A lenda da Árvore de Natal
(e de quebra, a do Papai Noel também)

Artur de Carvalho


 O pai e o filho pendurando os enfeites na Árvore de Natal.

- Passa essa estrela dourada aí, filho.

- Essa?

- É. Ficou bom aqui?

- Ficou. Ficou sim. Mas, ô pai...

- Hum?

- Essa árvore é de verdade?

- É claro que é. Você não está aí, pegando nela? Então é de verdade.

- Não é isso, pai.

- O que é então?

- Eu estou perguntando se ela é de verdade mesmo, dessas de plantar.

- E para quê você quer saber uma coisa dessas?

- Pra saber, ué.

- Tá bom. Ela não é de verdade. Passa essa bola vermelha aí.

- O quê?

- Essa bola aí, do seu lado. Passa pra mim.

- Ah, tá.

- Você acha que a bola fica bem aqui?

- Fica. Fica sim. Ô pai...

- Hum?

- Porque é que a gente tem que colocar árvore no Natal?

- Por quê? Oras, por que... por que sim. Para enfeitar.

- Enfeitar o quê?

- A casa. Todo mundo enfeita a casa no Natal.

- E enfeita com árvore por quê?

- É porque a árvore é... é... é uma lenda antiga, filho.

- E como é que é a lenda?

- A lenda? Bem. É uma lenda comprida, quer mesmo saber?

- Quero.

- Hum, bem, é que antigamente, tinha...hum... uma árvore que...hum... dava
presentes!

- Dava?

- É. Os presentes nasciam nela, sabe? Que nem fruta. E a época dela de dar
frutas era justamente na época do Natal. Nascia de tudo. Videogame.
Computador. Celular. Mp3. De tudo mesmo. E aí era só as pessoas irem lá e
pegarem os presentes. Ninguém precisava pagar nada. E então... então...

- Então o quê?

- Então... bem, então os donos das lojas começaram a ficar bravos porque
ninguém mais comprava presentes e eles não ganhavam dinheiro. E então...
então eles resolveram cortar todas as Árvores de Natal do mundo!

- Nossa...

- Uma noite, os donos das lojas, vestidos de vermelho e usando uma barba
branca falsa para disfarçar, saíram cortando todas as árvores, usando a
serra que eles levavam num saco. Não sobrou nenhuma! E desde aquele dia, a
gente tem que pagar caro pelos presentes de Natal...

- Os donos da loja... De vermelho? Com um saco? E barba branca?

- É... isso mesmo e... e... me passa esse sininho aí.

- O quê?

- Esse sino prateado. Pega aí. Pra pendurar na árvore!

- Ah, tá... - disse o filho, olhando desconfiado.


Artur de Carvalho (1962 - 2012)
colaborou com o "Diário de Votuporanga", interior de São Paulo, de 1997 à 2012. Autor dos livros "O Incrível Homem de Quatro Olhos", edição do autor — Votuporanga, 2000, e "Pah!", Vialettera Editora, 2003. Além de excelente escritor e cronista, era cartunista e ilustrador dos melhores. Seus trabalhos podem ser conferidos em seu site, onde também se pode comprar os livros:

Sítio: www.arturdecarvalho.com.br

O texto acima nos foi gentilmente enviado pelo escritor.

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