Prisão azul
Antonio Callado
Patas macias sobre folhas mortas. Ao atravessar num salto a janela aberta o tigre sabia
muito bem que o lenhador tinha saído. O bebê de dois anos estava sentado no chão,
brincando. Sozinho, sozinho. O tigre se aproximou cauteloso e quando a criança viu aquele
cachorrão rajado abriu com espanto dois olhos azuis, dois lábios sorridentes, dois
bracinhos. O tigre começou pelos braços. Depois devorou o resto da criança e tratou de
voltar à floresta.
Suponha, agora, que esse tigre cresceu, deixou de comer criança e relembra um dia como
havia devorado o filho do lenhador. Um sorriso estranho paira sobre sua cara, sorriso no
qual seu orgulho tigrino só permite que se manifeste um tiquinho de remorso. O resto do
sorriso é a pura lembrança da carne tenra da criança, é desprezo pelo lenhador
estúpido que deixou a janela aberta uma completa orgia de satisfação consigo
mesmo.
Foi com um sorriso assim (e há sorrisos dificílimos de descrever) que o amigo do homem
desaparecido se aproximou da janela do seu apartamento tendo na mão o livro que o
desaparecido dedicara a ele: "Para você, meu grande amigo". O amigo olhou lá
fora o mar que ia além da praia de Copacabana e que flambava ao sol do meio-dia como uma
poncheira acesa. Era quase um milagre a capacidade que tinha o Rio de dar às pessoas uma
sensação de bem-estar, de saúde. O desaparecido também amava o Rio. Curioso como ele
tinha desaparecido de forma tão absoluta. Evaporou-se. Soube-se depois da sua morte que
ele passara os últimos dez anos de vida nas brenhas de Goiás. Ninguém sabia ao certo de
que modo morrera. O manuscrito do livro tinha sido encontrado no meio das coisas dele, o
manuscrito em cuja primeira página aparecia a dedicatória a ele, o amigo. O sorriso de
tigre regenerado voltou à cara do homem que lembrava o amigo: "Para você, meu
grande amigo".
Antes de sumir, o desaparecido freqüentemente ria de si mesmo. Diferenças de grau, só
de grau. Diferenças de espécie são um absurdo. Mesmo quando muda, a espécie muda
gradualmente, portanto é válido o princípio. Veja-se, como exemplo, a sensação que
às vezes tomava conta dele em plena rua e que ele chamava de pedra de contato com a
realidade: isso acontecia com todo o mundo. Só que com ele a freqüência e a intensidade
com que acontecia eram muito maiores. Parecia uma bolha a inchar, inchar e doer.
Perguntara a uma porção de pessoas se acontecia com elas de repente, no meio da rua e em
hora de movimento, começar subitamente a sentir a estupidez incompreensível de todo
aquele ir e vir. Sim, acontecia. Mas ficavam todos surpreendidos e faziam cara de dúvida
quando ele lhes perguntava se sentiam aquilo a ponto de parar no meio da multidão; de
olhar um lado para o outro, tentando entender o que estava acontecendo; de seguir alguém,
para descobrir onde estava indo e para resolver o mistério de tanta pressa; de logo
depois fazer o mesmo em relação a outra pessoa; de olhar angustiado aqueles arroios
humanos que não corriam para nenhum mar comum e sim para lagoas isoladas, piscinas,
poças d'água; de segurar com ambas as mãos a cabeça que doía e correr para o meio da
rua sem pensar nos carros que passavam rápidos. Não, isso era um exagero e aliás dava
para sentir, em todos aqueles que interrogava, que nem acreditavam que ele vivesse
momentos assim. Eram pessoas que não acreditavam sequer em diferenças de grau.
Deve ser sua imaginação, diziam com um sorriso, mas que é interessante não tem
dúvida. Aliás, hoje em dia está até na moda uma certa morbidez, acrescentavam, sem
saber que estavam usando uma arma muito antiga e possivelmente necessária.
