A carta
Adriana Falcão
Prezada Nena,
Espero que esta lhe encontre gozando de muita saúde, assim como todos os seus.
Nem três meses faz que a gente chegou aqui e já deu pra reparar que as diferenças daí
são muitas, porém são muitas também as parecenças.
Este Rio de Janeiro é tão amostrado, Nena, que parece até que a gente tá na França de
tanto canto lindo que aparece. Por outro lado, tem hora que dá pra jurar que aqui é aí,
tamanha a desgraceira. O povo daqui, sendo rico ou sendo pobre, fala igualmente alto. Só
não sei o motivo de tanta gritaria, se é falta de alegria ou se é falta de tristeza.
O Maracanã é grande mesmo, e se a pessoa for arrodear ele a pé leva bem meia hora,
Nena.
A Lagoa por fora é uma beleza, infelizmente é estragada por dentro.
O que você não ia acreditar era em cada túnel, não sei quantos, devido ao fato de aqui
ter muita pedra. O Cristo Redentor, quando acende lá em cima, é todinho o Cristo
Redentor, exato como ele aparece nas novelas. Já o Pão de Açúcar, esse de fato são
dois, o maior e o menor, mesmo tendo nome de um apenas. Se Nossa Senhora me der um
tantinho assim mais de coragem, juro que ainda tomo aquele bonde.
O céu daqui fica muito mais perto do chão do que o daí. É só olhar pro topo dos
prédios e lá está ele, parado, logo ali em cima, diariamente. Dia que tem nuvem só se
enxerga o pé do morro. Noite que tem chuva só se escuta a choradeira.
A gente vai levando como Deus quer e consente, ora é uma coisa, ora outra, ora nem uma
coisa nem outra, e é aí que o negócio pega. De trabalho mesmo só me apareceu uma
faxina, dia de quarta, na casa de uma mulher que mora em Copacabana. Ela não paga muito
não, em compensação tem tanta prata que dá até gosto limpar tudo e depois empilhar
bem direitinho.
Avise a Neto que, quando as coisas melhorarem, eu começo a juntar dinheiro pra comprar o
celular dele. Quem sabe até o fim do ano eu deposito uns duzentos. Mande dizer o número
da conta, mas copie com cuidado, que de outra vez o algarismo veio errado e foi uma agonia
de vai no banco e volta não sei quantas vezes, isso que você não avalia o tamanho da
fila.
Não fosse a perna de mãe que não desincha nem com antibiótico nem com rezadeira, de
resto tudo tá mais ou menos nos conformes. Só não sei dizer o que é pior, se é o
custo de vida ou a saudade, pois aqui não tem cheiro de cana, Nena, e até hoje não vi
um único pé de algaroba pra chorar mais eu, portanto tenho que chorar sozinha.
Eu continuo procurando um quarto grande que dê nós quatro dentro, pois morar de favor na
casa dos outros, além de ser bastante desagradável, ainda por cima é ruim demais. Por
mais que se ajude na despesa e no serviço, pensa que resolve? Olhe que se tem coisa que
eu não sou é desagradecida, mas tia Carminha vive de cara feia, e as meninas reclamam de
tudo, é um aperto danado, imagine só o desmantelo. Tem dia que eu me dano a andar cidade
afora somente pra não escutar queixa por queixa. Esquecendo as desavenças, vai se indo.
Para o mês, Mariinha completa quinze anos. Na ausência de festa, faz-se um bolo. Ela
está namorando um rapaz muito direito que toma conta de carro em rua de rico, embora eu
pense que ela ainda não esqueceu Zé Geraldo aí do posto. Júnior arrumou emprego, mas
desarrumou em seguida, e tá parado no momento. Eu mesma já repeti mais de mil vezes pra
ele largar de ser desleixado e tratar logo de aprender a mexer em computador, pois hoje em
dia quem não se entende com o dito não arranja nada decente nessa vida. Pelo visto ele
puxou mesmo ao pai, inclusive na leseira.
Por falar no desinfeliz do pai dele, já bati a cidade inteira e ainda não encontrei o
homem. Também, como é que eu ia adivinhar que o Rio de Janeiro era tão grande?
Tenho pra mim que ele tava era me enganando o tempo todo com essa conversa de mandar
buscar a gente no Natal, ou então não teria escrito o endereço errado, que essa tal rua
que ele falou nem existe, Nena.
Se eu encontrar o triste, ligo a cobrar avisando. Dia de domingo é mais barato. Mesmo
não encontrando, ligo de todo modo, uma vez que, com homem ou sem ele, a vida segue.
Nena, não se esqueça de aguar minhas plantas nem de dar de comer à Duquesa.
Deus lhe pague em dobro tudo que você fez por mim, por mãe e pelos meninos.
A sorte ajudando, dia desses eu tiro na raspadinha e mando passagem de leito pra você
mais Neto virem conhecer o Rio. Reze daí que eu rezo de cá.
Dê lembranças minhas a todos e aceite todo o carinho da sua eterna amiga,
Doris.
Adriana Falcão nasceu no Rio de Janeiro. Seu primeiro livro, voltado para o
público infantil, "Mania de Explicação", teve duas indicações para o
Prêmio Jabuti/2001 e recebeu o Prêmio Ofélia Fontes "O Melhor para a
Criança"/2001, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Em 2002, publicou
"Luna Clara & Apolo Onze", seu primeiro romance juvenil. Seu romance "A
Máquina" foi levado aos palcos por João Falcão. Na televisão, Adriana colaborou
em vários episódios de "A Comédia da Vida Privada", "Brasil Legal"
e "A grande família", todos da Rede Globo. Adaptou, com Guel Arraes, "O
Auto da Compadecida", de Ariano Suassuna, para a TV, posteriormente levado ao cinema.
Outros livros da escritora:Pequeno dicionário de palavras ao vento (2003);
A tampa do céu (2005)-ilustrações de Ivan Zigg e, em conjunto com outros
escritores,Histórias dos tempos de escola: Memória e aprendizado (2002);
Contos de estimação (2003); A comédia dos anjos (2004);
PS Beijei (2004); Contos de escola (2005); O Zodíaco
Doze signos, doze histórias (2005); Tarja preta (2005).
O texto acima foi extraído do livro "O doido da garrafa", Editora Planeta do
Brasil São Paulo, 2003, pág. 119.
Leia o texto. Compre o livro.
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