Os componentes da banda
Adélia Prado
O menino da vizinha dos fundos, trepado no muro como ele vive, deve ter investigado bem o
meu quintal, porque hoje me gritou: "do-o-na, do-o-na, a mãe falou se a senhora quer
vender umas panelas pra ela." Me desgostou muito a forma de pedir, o pedido em si.
Com tanto vizinho, porque Dona Alvina foi enxergar logo as minhas panelas? A distância
entre a casa dela e a minha é a mesma entre a casa dela e a do Osmar Rico. É claro que
percebeu minha fraqueza. Não posso esconder, está na minha cara a atração que exercem
sobre mim. São como diamantes no cascalho. Pobres, eu os farejo, pressinto, me ofereço a
eles como manjar. As panelas, se estavam no barracão é porque estavam mesmo sobrando. O
que não me falta é panela. Por que então não fui capaz de pegar a melhor delas e dar
para Dona Alvina com o coração exultante de poder ajudar? De jeito nenhum. Primeiro
disse ao menino, contrariada: as panelas não são de vender não. Fiquei com raiva dela
falar em comprar, já sabendo que eu não ia vender. Logo me arrependi, chamei o menino de
volta e peguei a melhor panela, mas não pense que mandei a tampa junto. Achei-a boa
demais, servia pra tampar o caldeirão onde gosto de cozinhar batatas. Dei a panela pura.
Foi uma bondade boba, pela metade, sem nenhum valor. Não descansei enquanto não inventei
um meio de visitar Dona Alvina. Com um mês só na casa velha, toda escorada, que o dono
do curtume deu para ela morar, já fez horta, jardim, os cacarecos são limpíssimos. A
menina pequetita, paninho na cabeça, brinquinho de ouro na orelha desensebada. Fui com
desculpa de comprar cebolinha e fiquei sabendo: ela faz faxina nas casas, o marido
trabalha fora e só vem fim de semana, eles não são daqui não. Muito bem, pois saí sem
ter coragem de dizer a ela a única coisa que meu coração pedia que dissesse: olha, Dona
Alvina, somos vizinhas e a senhora pode contar comigo no que precisar, estou à sua
disposição. Isto falei toda emproada pra Dona Leonor, pra Dona Ester, porque no fundo
sabia, são destas vizinhas que pedindo um dente de alho pagam logo com uma réstia de
cebolas, enfim, me serviriam quando eu precisasse sem me dar amolação. Dona Alvina é
diferente, porque é precisada mesmo. Se me pedir cinqüenta cruzeiros vai demorar um ano
pra pagar. Qual é o dinheiro que entra lá que seus quatro crioulinhos não consomem num
átimo? E ela deve pensar assim: "Dona Violeta é rica, pode muito bem esperar."
Posso mesmo. Por que então, meu Deus, não sei ajudar a Alvina? Empresto o dinheiro,
passam nem duas semanas fico dizendo: ao menos satisfação eu merecia; não é por causa
do dinheiro. E outras bobagens mais que todo mundo fala nestas situações. O fato é que
estou chateada com a mudança deles pra cá. Antes era Dona Terezinha que, bem ou mal, eu
vivia acudindo. Passou mais de ano sem morador na casa, um verdadeiro descanso. Agora
envém Dona Alvina que, sem saber, é um ferrão na mão de Deus. Não chupo mais uma bala
sem pagar um dízimo de tristeza. Claro que está tudo errado, qualquer sacristão bobo
sabe disso, menos eu que não atino com a forma de gozar dos frutos da terra, criados por
Deus para todos comerem em perfeita alegria, eu inclusive. Demoraram um dia só para
descobrir minha mangueira de cinqüenta metros: "do-o-na, a mãe falou se pode
emprestar a mangueira pra nós aguar a horta?" Este batido durou um mês. Pedro até
botou um trapo no muro pra não esfolar a borracha. Depois foi ficando chato. Queria lavar
o carro, aguar nossa horta mais cedo, a mangueira com Dona Alvina. Bibia falava:
"mãe, que povo folgado, vai ser descansado assim! Acho a senhora e o pai muito
bobos." Não podia aplaudir a menina, mas por seguro matutamos: a voz das crianças
é a voz de Deus. De noite Pedro bateu na casa da Alvina para bispar a situação. Se
pudesse, falou o marido, mandava ligar a água, mas onde vou arranjar dinheiro? Pedro foi
na Companhia, pagou a taxa, acabou a questão da mangueira. Nem assim sosseguei: será que
foi correto? Não teria sido mais edificante emprestar a mangueira com paciência até
eles arranjarem modo de pagar a taxa? Vejo o marido da Alvina passar aos sábados com umas
mexericas que ele arranjou pra vender e penso: nem pra dar uma satisfação, um sinal.
Pedro nem se lembra mais. É diferente de mim, nunca dá meia panela. Por isso a alegria
dele é inteira.
Texto extraído do livro "Os componentes da banda", Editora Rocco - Rio
de Janeiro, 1988, pág.19.
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