A verdade pura e simples é que ele só fazia essas perguntas com a honesta intenção de
obter uma resposta, de descobrir alguma coisa a respeito da pessoa com quem falava, ou,
talvez mais ainda, sobre ele mesmo. Já lhe bastava, e muito, o quebra-cabeça
representado por todos aqueles desconhecidos que ele tinha ímpetos de parar e interrogar
sem mais nem menos no meio da rua.
Uma coisa, porém, o preocupava mais que qualquer outra na véspera do dia em que
desapareceu. Aquela sensação que nas ruas apinhadas de gente acabava quase em angústia,
pois envolvia estranhos, na sua própria vida íntima, privada, acabava em puro
contentamento. Quando lhe aparecia um problema especial a resolver, ele o encarava
corajosamente, sem evasões ou truques, pois sabia de antemão qual seria o resultado. Com
método, pesando prós e contras, considerando todas as conseqüências, chegava à
própria e nua raiz do problema... e então tudo se evolava, se desfazia no ar, e ele
entrava num estado de puro e neutro prazer, um prazer branco, luminoso, para lá do
pensamento. Como se fosse entrando com cautela mas com passo firme numa floresta densa na
qual, chegado ele ao ponto mais escuro, todas as árvores ainda em volta tombassem ao
mesmo tempo, no maior silêncio; e só permanecesse no mundo a luz ofuscante do sol. O que
o preocupava na véspera do dia em que desapareceu é que ele tentava, mas ainda não
haviam conseguido, concentrar todas as suas faculdades num problema sério.
Por que tão sério? Porque envolvia o amigo. Não por causa de minha mulher, continuou o
homem que desapareceu, determinado agora a pensar seu problema até o fim. Para mim minha
mulher é feito um sapato velho, cambaio. E meu amigo sabe muito bem disso, o que apenas
torna a coisa toda mais incompreensível. Um tolo desejo de aventura? Nunca, jamais. Meu
amigo sabe que eu não abandono minha mulher porque ninguém propriamente abandona um par
de sapatos velhos. A gente simplesmente os esquece em algum canto. Ele me diria, se fosse
o caso, que havia, que há alguma coisa entre os dois e pronto.
Usei aquele seu sapato velho outro dia, ele diria. Tudo bem. São inúmeros os
caminhos abertos neste mundo mesmo para quem caminhe descalço. Que sentido haveria em
criar um caso sobretudo quando eram tão velhos os sapatos? Não, ele está cansado de
conhecer meus sentimentos e já teria me falado a respeito. Ou... Caso fosse verdade (o
chato é que tanta gente dizia que era que ele se obrigava a pensar tanto sobre tal
bagatela), só uma explicação era possível: meu amigo de fato se apaixonou por minha
mulher e simplesmente não tem coragem de me dizer. E quem sabe por minha exclusiva culpa?
Ela para mim tem tão escasso valor, e isso eu disse ao amigo tantas vezes, que lhe falta
coragem para dizer que passou a amar uma pessoa tão depreciada. Sim, talvez fosse isso. E
o homem prestes a desaparecer sorriu, meio envergonhado de pensar que estava, ainda que
sem intenção, fazendo uso do amigo: seria de todo o cúmulo da amizade se o amigo
pensasse em ficar definitiva e legalmente com minha mulher. Aqui se apagou no seu rosto o
vago sorriso de até agora. Quem sabe, Deus meu? O amigo sabe como é grande meu amor por
Maria Auxiliadora. Será que lhe ocorreu a idéia de se sacrificar por mim? Não, nem eu
permitiria nem ele... Eu só quero Maria Auxiliadora como a tenho agora, mesmo porque a
gente não se casa com uma mulher assim, a gente simplesmente aceita a luz e o calor,
banho de sol no coração do inverno... Ela é quase a Luz! Aquela claridade. A floresta
que se deita no chão. Era precisamente quando chegava ao ponto em que a floresta se
tragava a si mesma que Johann Sebastian começava a passar a música para o papel, aquela
música que se encerrava de repente de forma inesperada, mas que podia ter continuado para
sempre, eterna, já que não tinha fim e ele apenas aparentava ou fingia ter chegado ao
fim porque chegara isto sim ao fim do papel pautado e porque sabia que ninguém podia
suportar sem enlouquecer o luzir permanente daquela Luz em música.
