| Último texto Teatro de bonecos
Amílcar Bettega Barbosa
Porque é o dia do meu aniversário. Só. Enquanto espero, sento-me para descansar um
pouco, afinal já tudo está feito, a mesa posta, a bebida escolhida, os legumes limpos e
cortados, o arroz, o indispensável molho de cerejas (me preocupam as formigas e sua
terrível fome de açúcar) cuja textura e sabor comprovei na língua antes de vertê-lo
sobre cada sulco da alcatra de búfalo que lentamente vai dourando no forno e que me deu
enorme trabalho para conseguir no mercadinho da aldeia, mas enfim, é um dos pratos
preferidos de Alfredo e foi ele quem acabou me convencendo a preparar esta noite, a não
deixar passar em branco a data dos meus quarenta anos.
Agora não quero a companhia de Alfredo e Ana. Fiz com que fossem caminhar na praia e
aproveitar os últimos instantes do sol que já vai descendo atrás dos morros e deixando
essa luz amarelada, artificiosa, que faz o mar parecer mais fundo. Alfredo chegou a dizer
que gostaria que eu fosse junto, mas eu sei que é mentira. Ele às vezes me irrita com
essas pequenas falsidades, por pouco não lhe joguei na cara a verdade. Eu devia ter lhe
mostrado, de uma vez por todas, que ainda sou eu quem dá as cartas nesse jogo. Acontece
que tenho medo de magoar a Ana, ela parece me entender tão bem, foi logo puxando Alfredo
pelo braço, sabia que agora eu precisava ficar verdadeiramente só.
Sinto muito cansaço, mas é um cansaço que me acalma, um adormecimento das forças. Hoje
perdi o sono lá pelas quatro da manhã e não consegui continuar na cama, era como se
ouvisse o vaivém nervoso das formigas na cozinha, dezenas, centenas de pontinhos pretos
brotando nas frestas do azulejo, subindo pelo pé da mesa e avançando nos minúsculos
farelos de açúcar e farinha sobre a toalha. Levantei e vi que Alfredo havia adormecido
no sofá, todo desengonçado como sempre, o braço e a perna pendidos e tocando o tapete.
Ana dormia no quarto, cercada por suas almofadas coloridas e com aquele eterno ar de
bonequinha adolescente. É impressionante como ela é graciosa. Mesmo quando jogada sobre
uma cama, qualquer posição que ela assuma me parece sempre muito natural. Ao contrário
do Alfredo e do seu corpo rígido e pouco espontâneo.
A madrugada é sempre muito solitária, tratei de acordá-los dizendo que desejava ver o
sol nascer na praia, mas não foi fácil colocá-los de pé, estavam tão inertes, mais
dormentes e pesados do que de costume. Somente com o sacolejo do carro na estradinha de
terra foi que me pareceram mais despertos. Ainda fazia o friozinho atrasado da noite
quando estacionei. Estávamos sentados os três no banco da frente, e sobre o mar havia
uma borra de cobre, como se o sol estivesse imerso na água. Eu precisava falar sobre tudo
o que me angustiava e resolvi começar pelas formigas. Alfredo concordou que era
impossível continuar ignorando-as e que era preciso dar fim a tudo aquilo. Conversamos
também sobre a noite passada, eu disse que havia bebido demais, a ponto de nem lembrar a
que horas tinha dormido. Alfredo igualmente reconheceu ter exagerado na tequila, estava
com uma terrível dor de cabeça. Havia certo tom de desculpa e ansiedade na sua voz, ele
sabe que ando muito frágil e que Ana não o perdoaria se ele me magoasse. O problema todo
é essa loucura, essa cegueira que foi tomando conta dos dois. Ana está dividida, é
evidente, ficou calada o tempo inteiro, olhando fixamente o horizonte até que o sol se
levantasse ainda gotejante e iluminasse por completo a seda branca da pele do seu rosto.
