do líquido. Uma luz cansada e incômoda, que não permitia divisar os contornos das coisas. Dirigiu-se ao jirau da velha. Ela estava agachada sobre ele, com um brilho aziago no olhar.

L?fora o barulhão confuso, subterrâneo, sublinhado pelo uivo de um cachorro.

— Adonde ser?que t?o chulinho?

Foi quando uma parede do rancho começou a desmoronar. Os torrões de barro do pau-a-pique se desprendiam dos amarrilhos de embiras e caíam nágua com um barulhinho brincalhão — tchibungue — tibungue. De repente, foi-se todo o pano de parede. As águas agitadas vieram banhar as pernas inúteis de mãe Nhola:

— Nossa Senhora d'Abadia do Muquém!

— Meu Divino Padre Eterno!

O menino chorava aos berros, tratando de subir pelos ombros da estuporada e alcançar o teto. Dentro da casa, boiavam pedaços de madeira. cuias. coités, trapos e a superfície do líquido tinha umas contorções diabólicas de espasmos epiléticos, entre as espumas alvas.

— C? nego, c? nego — Nhola chamou o chulinho que vinha nadando pelo quarto, soprando a água. O animal subiu ao jirau e sacudiu o pelo molhado, tremulo, e começou a lamber a cara do menino.

O teto agora começava a desabar, estralando, arriando as palhas no rio, com um vagar irritante, com uma calma perversa de suplício. Pelo vão da parede desconjuntada podia-se ver o lençol branco. — que se diluía na cortina diáfana. leitosa do espaço repleto de chuva. — e que arrastava as palhas, as taquaras da parede. os detritos da habitação. Tudo isso descia em longa fila, aos mansos boléus das ondas, ora valsando em torvelinhos, ora parando nos remansos enganadores. A porta do rancho também ia descendo. Era feita de paus de buritis amarrados por embiras.

Quelemente nadou. apanhou-a, colocou em cima a mãe e o filho, tirou do teto uma ripa mais comprida para servir de varejão, e l?se foram derivando, nessa jangada improvisada.

— E o chulinho? — perguntou o menino, mas a única resposta foi mesmo o uivo do cachorro.

Quelemente tentava atirar a jangada para a vargem. a fim de alcançar as árvores. A embarcação mantinha-se a coisa de dois dedos acima da superfície das águas, mas sustinha satisfatoriamente a carga. O que era preciso era alcançar a vargem, agarrar-se aos galhos das árvores. sair por esse único ponto mais próximo e mais seguro. Da?em diante o rio pegava a estreitar-se entre barrancos atacados, at?cair na cachoeira. Era preciso evitar essa passagem, fugir dela. Ainda se se tivesse certeza de que a enchente houvesse passado acima do barranco e extravasado pela campina adjacente a ele, podia-se salvar por ali. Do contrário, depois de cair no canal, o jeito era mesmo espatifar-se na cachoeira.

— ?o mato? — perguntou engasgadamente Nhola, cujos olhos de pua furavam o breu da noite.

Sim. O mato se aproximava. discerniam-se sobre o líquido grandes manchas, sonambulicamente pesadas, emergindo do insondável— deviam ser as copas das árvores. De súbito. porém. a sirga não alcançou mais o fundo. A correnteza pegou a jangada de chofre, f?la tornear rapidamente e arrebatou-a no lombo espumarento. As três pessoas agarraram-se freneticamente aos buritis. mas um tronco de árvore que derivava chocou-se com a embarcação, que agora corria na garupa da correnteza.

Quelemente viu a velha cair nágua, com o choque, mas não pôde nem mover-se: procurava, por milhares de cálculos, escapar ?cachoeira. cujo rugido se aproximava de uma maneira desesperadora. Investigava a treva, tentado enxergar os barrancos altos daquele ponto do curso. Esforçava-se para identificar o local e atinar com um meio capaz de os salvar daquele estrugir encapetado da cachoeira.