O homem que ia desaparecer perdeu-se nas profundezas do seu problema... Ao voltar a si
passou o lenço na testa úmida. A inexistência de todos os problemas. O compromisso que
tinha assumido que cuidasse de si mesmo. Ele ia, isto sim, ver Maria Auxiliadora. Tomou o
ônibus e no caminho deixou-se invadir pelo salgado travo de onda e de alga que subia das
praias de alva areia, a infinita, angustiada fieira de areia que é a única coisa a
impedir que as montanhas azuis e o mar azul se dissolvam num único e irreparável azul. O
ônibus beirou primeiro a praia de Santa Luzia, depois Flamengo, Botafogo, as vastas
areias brancas de Copacabana, Ipanema, Leblon. Quando parou no fim da linha o homem que ia
desaparecer saltou e foi andando para a pequena casa em que morava Maria Auxiliadora.
Aproximou-se das tábuas brancas do portão, espantadas de vê-lo àquela hora do dia. E
lá estava a fascinante casa branca, feito um brinquedo esquecido na grama. Entrou,
atravessou o jardim e espiou pela janela da sala de estar. Não viu Maria Auxiliadora, que
ainda estaria dormindo. Abriu a porta da frente e ia atravessar a sala, em direção ao
quarto de dormir, quando ouviu vozes e riso que vinham de lá. Ia chamar Maria Auxiliadora
em voz alta, alegre, mas se conteve e andou até a porta. Ouviu as únicas duas vozes que
realmente conhecia bem. Pela única e última vez em sua vida curvou-se até o buraco da
fechadura. As venezianas estavam cerradas. Só havia no quarto aquela luz baça e
enjoativa na qual se escondem aqueles que preferem não encarar nem o amor. O homem que
naquele momento já quase havia desaparecido ouviu a voz do amigo, seguida do riso de
Maria Auxiliadora.
Pois é. Quanto mais ele acha que há alguma coisa entre a mulher dele e eu, menos
consegue adivinhar que...
O homem que desapareceu saiu da sala de estar pé ante pé, fechou sem ruído a porta,
passou em silêncio pelo portão de tábuas brancas e se foi. Como um ladrão. E qualquer
policial que o pegasse naquele momento teria a certeza, sem lhe fazer qualquer pergunta,
que o ladrão tinha encontrado jóias, jóias do mais alto preço, que ninguém imaginaria
pudessem estar guardadas numa casa tão pequena e simples.
Antonio Carlos Callado nasceu em Niterói (RJ), no dia 26 de janeiro
de 1917. Jornalista, romancista, biógrafo teatrólogo e bacharel em Direito, começou a
trabalhar, como repórter e cronista, em O Correio da Manhã. Durante a Segunda Guerra
Mundial, em 1941, foi contratado pela BBC de Londres como redator, lá trabalhando até
maio de 1947. Trabalhou também, nesse período, no serviço brasileiro da Radio-Diffusion
Française, em Paris. De volta ao Brasil, voltou a seu antigo emprego e passou a
colaborar com o jornal O Globo. Em 1960, deixou o Correio da Manhã e foi cuidar do
lançamento, no Brasil, da Enciclopédia Barsa. Após 1963, foi redator do Jornal do
Brasil, que o enviou, em 1968, ao Vietnã em guerra. Em 1974 esteve como Visiting Scholar
em Corpus Christi College, Universidade de Cambridge, Inglaterra. Passou o segundo
semestre de 1981 lecionando, como Visiting Professor, na Columbia University, Nova York.
