Objetos perfeitos

Antônio Caetano


Arrumando gavetas, descubro — ou redescubro — uma página arrancada de revista. Eu sou o terror das revistas de sala de espera: a cada visita, sou capaz de arrancar páginas e páginas onde vislumbre alguma coisa que me interesse. Isto quando não levo a revista toda ao menor descuido das secretárias ou até com a conivência delas, corrompidas por apelos, sorrisos, explicações que vencem ou pela simpatia ou pelo cansaço. Faço isso com um certo constrangimento, íntimo e sonso, mas confesso que a delícia maior é rasgar o silêncio de uma sala cheia com o inconfundível ruído carregado de erres da página arrancada de um só golpe — e contrapor um sorriso aos olhares de reprovação e susto.

Esta página tem origem mais modesta: veio da sala de espera do meu dentista, que é pontual e não tem secretária. Não houve testemunhas, portanto. Sua graça está na informação que traz: você por acaso sabe quem inventou o clipe de papel? Duvido — por isso conto logo.
 
Foi um norueguês chamado Johan Vaaler. A patente é de 1900 e os cem anos do clipe há dois anos devem ter merecido altas comemorações na Noruega. Lá o clipe é um símbolo nacional que tem até monumento em praça pública — uma gigantesca escultura, claro, em forma de clipe. Tão orgulhosos eles são do invento que, durante a ocupação do seu país pelos alemães, na Segunda Guerra Mundial, os noruegueses passaram a usar um clipe na lapela como signo de oposição e resistência. Belíssima e comovedora idéia transformar um objeto banal em discreto signo de liberdade: impotentes diante da arrogante brutalidade nazista, os noruegueses mostravam com seu gesto simples que por dentro eles permaneciam livres, intactos e à espera — perigosamente à espera. O clipe, enfim, é um desses objetos perfeitos, inventados num estalo de intuição e que, depois de prontos, atravessam o tempo sem alterações significativas por conta de sua genial simplicidade.

A bicicleta é outro. Vira-e-mexe saio  pesquisando pela Rede quem foi o criador da bicicleta. Por incrível que pareça, ainda não achei a resposta. Mas a ele devo — e acho que posso mesmo dizer "devemos" — a primeira epifania, a primeira grande iluminação da existência que é descobrir-se subitamente suspenso no ar em secreta comunhão com as leis mais íntimas da Natureza. "Tudo é possível", ensina a bicicleta.

Outro exemplo é a bola. Dela nem cogito a autoria: deve ser do tempo em que Eva era só uma costela... Aliás, a bola está na gênese de mais um objeto perfeito: a caneta esferográfica. Conta a lenda que a idéia da esferográfica revelou-se a Ladislau Josef Biro, um jornalista húngaro residente na Argentina, em 1938, quando ele viu a bola chutada por um menino traçar no chão uma linha negra depois de ter atravessado um trecho ainda molhado de asfalto. Bingo!

Há muitos outros candidatos a objetos perfeitos.

Deborah, por exemplo, acrescentaria à lista a camiseta (T-shirt), a sandália havaiana e o batom. Eu, ciumento do conceito que acabo de criar, finjo ser rigoroso e aprovo apenas as havaianas (que, aliás, estão fazendo 40 anos).Mas, pensando bem, não dá para rejeitar o batom. Ouso mesmo dizer que o batom reinventou o beijo e sobretudo criou o símbolo máximo da paixão e do delito que é a "marca de batom". O silêncio da mulher, depois do batom, ganhou cor e contorno, povoou-se de imagens e tornou quase supérfluas as palavras: o leve movimento de uns lábios pintados de vermelho ou um beijo de batom largado num espelho sugerem e suscitam mais do que qualquer declaração ou poema são capazes de dizer.

Mas meu objeto perfeito exemplar ainda é o livro. Diz-se que a informática vai
abolir o livro. Não acredito. Acho o contrário, que o livro eletrônico só vai valorizar a impressão. O supremo elogio a um texto será imprimi-lo para tê-lo sempre ao alcance das mãos e dos olhos, como uma espécie de lembrança ou fotografia do que somos ou desejamos ser. "Diga-me o que lês e te direi quem és". Poucas experiências se comparam ao êxtase de entender um livro, um poema, um conto.

Disse poucas experiências? Minto: só o sexo apaixonado se compara ou rivaliza. Com a diferença que os livros, esses, não envelhecem, não morrem, não partem nem nunca nos fazem sofrer. Mas, enfim, leitor, como chegou a hora de juntarmos tudo — sexo, amor e objetos perfeitos — numa conclusão que dê desfecho a esta crônica, aproveitemos a metáfora do clipe como signo de liberdade. O clipe, ao contrário do grampeador, esse tirano, apenas junta duas ou mais folhas numa relação provisória. Junta, mas as deixa livres para a qualquer momento se separarem, em busca de outros pares. Na fugacidade que produz está a essência de sua eternidade.

Moral da história: na vida como no amor, é melhor ser clipe do que grampeador.


Antônio H. Caetano é carioca, nascido em 1958. Foi repórter, editor e redator de publicidade, fez seus sambas e cometeu poemas. Seu livro, "O Escafandrista e a Bailarina", edição do autor, pode ser comprado em sua página. Atualmente o autor escreve — às segundas-feiras — crônicas no jornal "Tribuna da Imprensa" e é o "factótum" do Café Impresso.


A crônica acima nos foi gentilmente remetida pelo autor.

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