Pornografia II

Artur de Carvalho


Minha mulher e eu, na sala. Assistindo TV. Aguardávamos a chegada da filha, que tinha ido para uma festa. Eu estava comendo uma daquelas bananinhas. Daquelas, que vem embrulhadas numa espécie de celofane, sabe? Antigamente chamavam de "mariola". Ando tendo umas cãibras à noite. Na batata da perna. Estou lá, no maior sono do mundo, sonhando com a Meg Ryan e, de repente, é como se o mundo virasse de ponta cabeça. Não é possível que exista dor maior no mundo. Parece que alguma coisa está querendo sair de dentro da perna, a gente acorda assustado, não sabe direito o que está acontecendo. Estávamos nos braços da Meg Ryan e de repente estamos ali, no quarto, nos contorcendo de dor. Aliás, a personagem vivida pela Meg Ryan no filme "A Cidade dos Anjos" disse que o homem suporta a dor oito vezes menos que a mulher. Deve ser por causa do parto, essas coisas. Mas não é possível que o parto doa mais que uma boa cãibra. Não é possível.

Bem, eu sei que me falaram para comer bananas. Que as cãibras cessariam. Tem ferro, fosfato, sei lá o que. O problema é que eu nunca fui muito chegado em bananas. Não é exatamente o gosto da banana. É a banana como um todo.

Tudo bem enquanto elas estão lá, no cacho. Bonitas, vistosas. Amarelas, quase douradas. Vem até água na boca. Aí a gente escolhe uma. A que nos chama mais atenção. Quase sempre a maior, em diâmetro e comprimento. A separamos do restante do cacho e os problemas começam. Se o pecado está dentro de nossas cabeças, como li não sei onde, então estou condenado aos infernos. Por que não consigo olhar para uma banana e não fazer uma certa comparação. Não consigo. Seguro a banana e fico observando de longe. As vezes até olho em volta, para ver se não tem ninguém espiando. E a banana ali, olhando para mim. Está certo. Bananas não olham. Mas ela fica ali, com aquele seu jeito meio... ela fica ali, encurvada. Me olhando. E eu olhando para ela.

Respiro fundo e tomo coragem. Aproximo a banana de minha boca. Entende que não é uma aproximação normal? Ela ali, cada vez mais próxima, chegando. Com aquele jeitão. Aí temos que descascar a banana. Quando eu era adolescente, descascar era gíria para uma coisa, não sei se ainda é. E eu ali, quase quarenta anos, uma filha que freqüenta festas noturnas, e prestes a descascar uma banana. E para descascar, normalmente, a gente vira a banana em nossa direção. Ela é encurvada. Então ela fica ali, descrevendo uma pequena curva. Em direção à nossa boca. Se oferecendo. Normalmente, nessa hora, eu olho em volta novamente. Para me certificar que não tem ninguém observando. Se há alguém, desisto. Bananas não devem ser comidas em público. Se estou sozinho, arrisco.

Seguro na ponta da banana. Na ponta. Uma pequena pressão com o dedo e separo um pedaço da casca. Puxo para baixo, deixando a polpa à mostra. Mais um pedaço da casca e, de repente, ela está ali, desnuda. Subitamente a banana assume uma dupla coloração. A cor da casca quase até a ponta e outra, a da polpa. A casca formando uma espécie de flor em torno daquela ponta. Uma segunda pele.

A sensação de estar sendo observado é inevitável. Quase escondo a banana atrás de mim, mas isso soaria ainda pior. Ela fica ali, na minha mão. E eu já não sei se a seguro assim, com a ponta dos dedos, ou agarro com toda a mão, como se segura em torno de uma garrafa de coca-cola.

E a trago até a boca. As vezes mordo com os olhos abertos, mas a maioria das vezes fecho os olhos. Porque a cena é terrivelmente constrangedora. O entreabrir de minha boca, a aproximação da banana, o fechar dos dentes em torno da ponta descascada. De repente me vem à cabeça que alguém entrou no recinto. E eu ali de olhos fechados. Com a banana na boca. Nunca iriam entender que é porque eu não queria ver a coisa toda. Abro os olhos e afasto rapidamente a banana. Mas não há ninguém. Olho novamente para a banana. Ela está sem a ponta. Sem a ponta. Eu estou mastigando a ponta dela. Aquela massa adocicada na minha boca vai ficando cada vez mais grossa. Por que a banana não é como a maçã ou a pêra, que são quase crocantes. A banana é macia, mole, carnuda. Carnuda?

Bem, mas isso faz parte do passado. Descobri as bananinhas. Muito melhores, industrializadas. Você desembrulha e joga na boca. Mastiga e pronto. Adeus cãibras noturnas. Eu estava ali, comendo minha bananinha e pensando nessas coisas. Minha filha chegou da tal festa. Da porta, fez tchauzinho para alguém que estava na calçada. Entrou e me viu.

— Boa noite, pai. O que é que você já tá mastigando?

Bananinhas. Quer uma?

— Obrigado, pai. Mas eu prefiro a fruta mesmo.

Ela caminhou até a cozinha. Ia comer uma banana.

E eu não podia fazer absolutamente nada.

24/09/1998


Artur de Carvalho (1962 - 2012)
colaborou com o "Diário de Votuporanga", interior de São Paulo, de 1997 à 2012. Autor dos livros "O Incrível Homem de Quatro Olhos", edição do autor — Votuporanga, 2000, e "Pah!", Vialettera Editora, 2003. Além de excelente escritor e cronista, era cartunista e ilustrador dos melhores. Seus trabalhos podem ser conferidos em seu site, onde também se pode comprar os livros:

Sítio: www.arturdecarvalho.com.br

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