Onde será que anda aquele Papai Noel
de porcelana que minha mãe colocava
todos os anos embaixo da Árvore de Natal?
Artur de Carvalho
Entrei na sala de espera de um escritório e lá estava ela. Era moderna, quase
irreconhecível em suas linhas retas recortadas em plástico transparente. Só as bolas
coloridas e a estrela prateada ainda a caracterizavam como uma autêntica e genuína
Árvore de Natal.
Houve um tempo em que a primeira Árvore de Natal do ano sempre me causava um certo
espanto. Eu não conseguia conter um comentário Nossa, mas já é Natal de
novo? ou Parece que ainda ontem eu estava comendo o último pedaço do
tender do reveillon!. Acontece que até esses comentários se tornaram meio
repetitivos. Todos os anos o Natal chega mais rápido do que a gente imaginava que ia
chegar. Todos os anos o ano acaba mais depressa. Todos os anos o comércio prepara uma
Promoção de Natal onde são sorteados carros e motos entre os consumidores. Todos os
anos os jornais na TV começam a tecer comentários comparando o péssimo Natal deste ano
com o maravilhoso Natal do ano passado e mostram os comerciantes preocupados e as vitrines
enfeitadas com placas de liquidação.
No Fantástico, vai ter aquela reportagem mostrando aquele mundaréu de gente andando
pelos corredores refrigerados de um Shopping, e outra cena mostrando as lojas vazias, e
aí um balconista comentando que o movimento deste ano caiu bastante em comparação com
os outros anos, e depois uma entrevista com um consumidor dizendo que só vai comprar umas
lembrancinhas e olhe lá.
E depois vai ter aquelas entrevistas na rua, perguntando o que é que o pessoal vai fazer
com o décimo terceiro, e a maioria vai fazer piadinha, que vai pegar o décimo terceiro e
pagar as contas e assim mesmo não vai dar, e outros dizendo que vai ter ovo frito e carne
moída na ceia desse ano ah ah ah, e depois a reportagem fecha com uma velhinha dizendo
que vai comprar sim uns presentinhos e que Natal é só uma vez por ano, que vale a pena e
tudo o mais, e ela vai olhar para a tela e sorrir e o pessoal da produção do jornal vai
colocar uma musiquinha de Natal no fundo, e corta para os apresentadores e eles dizem boa
noite sorrindo.
E o Papai-Noel vai chegar de helicóptero numas cidades, e vai descer de pára-quedas em
outras, e vai dar a volta num carro de bombeiros em outras, e em outras ainda o prefeito
vai dar a chave da cidade para o Papai Noel e vai sair uma foto do evento na manchete do
jornal do dia seguinte e depois as lojas vão ser invadidas por velhinhos aposentados com
fantasias calorentas e distribuindo balas e tocando sininhos e o repórter da TV vai
entrevistar um deles e ele vai fazer um rô rô rô e o pessoal da produção vai colocar
uma musiquinha de Natal no fundo, e corta para os apresentadores e eles dizem boa noite
sorrindo.
É meio melancólico ficar velho. Não triste. Melancólico.
Artur de Carvalho colabora com o "Diário de Votuporanga", interior de
São Paulo, desde 1997. É autor dos livros "O Incrível Homem de Quatro Olhos",
edição do autor Votuporanga, 2000, e "Pah!", Vialettera Editora, 2003,
que acaba de chegar às livrarias.
Além de excelente escritor, Artur
é um cartunista dos melhores, com um traço bem diferente, que você poderá ver em seu
site, e lá comprar os livros.
Texto e ilustração inéditos, enviados pelo autor diretamente ao Releituras.
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