No Presépio
Adélia
Prado
Minha alma debate-se, tentada à tristeza e seus requintes. Meu pai morto não vai repetir
este ano: "Nada como um frango com arroz depois da missa". Minha irmã chora
porque seu marido é amarradinho com dinheiro e ela queria muito comprar uns festões, uns
presentinhos mais regalados, ô vida, e ele acha tudo bobagem e só quer saber de encher a
geladeira com mortadela e cerveja. Talvez, por isto, ou porque me achei velha demais no
espelho da loja, sinto dificuldades em ajudar Corália. Queria muito chorar, deveras estou
chorando, às vésperas do nascimento do Senhor, eu que estremeço recém-nascidos. Estou
achando o mundo triste, querendo pai e mãe, eu também. Corália disse: você é tão
criativa! E sou mesmo, poderia inventar agora um sofrimento tão insuportável que
murcharia tudo à minha volta. Mas não quero. E ainda que quisesse, por destino, não
posso. Este musgo entre as pedras não consente, é muito verde. E esta areia. São
bonitos demais! À meia-noite o Menino vem, à meia-noite em ponto. Forro o cocho de
palha. Ele vem, as coisas sabem, pois estão pulsando, os carneiros de gesso, a estrela de
purpurina, a lagoa feita de espelhos. Vou fazer as guirlandas para Corália enfeitar sua
loja. A radiação da "luz que não fere os olhos" abre caminho entre escombros,
avança imperceptível e os brutos, até os brutos, banhados. Desfoco um pouco o olhar e
lá está o halo, a expectante claridade, em Corália, em Joana com seu marido e em mim,
também em mim que escolho beber o vinho da alegria, porque deste lugar, onde "o
leão come a palha com o boi", esta certeza me toma: "um menino pequeno nos
conduzirá".
Texto extraído do livro "Filandras", Editora Record - Rio de Janeiro,
2001, pág. 111.
Saiba mais sobre Adélia
Prado e sua obra em "Biografias".
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