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Artur de Carvalho


Eu não sei de vocês mas, para mim, a única razão do futebol existir é poder falar palavrão.

O futebol em si — se você for pensar assim, nos detalhes — é uma coisa meio sem graça. Aquela bola pulando pra lá e pra cá. Aquela cal jogada meio que aleatoriamente, deixando uns riscos brancos no gramado (pra quê serve aquele meio círculo na frente da área, alguém pode me esclarecer?). Aqueles vinte e dois caras suando, todos de meia soquete, shorts e camisetas coloridas. Sei lá. Aquilo tudo não tem muita lógica.

Está certo que, de tempos em tempos, aparece um sujeito que consegue fazer umas coisas com a bola que deixa a gente meio abismado. O Garrincha. O Pelé. O Cruyff. O problema é que qualquer malabaristazinho de circo faz coisas muito mais interessantes — seja com bolas, argolas, ou até mesmo com tochas de fogo — e ninguém paga por um desses malabaristas 65 milhões de dólares, como pagaram pelo Zidane, da França. Então, o negócio com o futebol não é a habilidade. É alguma outra coisa. E eu acho que é o palavrão.

Esse final de semana, por exemplo, estávamos todos assistindo à final do Corinthians com o São Paulo. Como era Dia das Mães, várias delas estavam ali, com os maridos, na frente da televisão. Entre elas uma em especial sempre me chamou a atenção. Sabe daquelas mulheres que a gente percebe logo que tem “classe”? A gente não sabe bem se é no olhar, no jeito de andar ou qualquer outra coisa. Ela pode estar de chinelo de dedo ou num vestido Ives Saint Laurent, mas ela mantém sempre aquela pose ao pegar um copo ou ao se servir do almoço. Bem, essa mulher estava ali, com a gente, charmosamente sentada no sofá, quando de repente o juiz apitou uma falta para o Corinthians. Houve alguns comentários se tinha sido falta ou não, mas tudo ficou mais ou menos dentro do controle. Aí, o jogador do Corinthians chuta a falta e a bola entra bem no ângulo. Um golaço. Teoricamente, se você é um corinthiano, o que você deveria fazer nesse momento seria gritar “— Goooool!”. No máximo um “— Dá-lhe Corinthians!”. Mas a mulher — aquela de classe que eu estava falando — ela se levantou e, com os punhos cerrados, chacoalhando suas jóias, gritou a pleno pulmões, bem no meio da sala.

— Put(...) que o par(...) !!!!

E você acha que alguém ligou? Pois ninguém estava nem aí. Muito pelo contrário, os comentários de todos apenas ratificaram a opinião da mulher.

— Essa mer(...) de goleiro!!!

— Não falei? Esse cara chuta bem pra caral(...)!!!

— E agora, quanto falta para essa por(...) de jogo terminar?

Passado o momento de euforia, todos se sentaram novamente, assumindo suas poses habituais, como se nada tivesse acontecido. Agora eu fico pensando. Você já imaginou sua mãe, no meio de uma festa de casamento, com os punhos cerrados e gritando um put(...) que o par(...) ? Ou o seu pai, chamando de “filho da pu(...)" o garçom que está demorando a trazer o vinho? Ou uma crônica como essa que você está lendo agora, só que publicada no jornal com todas as palavras completas, sem esse (...) pra disfarçar? Então. Essas coisas a gente só pode falar durante um jogo de futebol.

O futebol se tornou uma espécie de divã para o brasileiro. E eu acho que é por isso que eles proíbem que o juiz tire suas dúvidas em replays da TV ou telões. O grande lance é o juiz errar mesmo. Todos os países precisam de vilões. Os EUA tinham a Rússia, e agora tem os terroristas. Israel tem seu Yasser Arafat. Cuba tem os EUA.

E o Brasil tem aquele grande filho da pu(...) do juiz de futebol.


Artur de Carvalho (1962 - 2012)
colaborou com o "Diário de Votuporanga", interior de São Paulo, de 1997 à 2012. Autor dos livros "O Incrível Homem de Quatro Olhos", edição do autor — Votuporanga, 2000, e "Pah!", Vialettera Editora, 2003. Além de excelente escritor e cronista, era cartunista e ilustrador dos melhores. Seus trabalhos podem ser conferidos em seu site, onde também se pode comprar os livros:

Sítio: www.arturdecarvalho.com.br

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