Os acrobatas liam Júlio
Cortázar
antes de subir ao trapézio
Aguinaldo Silva
Eu nunca lera nada sobre este cara chamado Júlio Cortázar. Mas pederastas já vira
muitos, desde os tempos do colégio, quando nós os humilhávamos no banheiro, depois das
aulas de educação física. Isso sem falar nas vezes em que cruzava com um deles nos
cinemas, nos corredores mais escuros, nos mictórios públicos e nas madrugadas sombrias,
locais e ocasiões em que essa raça parecia se sentir mais à vontade. Aqueles quatro, no
entanto, me pareceram estranhos desde o primeiro instante. Primeiro porque andavam em
fila, ordenados, um atrás do outro e todos silenciosos, sérios. Depois porque havia uma
coisa difícil de explicar em seus corpos. Embora andassem calmamente, e evitassem gestos
inúteis, a verdade é que eles, misturados às dezenas de pessoas que, naquela madrugada,
se encontravam na estação rodoviária, mesmo que estivessem parados, ou até se fossem
estátuas, me pareceriam, logo os visse, prestes a alçar vôo. Era como se a terra fosse
para eles um rápido descanso, um momento antes de uma revoada para o céu, ou ao menos
para os travões de ferro que cruzavam o teto inacabado da estação. Foi assim que os vi
a primeira vez, quando passaram mergulhados no próprio silêncio, em fila, carregando a
bagagem que não me pareceu muita - duas ou três valises. E mais ainda quando, depois,
cruzei com eles à porta do ônibus que nos levaria a São Paulo calçavam sapatos
de borracha, eu observei, e aquele silêncio que faziam seus oito pés ao caminhar parecia
um só, e planejado, metrificado e posto a funcionar num esquema: sendo. quatro, eram ao
mesmo tempo um só, tão semelhantes me pareciam, e como se ligados pelo ritmo que os
conduzia. Agora me pergunta como é que eu soube que se tratava de pederastas. Ora,
acontece que os conhecia sempre, os pederastas, mesmo que estivessem imóveis e de olhos
fechados, até mesmo quando estavam de costas eu tinha facilidade em reconhecê-los,
coitados, nem sempre presos aos maneirismos e gestos que faziam conhecida a raça, mas
iguais naquele olhar oblíquo, na maneira como punham um pé diante do outro, o da frente
ligeiramente desviado para a direita ou para a esquerda, apontando nesta ou naquela
direção. Muitas vezes, em determinados locais, eu vira quando um deles entrara,
discreto, silencioso e solitário, cumprira esta ou aquela missão e se retirara, e eu
dizia para mim mesmo, é um deles, e olhava em volta surpreso, já que ninguém, além de
mim, o notara. Às vezes, se estava acompanhado, não resistia e murmurava para o meu
companheiro, viu só aquele pederasta? E o outro surpreso perguntava, mas quem? Ou
comentava, depois que eu o apontasse: mas é mesmo? Como é que você sabe?
E era de madrugada, claro: uma hora da manhã na estação rodoviária. Só a essa hora
eles ousariam viajar, tomar um ônibus para São Paulo, mesmo sendo quatro. Chegariam lá
às sete horas, e ainda gozariam um pouco com o frio da manhã: beberiam café num dos
bares próximos da estação, e depois desapareceriam pelas ruas próximas, ao que parece
consumidos pelos primeiros raios do sol. À noite seria fatal encontrá-los outra vez em
algum lugar escuso.