Aposentou-se como jornalista em 1975, mas continuou a colaborar na imprensa. Em abril de
1992 tornou-se colunista da Folha de S. Paulo.
Além das atividades jornalísticas, dedicou-se sempre à literatura. Após seus dois
primeiros romances, Assunção de Salviano (1954) e A madona de cedro (1957), nos quais
persiste uma nítida preocupação religiosa a informar e até mesmo a condicionar o
transcurso da aventura e a temática, Callado se encontra com os principais
temas de sua obra através do jornalismo, e escreve livros de reportagem e obras
literárias engajadas com as grandes questões de seu tempo. Entre os mais importantes,
estão Quarup (1967), Bar Don Juan (1971), Reflexos do baile (1976), Sempreviva (1981),
que apresentam um retrato do Brasil durante o regime militar, do ponto de vista dos
opositores. Seu engajamento lhe custou duas prisões: uma em 1964, logo após o golpe
militar, e outra em 1968, após o fechamento do Congresso com o AI-5.
Teatrólogo, reuniu quatro de suas peças no volume A Revolta da Cachaça, em 1983. Uma
delas, Pedro Mico, encenada em muitas ocasiões, foi transformada em filme que teve como
ator principal o ex-jogador de futebol Pelé. Em março de 1987 participou, em Paris, do
Salon du Livre, a convite do Ministério da Cultura da França. Em novembro de 1990
representou o Brasil na semana De Gaulle en son siècle, comemorativa do
centenário do General Charles de Gaulle.
Em 1958 recebeu, na Embaixada da Itália no Rio de Janeiro, a medalha da Ordem do Mérito
da República Italiana. Em 1982 foi à Alemanha, como vencedor do Prêmio Goethe, do
Goethe Institut do Rio de Janeiro, com o romance Sempreviva. Em setembro de 1985 recebeu,
pelo conjunto de suas obras, o Prêmio Brasília de Literatura, da Fundação Cultural do
Distrito Federal. Em outubro de 1985 recebeu, na Embaixada da França em Brasília, a
Medalha das Artes e das Letras, das mãos do Ministro da Cultura Jack Lang; em maio de
1986, o prêmio Golfinho de Ouro, de Literatura, outorgado pelo Governo do Estado do Rio
de Janeiro; em 1989, o troféu Juca Pato, da União Brasileira dos Escritores, por ter
sido eleito Intelectual do Ano.
Eleito para a Academia Brasileira de Letras em 17 de março de 1994, Cadeira n. 8, na
sucessão de Austregésilo de Athayde, foi recebido em 12 de julho de 1994 pelo acadêmico
Antonio Houaiss.
Era membro da The Corpus Association, do Corpus Christi College, Cambridge (Inglaterra).
Faleceu no Rio de Janeiro (RJ), no dia 28 de janeiro de 1997.
Principais obras:
Esqueleto na lagoa Verde, reportagem (1953);
A assunção de Salviano, romance (1954);
A cidade assassinada, teatro (1954);
Frankel, teatro (1955);
A madona de cedro, romance (1957);
Retrato de Portinari, biografia (1957);
Pedro Mico, teatro (1957);
Colar de coral, teatro (1957);
Os industriais da seca, reportagem (1960);
O tesouro de Chica da Silva, teatro (1962);
Forró no engenho cananéia, teatro (1964);
Tempo de Arraes, reportagem (1965);
Quarup, romance (1967);
Vietnã do Norte, reportagem (1969);
Bar Don Juan, romance (1971);
Reflexos do baile, romance (1976);
Sempreviva, romance (1981);
A expedição Montaigne, romance (1982);
A revolta da cachaça, teatro, reunião de 4 peças (1983);
Entre o deus e a vasilha, reportagem (1985);
Concerto carioca, romance (1985);
Memórias de Aldenham House, romance (1989);
O homem cordial e outras histórias, contos (1993).
Texto extraído do livro O homem cordial e outras histórias, Editora Ática
São Paulo, 1993.
|