Agora me vem de cheio esse peso no corpo, a terrível dor nas têmporas. Sentado de costas
para a janela, observo melhor a casa sem a presença deles e começo a perceber o
verdadeiro tamanho da nossa solidão. É aí que vejo o que sou, onde há falta, onde
aguardo infantilmente um preenchimento. E cada segundo de espera é uma pequena morte
dentro de mim, como se a ausência daqueles dois fosse a antecipação da minha própria
ausência, como se já fôssemos, os três, meros autômatos de um teatro de ridícula
melancolia. A sala da nossa casa: a luz entrando como uma facada de sol por cima do meu
ombro estende uma língua espessa e amarela sobre o verniz do assoalho, vai tornando
visível o peso do ar, dá ao ambiente um aspecto de sonho ou alucinação, mas sobretudo
revela a calma das coisas, essa espécie de quietude dos sentidos que vai descendo sobre a
prata dos talheres, sobre as porcelanas, sobre as taças que logo se encherão com o vinho
da serenidade, sobre a cristaleira, o sofá, o piano, estendendo sobre todos os móveis da
sala uma colcha diáfana e luminosa, e é como se cada objeto refletisse a antiga harmonia
da nossa convivência, assim como cada um de nós é (ou foi) o reflexo dos pensamentos,
atitudes, e até dos gestos do outro.
Já tudo está feito. Vou esperando pelo tempo e escuto o rumor das ondas, adivinhando a
espuma branca que se desmancha em forma de sussurro na areia. Claro que sei que daqui a
pouco Alfredo e Ana estarão comigo outra vez e eu os verei entrar por aquela porta,
alegres e barulhentos como sempre voltam desses passeios pela praia, e sei que tentarão
me divertir tão logo me vejam tristonho; mas farei charme, não rirei assim que Alfredo,
com aquele sorriso paralisado de manequim de vitrine, contar a primeira piada; sacudirei a
cabeça e moverei sem graça os lábios, direi que sempre fico assim no dia do meu
aniversário. Então eu sei: Ana deslizará sua mão de veludo sobre minha cabeça e me
abraçará sem falar nada; e Alfredo, ainda que vacile um instante, também se juntará a
nós, um pouco rígido e dissimulando a emoção com ironia, ele nos cercará com seus
braços longos e um tanto desproporcionais, e assim ficaremos, enternecidos e abraçados
os três, perfeitamente integrados um ao outro como nos tempos da felicidade, sentindo o
contato quente dos corpos, o toque de suas peles brandas, a presença deles ao meu lado, o
que sempre me dá vontade de chorar.
Quarenta anos. Alfredo tem razão, é dia de vestir a melhor roupa, comer o prato mais
saboroso, beber nesse cálice o vinho da celebração. Mas é também o tempo de mexer no
passado, buscar nas lembranças o ponto de apoio para isto que agora se revela tão
frágil: nosso convívio arranjado à força dos desejos, sentimentos e necessidades
irreprimíveis, a solidão compartilhada, nossa vida a três como se fosse uma só.
Não existe tempo daqui a uma hora. Quero viver para trás, avançar até o ponto em que
minha memória começa a registrar os fatos da nossa vida: o tempo iluminado em que os
conheci: primeiro Ana, seu sorriso, Ana cristalizada, Ana boneca envolvida pela luz fria
da vitrine de uma butique de shopping, quando nossos olhares se cruzaram através do vidro
e percebemos ao mesmo instante que não mais nos separaríamos. Mas não consegui lhe
falar naquele dia. Voltei duas, três, seis, tantas vezes voltei à frente da vitrine que
a dona da loja já me olhava desconfiada quando finalmente entrei. Passei sem olhar para
Ana e fui falar com a dona. Comentei sobre as roupas Ana, naquele dia, fazia o tipo
colegial adolescente, com uma jaqueta folgada, calça jeans e moletom , mas
acrescentei que o que me impressionara mesmo fora a concepção da vitrine sem os
tradicionais manequins de gesso, paralisados e sem vida nenhuma, e que aqueles bonecos de
pano tive de piscar o olho para Ana, que já fazia um muxoxo que os bonecos
sim enchiam de vida as roupas com seus corpos flexíveis e a pele tão macia ao toque, os
cachos de cabelos de lã, o desenho e a cor do rosto, aqueles olhos vivíssimos de Ana a
me olharem com uma insistência que me encabulava. A dona da butique argumentou que as
pessoas compravam roupas na sua loja e não os manequins, mas o valor do cheque dispensava
explicações. Trouxe Ana comigo, colada ao meu corpo, caminhamos juntos sob um final de
tarde repleto de ruídos de trânsito e gente nas ruas, o vaivém incessante de pessoas
avançando a cada sinal que se fechava aos carros, as pessoas subindo e descendo as
calçadas, cruzando-se em direção às suas casas, ao refúgio dos laços estabelecidos,
ao convívio familiar.