Abriram a porta do ônibus, e o motorista foi recebendo os bilhetes, um a um. As pessoas
se atacavam aflitos beijos de despedida era como se São Paulo fosse o fim do
mundo. E os quatro entraram um a um, à minha frente. No interior do ônibus meio escuro,
tateei em busca do número que me fora reservado, e embora não tivesse ainda pensado
nisso em nenhum momento, nem fiquei surpreso quando, ao sentar-me, encontrei um deles ao
meu lado. Olhei de esguelha, pensei aborrecido que no meio da estrada ele iria me apalpar,
procurei manifestar o meu aborrecimento de alguma forma: acendi a luz individual, procurei
o cinzeiro, encontrei nele uma ponta de cigarro, murmurei um palavrão sem abrir os
dentes, mas o rapazinho não deu atenção. Ao contrário, abriu calmamente sua valise,
retirou de dentro dela um livro, acendeu sua luz individual e começou a ler. Esperei mais
aborrecido ainda que seu cotovelo roçasse no meu o livro poderia ser um simples
pretexto , mas os outros passageiros entraram, o motorista também, a porta foi
fechada, acesas as luzes, e o ônibus deu partida. Os outros dois estavam sentados à
frente, juntos no mesmo banco, e o quarto, à minha esquerda e um pouco atrás,
acomodara-se próximo a um velho. O ônibus seguia e eu comecei a pensar em descontrair os
músculos, tentar dormir.
Foi quando, de esguelha, olhei o livro que ele lia. Aberto na página trinta e dois,
trazia o nome no alto da página: Júlio Cortázar era o autor. E na seguinte, também no
alto, o título, Rayuela. Eu não sabia o que significava essa palavra, mas ela, mal a li,
brilhou no escuro, como se fosse mágica. Tanto isso aconteceu, que cresceu imediatamente
nos meus lábios a pergunta, avolumou-se e, amarga, cheia de bílis e esverdeada, ela
transpôs a barreira de meus dentes, rompeu a fraca contração dos meus lábios e
espalhou-se na área próxima ao meu rosto, a pergunta como se fosse uma brisa, sibilina e
meia morna:
Você lê esse cara?
Sim, porque paralelamente me lembrara: em algum lugar, num jornal ou revista, lera
qualquer coisa sobre esse sujeito, Cortázar, que escrevia e era misterioso, uma dessas
situações pouco másculas que os escritores e artistas costumam alimentar. E, ao mesmo
tempo, sabia agora, aquela palavra, quando lera o artigo, ficara gravada dentro de mim,
Rayuela, e só à espera de um momento como este (e porque ele ainda não havia chegado é
que eu disse, antes, que nunca lera nada sobre este Júlio Cortázar).
O rapaz, que no rápido instante seguinte me pareceu já esperar pela pergunta, respondeu
sem me olhar - nós lemos sempre Cortázar, desde que o descobrimos em Paris. E me
olhando, então, pela primeira vez de frente, seus olhos que não ousei enfrentar (me
pareceu, de repente, que eu resvalava numa direção contrária à normal), explicou:
O Waldo descobriu que nós somos seus personagens principais quando subimos ao
arame. Somos equilibristas.
E me apareceram então, como se impressas no ar ou gravadas em acinzentada fumaça, as
palavras da manchete de um dos jornais do Rio: Secretário de Segurança proibiu a
exibição dos Irmãos Fantini. Outra vez perguntei:
Irmãos Fantini?
Sim, respondeu o outro, embora não sejamos irmãos, nem nos chamemos Fantini, a não ser
o Waldo, que tem esse nome. Mas quando estamos no alto, sobre o fio, combinamos como se
fôssemos irmãos.
O fio: era lá que eles fariam a exibição. O fio de aço estendido entre dois prédios,
cruzando a avenida central da cidade, à altura do décimo segundo andar. Os Irmãos
Fantini, segundo o jornal, pernambucanos famosos em toda a Europa, atravessariam um a um,
caminhando sobre o fio. E receberiam, em troca de tão terrível proeza, as doações que
o generoso povo carioca lhes quisesse oferecer. Com o dinheiro conseguido, eles pretendiam
retornar à Europa, mas, proibidos pelo Secretário de Segurança que vira no
espetáculo uma ameaça em potencial aos nervos da população , haviam anunciado
uma possível exibição em São Paulo, para onde se dirigiriam. E lá estavam, os quatro.
Deve ser um troço difícil, esse de ser equilibrista, não é?
