Privada I: o homem e sua obra
Antonio Prata
"Este ódio de tudo o que é humano, de tudo
o que é 'animal' e mais ainda de tudo que é
'matéria', este horror dos sentidos (...) tudo isso
significa (...) vontade de aniquilamento,
hostilidade à vida, recusa em se admitir
as condições fundamentais da própria vida".
Nietzsche
O Homem é o novo rico da natureza. Assim que nos demos conta de que éramos os únicos na
vizinhança que falávamos, fazíamos as quatro operações e conseguíamos encostar o
dedão no mindinho, ficamos profundamente, irremediavelmente bestas. Cobrimos a pele com
panos, penteamos o cabelo pra trás, passamos uma salivinha na sobrancelha, dissemos:
adeus, bicho! e saímos da selva.
Nem mal deixamos o bosque, passamos a esnobá-lo e a condenar as atitudes de todos os seus
habitantes. Nós éramos superiores! Nós dominávamos a natureza! Nós usávamos
ferramentas, meias e fio dental!
Novo rico que se preze, no entanto, dá bandeira. Há sempre um douradinho além da conta,
um sotaque suburbano escapando num momento de exaltação, um conversível rosa com a
placa mom ou dad. Com a humanidade também é assim. Por mais que consigamos trocar nossos
odores naturais por mentol, eucalipto ou tutti-frutti, gastemos um bilhão de dólares em
pesquisa para criar lâminas capazes de raspar perfeitamente nossos pêlos e cubramos toda
a crosta da terra com asfalto e carpete sintético, um ato sempre nos denunciará o
passado selvagem, a natureza animal: a cagada. Ali não tem desculpa, não tem disfarce.
A merda é nossa ligação perene com a floresta, com o barro de onde viemos. Aí não tem
talher nem tailleur nenhum que nos diferencie da arara ou do tamanduá. Nus como as
trutas, acocorados como os cães, expelimos a verdade universal, fisiológica, cilíndrica
e obscura que por tanto tempo tentamos ocultar. Somos animais!
Temendo uma reflexão mais elaborada sobre o assunto, e sabendo das conseqüências que
tamanha verdade traria uma vez revelada, desde cedo cuidamos de camuflar o assunto.
Fizemos com a bosta o que fazemos com as putas, as drogas e tudo aquilo que é necessário
existir, mas não é preciso divulgar; marginalizamo-la. Condenamos as fezes ao
ostracismo.
No início, enquanto vagávamos nômades, a coisa era bem fácil. O sujeito simplesmente
se afastava um pouco da horda, fazia o que tinha de fazer e ia embora, deixando as
sujeiras para trás. Estávamos literalmente cagando e andando.
Quando os primeiros povos dominaram as técnicas de irrigação e, portanto, a
agricultura, passaram a viver fixos num determinado local, e defecar ficou um pouquinho
mais complicado. O sujeito tinha que sair da aldeia, andar um pouco, achar uma moita,
cavar um buraco, fazer e enterrar. Durante muito tempo a coisa rolou assim, trabalhosa,
mas sem maiores problemas.
Foi o crescimento da população e das aldeias que começou a complicar o processo. A
moitinha ia ficando cada vez mais longe de casa, corria-se sempre o risco de se encontrar
um conhecido por lá e, pior de tudo, cavar um buraco de segunda mão.
Dizem que foi um bretão chamado Walter Collins que teve a brilhante idéia: cavar um
buraco bem fundo no quintal de casa e cercá-lo por paredes. Em pouco tempo a invenção
de Walter, assim como suas iniciais, já podiam ser vistas em grande parte do mundo.
Parecia que o problema havia sido solucionado. Mas veio a revolução industrial, o grande
êxodo para as cidades e os quintais, como se sabe, foram pra cucuia.
Talvez tenha sido esse o momento mais difícil da humanidade frente aos seus excrementos,
o clímax entre o Homem e sua sombra animal. Tivemos que trazer a bosta para dentro de
nosso próprio lar. Para que isso fosse possível, bastava que jamais assumíssemos o
verdadeiro fim do aposento que covardemente, eufemisticamente, chamamos de banheiro. Sim,
meus caros, para não dar nas vistas, inventamos o chuveiro, a banheira, a higiene bucal,
o secador de cabelo, o rímel, o blush e o batom, a acne e os tratamentos antiacne e todas
as outras coisas para se fazer ali. Além disso, criou-se um arsenal para se disfarçar o
cocô: sprays com odor de rosas, sachês que deixam a água da privada azul, verde ou
rosa, exaustores, bidês e papeis higiênicos perfumados.
Ali, naquele ambiente cientificamente controlado, podemos aliviar as nossas necessidades
com o máximo distanciamento possível. Após dar a descarga, nosso cocô é mandado para
esgotos submersos, que desembocam em rios que vão dar lá longe no oceano. Sanamos o
problema por enquanto, mas é só uma questão de tempo.
Todo esse cocô está se unindo, formando o maior movimento underground do mundo. Nossas
cidades, nossos países estão boiando sobre rios de merda. Fala-se muito no fim do
petróleo e no fim da água, mas não será assim que nós morreremos. Numa incerta manhã
um cidadão dará a descarga e, como na piada, ouvirá o estrondo: o subsolo, entupido,
explodirá. A verdade, reprimida por séculos e séculos, emergirá. Só nesse dia todos
perceberão o tamanho da cagada em que nos metemos desde o dia em que resolvemos sair da
floresta. E não haverá sachê nem bom ar que dê jeito. Como se sabe, só as baratas
sobreviverão.
Antonio Prata (24/08/1977) tem os seguintes
livros editados: "Cabras, Caderno de Viagem", com Paulo Werneck, Chico Matoso e
Zé Vicente da Veiga, "Douglas e outras histórias", e o recém lançado
"As pernas da tia Corália". Fernando Morais, escritor reconhecido no Brasil
e no exterior, assim se manifestou sobre ele: "... Seria um livro de contos?
De ensaios? De reflexões sobre o mundo? Não sei dizer. O que eu sei é que é um dos
mais espirituosos e divertidos livros que li nos últimos tempos. Não me pejo, assim, de
(mais uma vez?) valer-me da fantasia de Ruy Castro: aconselho-os a acompanhar a carreira
do jovem escritor Antonio Prata. Ele tem espantoso futuro. Continuem lendo e
observando-o". E termina:"Pela qualidade do texto, fica dispensado o teste do
DNA: Antônio é mesmo filho de Marta Góes e de Mário Prata".
Da página 25 do livro "Douglas e outras histórias", Azougue Editora - Rio de
Janeiro, 2001, extraímos o texto acima.
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