Tu Queres Sono: Despede-te dos Ruídos
Ana Cristina Cesar
Tu queres sono: despe-te dos ruídos, e
dos restos do dia, tira da tua boca
o punhal e o trânsito, sombras de
teus gritos, e roupas, choros, cordas e
também as faces que assomam sobre a
tua sonora forma de dar, e os outros corpos
que se deitam e se pisam, e as moscas
que sobrevoam o cadáver do teu pai, e a dor (não ouças)
que se prepara para carpir tua vigília, e os cantos que
esqueceram teus braços e tantos movimentos
que perdem teus silêncios, o os ventos altos
que não dormem, que te olham da janela
e em tua porta penetram como loucos
pois nada te abandona nem tu ao sono.
Ana Cristina Cesar, ou Ana C., como era conhecida, nasceu em 1952
nesta cidade do Rio de Janeiro. Após 1968, passou um ano em Londres, fez algumas viagens
pelos arredores e, na volta, deu aulas, traduziu, fez letras, escreveu para revistas e
jornais alternativos, e saiu na antologia "26 Poetas Hoje", de Heloísa
Buarque. Publicou, pela Funarte, pesquisa sobre literatura e cinema, fez mestrado em
comunicação, lançou seus primeiros livros em edições independentes: "Cenas
de Abril" e "Correspondência Completa". Dez anos depois voltou
à Inglaterra, graduou-se em tradução literária, escreveu muitas cartas e editou "Luvas
de Pelica". Trabalhou em jornalismo, televisão e escreveu "A Teus Pés",
Editora Ática - São Paulo, 1998, de onde extraímos o texto acima.. Suicidou-se no dia
29 de outubro de 1983.
Ítalo Moriconi escreveu: "Ana
Cristina dizia que uma das facetas do seu desbunde fora abandonar a idéia de ser
escritora, livrar-se do que ela naquele momento julgava ser sua face herdada, o estigma
princesa bem-comportada, alguém marcada para escrever".
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