A velha debatia-se, presa ainda ?jangada por uma mão, despendendo esforços impossíveis por subir novamente para os buritis. Nisso Quelemente notou que a jangada j? não suportava três pessoas. O choque com o tronco de árvore havia arrebentado os atilhos e metade dos buritis havia-se desligado e rodado. A velha não podia subir. sob pena de irem todos para o fundo. Ali j?não cabia ninguém. Era o rio que reclamava uma vítima.

As águas roncavam e cambalhotavam espumejantes na noite escura que cegava os olhos, varrida de um vento frio e sibilante. A nado, não havia força capaz de romper a correnteza nesse ponto. Mas a velha tentava energicamente trepar novamente para os buritis. arrastando as pernas mortas que as águas metiam por baixo da jangada. Quelemente notou que aquele esforço da velha estava fazendo a embarcação perder a estabilidade. Ela j?estava quase abaixo das águas. A velha não podia subir. Não podia. Era a morte que chegava. abraçando Quelemente com o manto líquido das águas sem fim. Tapando a sua respiração. tapando seus ouvidos. seus olhos. enchendo sua boca de água, sufocando-o, sufocando-o, apertando sua garganta. Matando seu filho que era perrengue e estava grudado nele.

Quelemente segurou-se bem aos buritis e atirou um coice valente na cara aflissurada da velha Nhola. Ela afundou-se para tornar a aparecer, presa ainda ?borda da jangada, os olhos fuzilando numa expressão de incompreensão e terror espantado. Novo coice melhor aplicado e um tufo d' água espirrou no escuro. Aquele último coice, entretanto. desequilibrou a jangada. que fugiu das mãos de Quelemente, desamparando-o no meio do rio.

Ao cair. porém, sem querer. ele sentiu sob seus pés o chão seguro. Ali era um lugar raso. Devia ser a campina adjacente ao barranco. Era raso. O diabo da correnteza, porém, o arrastava. de tão forte. A mãe. se tivesse pernas vivas. certamente teria tomado p? estaria salva. Suas pernas. entretanto, eram uns molambos sem governo. um estorvo.

Ah! se ele soubesse que aquilo era raso. não teria dado dois coices na cara da velha. não teria matado uma entrevada que queria subir para a jangada num lugar raso, onde ninguém se afogaria se a jangada afundasse...

Mas quem sabe ela estava ali, com as unhas metidas no chão. as pernas escorrendo ao longo do rio?

Quem sabe ela não tinha rodado? Não tinha caído na cachoeira. Cujo ronco escurecia mais ainda atreva?

— Mãe. ? mãe!

— Mãe, a senhora t?a?

E as águas escachoantes, rugindo, espumejando. refletindo cinicamente a treva do céu parado. do céu defunto. do céu entrevado, estuporado.

— Mãe, ? mãe! Eu num sabia que era raso.

— Espera a? mãe!

O barulho do rio ora crescia, ora morria e Quelemente foi-se metendo por ele a dentro. A água barrenta e furiosa tinha vozes de pesadelo, resmungo de fantasmas, timbres de mãe ninando filhos doentes, uivos ásperos de cães danados. Abriam-se estranhas gargantas resfolegantes nos torvelinhos malucos e as espumas de noivado ficavam boiando por cima, como flores sobre túmulos.

— Mãe! — l?se foi Quelemente, gritando dentro da noite, at?que a água lhe encheu a boca aberta, lhe tapou o nariz, lhe encheu os olhos arregalados, lhe entupiu os ouvidos abertos ?voz da mãe que não respondia, e foi deix?lo, empazinado, nalgum perau distante, abaixo da cachoeira.


