Olhando, na praça
Ana Peluso
Conseguia vê-los gesticulando, de longe. Mais ele do que ela. Ela olhava para os lados,
braços abertos como quem pondera a gritaria em praça pública. Brigavam. Estava na cara
de quem quisesse ver e ouvir, se chegasse mais perto. Preferi me manter em minha posição
de assistente distante. Eu não era dado a escândalos e no fundo, aquilo tudo já
começava a me incomodar.
Foi quando ele me chamou.
A principio, achei que não era comigo e ignorei suas mãos em concha, puxando o ar pra
si. Continuei olhando para eles; o olhar vago de quem observa, mas não pretende entender.
Logo notei que alguns poucos que se juntaram em torno deles talvez mais ávidos por
brigas me acenavam com os braços, também chamando. Confesso que a situação me
constrangeu. Eu não pretendia sair do lugar onde estava para saber de nada ou mesmo para
apartar nada, se fosse o caso. Estava decidido a passar a tarde fazendo nada e era
exatamente o que aconteceria. Ninguém me tiraria do recolhimento que escolhi viver
naquela tarde de sol onde a fumaça de óleo diesel queimado dos ônibus apenas me
lembrava do porquê de estar ali. Eu cansara da fumaça dos ônibus, dos ônibus e das
pessoas que andavam nos ônibus; acredito que até das pessoas que andavam fora dos
ônibus. Por isso escolhi aquela praça para refletir meu cansaço enorme de quase tudo o
que existia. Não tinha conseguido chegar a conclusão alguma até o momento em que eles
me tiraram de minhas observações com sua discussão silenciosa, ainda que movimentada,
observada de longe. O carrinho de bebê estava ali ao léu. Eles sequer pareciam lembrar
que carregavam um bebê dentro do carrinho seguro pelas mãos dela até um pouco antes da
discussão ter início.
Foi do nada. Caminhavam lado a lado (passaram por mim, inclusive) e pude ver os tristes
olhos dela fitando o longe. Nele não reparei, mas olhando pelas costas, sua musculatura
forte ainda que fosse baixo me chamou a atenção. Quando estavam a uns
vinte metros de distância, notei que pararam e ele começou a gritar. Ela balançava os
braços e parecia dizer coisas que o deixava cada vez mais irritado. Ele chegou a sacudir
os braços dela que os puxou novamente para si, com força. O bebê devia chorar, imagino.
Ele bateu o pé direito três vezes algum cacoete e passou a enumerar algo
na mão direita, como quem conta os erros e acertos do dia. A somatória não devia ser
das melhores e a gritaria deve ter aumentado por aí, pois foi quando alguns poucos que
passavam, pararam para olhar. Logo, um pequeno grupo se formava, esparsamente, em torno
deles.
E agora todos eles me chamavam com suas bocas e braços. O bebê não me chamou. Também
não pude ver seu semblante. Devia estar lá, sentado no carrinho, observando os pais
discutirem por nada, mas provavelmente pensando em tudo.
Não. Não obedeci ao chamado. Também não fingi não ser comigo e me virei para outro
lado. Apenas saí caminhando, como quem vai para casa. Claro que tive de passar por eles
na minha ida, por ser o único caminho viável para a volta e por ter aprendido a nunca
fugir por ruelas laterais nesses anos todos de vida. O caminho acabava sendo sempre mais
longo. Mas minha curiosidade não me atentou para os lábios deles todos que, gesticulando
mais do que nunca, quase pulavam ante a minha passagem. A praça parecia mais bela depois
de passar por eles. E mesmo que eu não escutasse pássaro algum cantando ainda que
os visse ou os gritos que ressoavam certamente atrás de mim, eu podia contemplar
algumas flores perdidas entre matos e sonhar com aquele bebê sorrindo algum dia,
certamente ao ouvir alguma bela melodia ou mesmo um sussurrar de palavras doces, saídas
de alguma boca que o aguardaria. Ou numa realidade tácita, poderia ter como companheiro
som algum. O mesmo que isentava a mim a participação no que fora chamado e não quisera
atender.
E meu álibi era apenas o silêncio do mundo.
Ana Peluso, paulistana, 37 no dia cinco de março de 2003, casada, um filho,
formada em Comunicação e Programação Visual, escreve desde os 18 anos. Abandonou a
faculdade de letras pelo desenho e as artes visuais. Aprendeu a desenhar e voltou a
escrever. Atua na rede como webdesigner, ilustradora e colunista e colaboradora em vários
sítios há mais de 4 anos.
Dedica-se em tempo parcial ao desenvolvimento e conteúdo da Officina do Pensamento, destinado à
divulgação de arte e literatura e escreve por pura vocação, enquanto prepara seu
primeiro livro de contos. O resto do tempo usa para pintar, escrever, curtir a família,
além do teatro, música e cinema, outras de suas paixões.
Possui participação em três Antologias: As Crônicas dos Anjos de Prata, Vol
II.- 2001, Os Anjos de Prata - Antologia de Crônicas e Contos, Vol III
2002, e Antologia Poetrix 2002.
O texto acima, inédito, nos foi gentilmente enviado pela escritora.
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