Já com Alfredo foi diferente, não houve a longa preparação da abordagem, a coisa foi
mais rápida e direta, e muito em função do próprio Alfredo, um sujeito acima de tudo
bastante prático. Nós nos conhecemos num domingo de sol excessivo no Brique e sua tez
pálida e elástica era o contraponto exato à luminosidade daquela manhã. Estático,
metido numas roupas antiquadas, era uma velharia a mais exposta entre livros, discos
antigos e uma porção de objetos fora de uso espalhados sobre uma toalha na calçada.
Alfredo tem o dom de surpreender. À primeira vista podia ser apenas um desses
super-heróis infláveis que depois de fazer a alegria dos meninos murcham esquecidos no
canto da garagem, mas havia no seu olhar uma vivacidade superior, notei desde o início
que aquele ar de joão-bobo encobria alguém muito espirituoso, inteligente e, às vezes,
matemático demais (a ponto até de me deixar assustado). Além de tudo, Alfredo era o
lado extrovertido que faltava a mim e a Ana, e por isso nos conquistou com facilidade,
trouxe mais alegria à nossa vida, deixou-nos a todos mais completos. Sempre admirei o
jeito despreocupado como ele encara as coisas, esta atitude de deixar que a vida entre
como um sopro por seu corpo transformando-o em alguém sempre pronto para a ação, a
objetividade. Quando lhe falei (ou pensei apenas?), quase por brincadeira, da idéia de
mudarmos para perto do mar, de imediato ele tomou a coisa como decidida e tratou da venda
do nosso apartamento, da escolha da praia mais adequada e do projeto da nova casa, da
burocracia de bancos e cartórios e o cancelamento dos pequenos compromissos em Porto
Alegre nada mais do que vínculos impessoais e estritamente necessários à vida na
cidade, porque de resto não precisávamos comunicar amigos, família ou coisas do tipo,
tínhamos há muito nossa própria vida e éramos completamente independentes.
O lugar que escolhemos é perfeito (existem as formigas, mas), a paisagem é linda,
podemos fazer longos passeios pela praia e depois subir em algum rochedo para admirarmos o
verde do mar e o céu muito amplo e quase sempre azul. Claro que vivemos isolados, mas uma
aldeia de pescadores a três quilômetros oferece-nos tudo o que precisamos, desde o
mini-mercado até a farmácia. O pessoal de lá já se acostumou com a nossa convivência.
No início eles estranharam, mas logo passamos a fazer parte da simplicidade e da
naturalidade da vida na aldeia. São poucas as pessoas de fora que vêm aqui, no máximo
namorados em busca de isolamento para o amor. Até gostamos quando um ou outro destes
casais aparecem. Nunca nos aproximamos muito, mas mesmo à distância nos enternecemos com
o carinho que demonstram em cada gesto ou sorriso, nas mãos dadas, nos abraços.
Nossa casa é boa (o único inconveniente são as formigas, de resto), é espaçosa,
arejada, mas não foi fácil ajustar o projeto de forma a satisfazer o gosto dos três.
Há uma varanda ampla que dá para o mar, com folhagens e uma rede de dormir, onde
costumamos conversar demoradamente e onde jogamos os jogos que vamos inventando para
passar o tempo. No verão é o lugar de sentir a brisa do entardecer bebendo refrescos ou
gim-tônica e lendo Virgínia Woolf, Silvia Plath e Sá-Carneiro. No inverno cerramos o
janelão de vidro e passamos as horas tomando café e falando sobre nós, ou simplesmente
nos metemos em silêncio, a olhar através da névoa salgada o mar espesso e seu céu de
chumbo. São dias e noites frias. Confesso que às vezes sinto um frio excessivo por
dentro, como uma corrente de sangue gelado inundando as veias. É um frio que cresce na
carne e nos ossos, e brota na pele como um grande arrepio, quase um grito do meu corpo.
Então enrolo-me no cobertor e vou em silêncio até o quarto de Ana. Caminho até sua
cama e, primeiro, sento na borda do estrado, aguardo em vão que ela me diga algo para
depois, como que agradecendo aquele silêncio de consentimento, aninhar-me junto ao corpo
dela que, impassivelmente, num silêncio até mesmo dos gestos, deixa-se rolar no colchão
para me dar um espaço dentro do seu espaço, e o calor da sua companhia.