Novamente minha voz me desobedecia. E o rapaz, agora sem se voltar, entreabrindo o livro e
folheando suas páginas e, ao que me pareceu, retirando delas as frases que me
ditava , comentou sem sair de sua calma: depende. É uma questão de
especialização. A mesma coisa que ser datilógrafo, ou motorista de caminhão. Difícil
mesmo é encontrar o parceiro. Nós nos conhecemos numa feira. Andávamos os quatro, com
dificuldade, na corda bamba, e nas feiras íamos conseguindo donativos suficientes para
uma vida de miséria. Até que nos encontramos. O Waldo é que adivinhou as excelentes
possibilidades que teríamos se nos juntássemos. Nós nos recolhemos a um sítio, lá no
Recife, e foi nessa mesma cidade que cumprimos, depois de uns meses de treinos, nossa
primeira exibição.
O ônibus seguia rápido, inevitável. A voz do rapaz, que eu sabia ser pederasta
embora ele não traísse nenhum dos maneirismos habituais à raça me envolvia. As
palavras, no entanto, eram pronunciadas num sussurro, e mesmo sem verificá-lo, eu estava
certo de que nossos vizinhos mais próximos não nos escutavam. Um deles, o da frente,
até ressonava forte, quase roncava:
Foi um sucesso, essa nossa primeira exibição. O Waldo decidira que nós.
viveríamos apenas do que o povo nos oferecesse. E foram muitos os donativos. Quando
estávamos no ar, em plena travessia, pude escutar o silêncio gelado que se fazia lá
embaixo. E quando o último de nós deu o passo final e se precipitou em direção à
janela de onde o fio saía, ouvimos os quatro alguns soluços antes que viessem as palmas,
os gritos entusiasmados. O povo se entusiasma facilmente, e mais facilmente ainda se
emociona. E Waldo pedira que não ficássemos frios ante essa emoção. Ela valia por tudo
o que nós pensássemos em ganhar.
Anotei mentalmente esse nome, Waldo, e a ele acrescentei o outro:
Waldo Fantini: um deles, o que usava óculos escuros, deveria ser o próprio. Perguntei, o
Waldo usa óculos escuros? E o rapaz respondeu, sim, viu nosso retrato nos jornais? Sem
poder explicar ao certo, resmunguei que sim, e ele continuou, já agora sem que eu fizesse
qualquer pergunta:
Tanto dinheiro recolhemos que resolvemos viajar para a Europa. Nossa primeira
exibição, cruzado o oceano, foi em Lisboa, onde os portugueses nos pareceram bastante
apáticos. Ainda aí, alguns parece que os mais pobres choraram quando
cumprimos os últimos passos. Proibidos em Madrid, pudemos fazer uma exibição em
Barcelona. Novas lágrimas. Paris nos deu apenas alegrias, embora nessa alegria
notássemos um sinal de fraqueza. Não somos assim tão cultos, mas na França, a
impressão que tivemos é de que tudo é utilizado para dar ao visitante uma falsa
impressão de euforia. Lá, no entanto, tivemos a felicidade de descobrir ou nele
nos descobrir Cortázar. Uma manhã Waldo entrou precipitadamente no quarto que
ocupávamos num hotel modesto (apesar do dinheiro ganho, vivemos sempre modestamente,
evitamos o luxo que, sem dúvida, poderá fazer mal aos nossos músculos e às nossas
mentes), e exibiu o livro: Rayuela. E explicou que o senhor Júlio Cortázar, que
era argentino, mesmo sem nos conhecer havia escrito nossa história.
Desde então, passamos a ler o livro em rodízio, diariamente, ora um, ora outro. O
Waldo, e apenas ele, fez várias anotações, que nós sempre estudávamos. A cada leitura
descobrimos novas palavras, outras significações. E como se o livro crescesse sempre,
fosse aumentando a cada dia o seu número de páginas. E nós estamos sempre em todas as
linhas.
O Fantini me explicou depois, que nem tudo fora êxito na breve carreira do grupo. De
volta ao Recife, onde cumpriram outra exibição já agora com a fama da Europa
, haviam sido roubados em quase tudo. E no Rio, onde o dinheiro já se tornara
escasso, tiveram proibida a apresentação. São Paulo, para onde o ônibus se dirigia
cruzando aquela escura noite, era sua nova esperança.
