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Arnaldo Nogueira Jr



Adriana Lisboa


Aventura

 Adriana Lisboa

Chuva de primavera —
Uma criança
Ensina o gato a dançar.
     
               Issa


No banco de trás do carro, meu filho dorme. Estacionamos em frente ao supermercado. Precisamos comprar para ele uma bola de futebol que não seja de couro, porque as de couro são muito pesadas. Na semana passada, vi no supermercado umas bolas de futebol coloridas. Multicoloridas. Roxo, amarelo, azul, acho que ele vai gostar.

Espero no carro pelo pai, que foi comprar a bola. Abro os vidros das janelas, entreabro as portas e espero. Ligo o rádio baixinho e um solo de oboé sublinha muito discreto o que vejo — as pessoas indo e vindo no estacionamento do supermercado, um azul domingo no céu. Carrinhos de compras cheios. Ouço uma frase num tom mais alto de voz, um tom aborrecido. Ouço uma gargalhada. À minha frente, na parede de pedra, as sombras deixam vazar um polígono de luz que vai sem pressa mudando de lugar.

Chegam os dois: o menino gordinho de camiseta cinza e a mulher que me parece muito jovem para ser mãe dele mas nunca se sabe. Ela sugere que se sentem um pouco para descansar, no muro baixo.  Sentam-se. O menino gordinho está muito suado e fica brincando de olhar ao redor sempre com um olho fechado. Os dois sentam-se ali por cinco, dez minutos. Depois a mulher sugere, vamos?, e ele obedece em silêncio, ainda com um olho fechado e uma expressão gozada na boca, um meio-sorriso torto e desleixado.

O solo de oboé há muito já deu lugar a uma grande orquestra. Desligo o rádio e espero pela bola colorida de futebol. No banco de trás do carro, meu filho dorme.


Adriana Lisboa
é carioca, nascida em 1970. No Rio de Janeiro passou sua infância e juventude, entre a cidade e a fazenda da família no interior do estado, tendo morado por uns tempos em Brasília, Paris e Avignon. Vive hoje entre o Rio e a cidade de Boulder, Colorado, nos Estados Unidos. Estudou Música — foi flautista, cantora e professora. Há algum tempo se dedica exclusivamente à literatura — é pós-graduada em Letras — sendo hoje considerada por muitos como uma revelação no  campo da escrita, tendo já publicado os romances "Os Fios da Memória" (1999), "Sinfonia em Branco" (2001), "Um beijo do colombina" (2003), "Caligrafias" (2004), "Rakushisha (2007)"; os infanto-juvenis "Língua de Trapos" (2005), "Contos populares japoneses" (2008), todos pela Editora Rocco, e "O coração às vezes pára de bater" (2007), pela PubliFolhas. Participou de diversas coletâneas e antologias no Brasil e no exterior. Realiza, também, traduções de textos estrangeiros. Adriana foi agraciada com o Prêmio Literário José Saramago com seu "Sinfonia em branco", em 2003.


O texto acima foi extraído do livro
”25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira”, Editora Record – 2004, pág. 221, organização de Luiz Ruffato.

 

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