Bernardo Élis Fleury de Campos Curado (1915 – 1977), nasceu em Corumb?de Goiás (GO). Advogado, professor, poeta, contista e romancista, iniciou seus estudos com seu pai, o poeta Érico Jos?Curado e, depois, na capital do estado, onde matriculou-se no grupo escolar. Em 1936, assumiu as funções de escrivão da Delegacia de Polícia de Anápolis. Nesses tempos, j?havia participado de acontecimentos literários do Brasil central, escrevendo poesias e enviando colaborações de cunho modernista para os jornais de Goiânia. Em 1939, transferiu-se para essa cidade, onde foi nomeado secretário da Prefeitura Municipal, tendo exercido as funções de prefeito por duas vezes. Com um livro de poesias e outro de contos, que pretendia publicar, mudou-se para a cidade do Rio de Janeiro, em 1942. Não conseguindo seu intento, voltou a Goiás. Fundou a revista Oeste e nela publicou o conto "Nhola dos Anjos e a cheia de Corumb?quot;. Em 1944, seu livro de contos “Ermos e gerais” foi publicado pela Bolsa de Publicações de Goiânia, obtendo sucesso e elogios de toda a crítica nacional. Nesse ano casou-se com a poetisa Violeta Metran. Bacharelou-se pela Faculdade de Direito de Goiânia, em 1945. Nesse ano participou do 1?Congresso de Escritores de São Paulo, tendo conhecido diversos escritores nacionais. De volta a Goiânia, fundou a Associação Brasileira de Escritores, da qual foi eleito presidente.

Ingressou no magistério como professor da Escola Técnica de Goiânia e do ensino público estadual e municipal. Em 1955, publica o livro de poemas “Primeira chuva”. Foi co-fundador, vice-diretor e professor do Centro de Estudos Brasileiros da Universidade Federal de Goiás, da?passando a professor de Literatura na Universidade Católica de Goiás e em vários cursos preparatórios ao vestibular das universidades. Além de colaborar com os órgãos culturais que circulam no Brasil central, participou de congressos de escritores realizados em São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre e Goiânia, promoveu o I Congresso de Literatura em Goiás (1953) e realizou palestras, conferências e cursos literários.

Entre 1970 a 1978, desempenhou as funções de Assessor Cultural junto ao Escritório de Representação do Estado de Goiás, no Rio de Janeiro, e reassumiu o cargo de professor na Universidade Federal de Goiás. Desempenhou ainda a função de Diretor Adjunto do Instituto Nacional do Livro, em Brasília, de 1978 a março de 1985. Em 1986, foi nomeado para o Conselho Federal de Cultura, ao qual pertenceu at?a extinção do órgão, em 1989.

Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, sucedendo a Ivan Lins na Cadeira n?1, em 23 de outubro de 1975, e recebido em 10 de dezembro de 1975, pelo acadêmico Aurélio Buarque de Holanda Ferreira.

Recebeu inúmeros prêmios literários: Prêmio Jos?Lins do Rego (1965) e Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro (1966), pelo livro de contos “Veranico de janeiro”; Prêmio Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras, pelo seu “Caminhos e descaminhos”; Prêmio Sesquicentenário da Independência, pelo estudo “Marechal Xavier Curado, criador do Exército Nacional” (1972). Em 1987, recebeu o Prêmio da Fundação Cultural de Brasília, pelo conjunto de obras, e a medalha do Instituto de Artes e Cultura de Brasília.


Algumas obras:

A terra e as carabinas (romance em folhetim publicado no jornal " Estado de Goiás), (1951)

Primeira chuva, poesia (1955)

Ermos e gerais, contos (1944)

O tronco, romance (1956)

Caminhos e descaminhos, contos (1965)

Veranico de janeiro, contos (1966)

Marechal Xavier Curado, criador do Exército Nacional, estudo (1972)

Seleta de Bernardo Élis. Org. de Gilberto Mendonça Teles; estudo e notas de Evanildo Bechara (1974)

Caminhos das Gerais, contos (1975)

Andr?Louco, contos (1978)

Vila Boa de Goiás (1978)

Apenas um vilão, novela e contos (1984)

Chegou o governador, romance (1987)

Obra Reunida de Bernardo Élis (1987)


(Fonte: Academia Brasileira de Letras)


O texto acima foi extraído do livro “Caminhos das Gerais”, Editora Civilização Brasileira – Rio de Janeiro, 1975.

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