Se ganharmos o bastante, voltaremos para a Europa.
E sempre folheando o livro entreaberto sobre os joelhos, mais falou de suas exibições.
Citou outras três vezes o Waldo, e eu perguntei, quase aborrecido:
Mas o Waldo é quem manda no grupo? É o chefe?
Ele respondeu que sim. De suas mãos saía toda a garantia do sucesso. Era ele quem
iniciava a travessia, e o fazia quando o fio sequer estava estendido, pois a tarefa de
estendê-lo era ele quem cumpria com seus próprios passos, lançando-se pela janela a
fora, no décimosegundo andar, em direção ao vazio, cumprindo uma terrível guerra
contra as inflexíveis noções da gravidade e peso que os homens lá embaixo - os olhos
pregados no alto - teimosamente sustentavam. E dessa batalha saía sempre vencedor, seu
corpo avançando de dentro de si mesmo a cada passo, no centímetro seguinte já seu corpo
novamente avançando, sempre trazendo presa entre os dentes a ponta do fio de aço que
para trás ficara preso à primeira janela, o Waldo, o de óculos escuros, enquanto lá
embaixo a multidão rezava para que ele rompesse realmente a barreira das leis
Waldo era um deles, afinal , e na janela os outros irmãos, nem sequer tensos
tanto confiavam na vitória , esperavam sua vez de atravessar a rua sobre o fio
daquela invisível teia.
E eu senti então que, desde a primeira vez que os vira, a entrada da estação, ou mesmo
antes, quando lera nos jornais a notícia com os seus nomes, ou antes ainda, quando ouvira
falar em Cortázar, em Rayuela, compreendi então que não fizera outra coisa
senão me desprender de mim mesmo, despencar, ou resvalar em direção contrária à
minha. E naquele ônibus, então, o que ocorreria? Perguntei, mas o Waldo, esse Waldo; o
rapaz me interrompeu com um meio sorriso:
Já sei, quer conhecê-lo, não é?
Não respondi que sim, mas me levantei ao mesmo tempo que ele. Lá na frente, notei que o
quarto elemento do grupo se postara junto aos outros dois um destes era o Waldo
, e que os três me esperavam. Caminhamos eu e meu companheiro em direção a eles,
e lá,
E Waldo dormia, a cabeça encostada de leve à janela, os olhos fechados, os óculos
escuros guardados no bolso da camisa. Ele dormia mas acordou ao segundo chamado, ergueu de
leve a cabeça e lentamente entreabriu os olhos; eu forcei os meus, mas e foi
então que o ônibus se precipitou de vez na escuridão da noite de dentro dos
olhos dele nada mais pude arrancar além da brancura que, impotente, me fitava. Waldo
Fantini, o primeiro dos irmãos equilibristas, atingido na infância por um terrível mal,
era definitivamente cego.
Aguinaldo Ferreira da Silva é pernambucano de Carpina, onde
nasceu em 07 de junho de 1944. Aos 14 anos começou a trabalhar em um cartório e, aos 16,
publicou seu primeiro livro, "Redenção para Job". Colaborou nos jornais
"Última Hora", "O Globo" e "Jornal do Brasil", e seus
trabalhos, em especial na televisão, apresentam sucesso crescente. O escritor João
Antônio, falando sobre ele, disse que "este é um batalhador das letras".
Algumas obras do autor:
- Cristo partido ao meio
- Canção de sangue
- Geografia do ventre
- Primeira carta aos andróginos
- O crime antes da festa: a história de Ângela Diniz e seus amigos
- República dos assassinos
- A história de Lili Carabina
- Inimigo público
- Lábios que beijei
- O homem que comprou o Rio
- Prendam Giovanni Improtta
- Dez histórias imorais
- 98 tiros de audiência
- Partido alto
- Roque Santeiro
- Tieta do Agreste
- Pedra sobre pedra
- Fera ferida
- A indomada
- Suave veneno
O texto acima foi extraído da antologia "Ficção - Histórias para o prazer da
leitura", Editora Leitura - Belo Horizonte (MG) - 2007, pág. 206, organização de
Miguel Sanches Neto.
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