O doido da garrafa
Adriana Falcão
Ele não era mais doido do que as outras pessoas do mundo, mas as outras pessoas do mundo
insistiam em dizer que ele era doido.
Depois que se apaixonou por uma garrafa de plástico de se carregar na bicicleta e passou
a andar sempre com ela pendurada na cintura, virou o Doido da Garrafa.
O Doido da Garrafa fazia passarinhos de papel como ninguém, mas era especialista mesmo em
construir barquinhos com palitos. Batizava cada barco com um nome de mulher e, enquanto
estava trabalhando nele, morria de amores pela dona imaginária do nome. Depois ia
esquecendo uma por uma, todas elas, com exceção de Olívia, uma nau antiga que levou
dezessete dias para ser construída.
Batucava muito bem e vivia inventando, de improviso, músicas especialmente compostas para
toda e qualquer finalidade, nos mais variados gêneros. Uai aí aquela da mulher de blusa
verde atravessando a rua apressada, e o Doido da Garrafa imediatamente compunha um samba,
uma valsa, um rock, um rap, um blues, dependendo da mulher de blusa verde, do
atravessando, da rua e do apressada. Geralmente ficava uma obra-prima.
Gostava muito de observar as pessoas na rua, do cheiro de café, de cantar e de ouvir
música. Não gostava muito do fato de ter pernas, mas acabou se acostumando com elas. De
cabelo ele gostava. Em compensação, tinha verdadeiro horror a multidão, bermudão,
tubarão, ladrão, camburão, bajulação, afetação, dança de salão, falta de
educação e à palavra bife.
Escrevia cartas para ninguém, umas em prosa, outras em poesia, como mero exercício de
estilo.
Tinha mania de dar entrevistas para o vento e já sabia a resposta de qualquer pergunta
que porventura alguém pudesse lhe fazer um dia.
Ajudava o dicionário a explicar as coisas inventando palavras necessárias, como dorinfinita.
Adorava álgebra, mas tinha particular antipatia por trigonometria, pois não encontrava
nenhum motivo para se pegar pedaços de triângulos e fazer contas tão difíceis com
eles.
Conhecia mitologia a fundo.
Tinha angústia matinal, uma depressão no meio da tarde que ele chamava de cinco horas,
porque era a hora que ela aparecia, e uma insônia crônica a quem chamava carinhosamente
de Proserpina.
Sentia uma paixão azul dentro do peito, desde criança, sempre que olhava o mar e
orgulhava-se muito disso.
Acreditava no amor, mas tinha vergonha da frase.
Às vezes falava sozinho, Preferia tristeza à agonia.
Todas as noites, entre oito e dez e meia, era visto andando de um lado para o outro da
rua, método que tinha inventado para acabar de vez com a preocupação de fazer a volta
de repente, quando achava que já tinha andado o suficiente. (Preferia que ninguém
percebesse que ele não tinha para onde ir.) Enquanto andava, repetia dentro da cabeÇa
incessantemente a palavra ecumênico sem ter a menor idéia da razão pela qual fazia
isso.
Durante o dia o Doido da Garrafa trabalhava numa multinacional, era sujeito bem visto,
supervisor de departamento, ganhava um bom salário e gratificações que entregava para a
mulher aplicar em fundos de investimento.
No fim do ano ia trocar de carro.
Era excelente chefe de família.
Não era mais doido do que as outras pessoas do mundo, mas sempre que ele passava as
outras pessoas do mundo pensavam, lá vai o Doido da Garrafa, e assim se esqueciam das
suas próprias garrafas um pouquinho.
Adriana Falcão nasceu no Rio de Janeiro. Seu primeiro livro, voltado para o
público infantil, "Mania de Explicação", teve duas indicações para o
Prêmio Jabuti/2001 e recebeu o Prêmio Ofélia Fontes "O Melhor para a
Criança"/2001, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Em 2002, publicou
"Luna Clara & Apolo Onze", seu primeiro romance juvenil. Seu romance "A
Máquina" foi levado aos palcos por João Falcão. Na televisão, Adriana colaborou
em vários episódios de "A Comédia da Vida Privada", "Brasil Legal"
e "A grande família", todos da Rede Globo. Adaptou, com Guel Arraes, "O
Auto da Compadecida", de Ariano Suassuna, para a TV, posteriormente levado ao cinema.
Seu livro "O doido da garrafa", Editora Planeta do Brasil São Paulo,
lançado em abril/2003, e de cuja pág. 71 extraímos o texto acima, contém pequenos
contos publicados na revista "Veja Rio" no período de 2001 a 2003.
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