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Arnaldo Nogueira Jr



Artur de Carvalho
Caricatura: MAXX

 


— Copa do Mundo é Copa do Mundo, oras...

Artur de Carvalho

 

Toda Copa do Mundo eu tenho que repetir a frase que dá título a essa crônica mais ou menos um milhão de vezes. Isso porque, desde que me tornei um adolescente razoavelmente engajado, com todas aquelas teorias ideológicas esquerdistas que eram moda na época, sempre me falaram que o futebol era o ópio do povo, que futebol era jogado só com o intuito de tapar os olhos do operariado para a opressão capitalista, e isso tudo e aquilo mais. Então, eu nunca liguei muito para futebol. Se o cara me pergunta para que time eu torço, eu digo sempre que não torço pra ninguém. Se me perguntam quanto foi o jogo do Corinthians no último fim de semana, digo que não vi. Uns até

insistem que eu, na condição de jornalista e coisa e tal, tenho a obrigação de saber, pelo menos, quem é que está em primeiro na tabela do Campeonato Brasileiro. Mas eu não sei. E, mesmo se soubesse, não diria. É uma questão de estilo, entende? Às vezes, eu até exagero um pouco, como quando o juiz dá um impedimento ou uma reversão esquisita, e eu pergunto o que é que o juiz deu, só para provar a todos os presentes que eu não entendo nada de futebol. Essa minha atitude tem o seu lado bom. Por exemplo, ninguém fica gozando quando o meu time perde, e eu não tenho que ficar roendo as unhas na frente da televisão nos meus domingos à tarde, fatos mais do que corriqueiros para qualquer homem que se preze nesse país.

Só que, de quatro em quatro anos, toda essa minha tranqüilidade vem abaixo. Eu simplesmente não consigo assistir a um jogo do Brasil na Copa sem que meu coração se aproxime perigosamente da linha tênue que separa um escanteio de um ataque cardíaco fulminante. Decisões por pênalti, então, nem se fala. É quando eu mais percebo quanta falta me faz não freqüentar mais assiduamente uma igreja ou religião qualquer. Quantas vezes já me peguei perguntando desesperadamente para a minha mulher o que é que vinha mesmo depois do “seja feito vossa vontade assim na terra como no céu” pouco antes do chute decisivo. E quando as pessoas, espantadas, chegam para mim e perguntam “mas você não dizia que era ateu, Artur?”, eu tenho que repetir, pela milionésima primeira vez:

— Copa do Mundo é Copa do Mundo, oras.


Artur de Carvalho (1962 - 2012)
colaborou com o "Diário de Votuporanga", interior de São Paulo, de 1997 à 2012. Autor dos livros "O Incrível Homem de Quatro Olhos", edição do autor — Votuporanga, 2000, e "Pah!", Vialettera Editora, 2003. Além de excelente escritor e cronista, era cartunista e ilustrador dos melhores. Seus trabalhos podem ser conferidos em seu site, onde também se pode comprar os livros:

Sítio: www.arturdecarvalho.com.br


O texto acima é exclusivo para o Releituras, e a ilustração também, na expectativa de sermos hexa campeões mundiais de futebol em 2006.


Visite o "blog das copas", uma criação de Artur de Carvalho e Custódio, em
http://blog-das-copas.blogspot.com/

 

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