Mas nossa vida é simples, dividimos as tarefas domésticas de acordo com as preferências
de cada um. O dinheiro é meu e está aplicado, mas quem cuida disto é Alfredo, o mais
prático dos três (estou me repetindo). Ana se ocupa em dar graça à casa, cuidar das
flores, embelezar nossa sala com pequenos objetos que ela mesma fabrica ou descobre não
sei onde. Sou eu quem geralmente cozinha e se encarrega das bebidas, gosto de misturar
condimentos, experimentar temperos, matar a fome deles e a minha com imaginação e
sensibilidade.
O único inconveniente aqui são as formigas (sei que estou me repetindo), sinto a
presença de milhares, milhões delas fervilhando nas galerias que se ramificam sob nossos
pés em infinitos veios subterrâneos, sou capaz de ouvir o barulho que não fazem (estou
me repetindo), o rumor de uma multidão nervosa, insone, viva. Apavora-me a idéia de
estar vivendo junto a um formigueiro gigante, e acho que Alfredo percebeu isto, sei que
ele esteve na aldeia e pediu auxílio ao dono da farmácia (eu sei de tudo, sei de tudo),
mas não me disse nada. Alfredo passou a fazer segredo de algumas coisas desde que ele e
Ana começaram a viver essa aventura, tão evidente apesar do esforço deles para encobrir
(eu sei). Ana está contrariada, é visível, na certa Alfredo a pressiona para que não
comente o assunto. Também não falo nada, quero ver até onde são capazes de chegar
melhor seria dizer até onde Alfredo é capaz (onde eu sou, ou seria capaz) de
chegar.
Ontem fomos jantar na aldeia, no restaurantezinho da Dona Carmelinda, como fazemos todas
as semanas, e notei que eles estavam bastante alegres, quase felizes eu diria. Mas eu os
conheço demais. Havia o nítido traço de desassossego em seus rostos, principalmente no
de Alfredo. Estávamos pouco à vontade, mas Dona Carmelinda logo descontraiu a todos
nós. Ela nos recebe sempre com festa e naturalidade, os pratos dispostos na mesa como da
primeira vez (foi difícil a primeira vez, olhou-me desconfiada e perguntou se eles
também iam comer): Alfredo e eu frente a frente, e Ana ao meu lado. Como sempre, servi a
bebida primeiro a Ana que, como sempre, não fez nenhum movimento para alcançar o copo.
Depois, quando vieram os pãezinhos, eu me apressei em partir um pedaço, passar a
manteiga e levar à boca de Ana. Mas ela simplesmente deixou que o pão caísse sobre o
prato, imóvel, fria, como se estivesse zangada comigo. Dona Carmelinda aproximou-se desde
a porta da cozinha e disse que talvez Ana não estivesse com fome àquela hora. Fazia dois
meses que a Dona Carmelinda tinha me presenteado com um recorte de jornal todo amassado,
onde havia a receita da carne de búfalo. Desde então Alfredo insistia que devíamos
fazê-la no meu aniversário. Voltei a pedir detalhes sobre o tempero e o preparo do
molho, ela me deu um pote de vidro com gengibre moído e recomendou que adicionasse duas
colherinhas assim que começasse a engrossar. Depois trouxe-nos uma cachacinha do seu
alambique e em seguida serviu-nos a moqueca que só ela sabia preparar. Comemos e bebemos
cerveja, voltamos para casa já um pouco altos e abrimos uma garrafa de tequila.
Estávamos com vontade de beber e esvaziamos a garrafa enquanto cantávamos e dançávamos
e ríamos os três abraçados. Fui à cozinha apanhar outra garrafa e me deparei com o
incansável tráfego das formigas em suas trilhas sobre a lajota. Insuportável. Não
tínhamos mais saída, Alfredo estava certo, era preciso acabar de uma vez com aquele
suplício, sou capaz de ouvi-lo pensar (ouço o barulho que não fazem) na idéia de pôr
um fim a tudo, sou capaz de vê-lo comprando aspirinas para a sua dor de cabeça e tomando
mate com o farmacêutico, o assunto quase casual das pragas domésticas e as
particularidades das formigas, a conversa derivando para a solução infalível de um pó
fora de mercado e já quase esquecido entre caixas e frascos lá no depósito da
farmácia, a facilidade de misturá-lo ao açúcar no armário, no chão, pelos cantos,
nas frestas dos azulejos, sou capaz de elaborar a lógica de Alfredo e me descobrir nas
suas roupas, nos seus gestos, na sua fala e nos seus desejos, descubro-me na própria
existência de Alfredo e também na de Ana, desdobramentos obscuros de uma vida que já se
afasta tanto, que aspira cada vez mais a um deserto, à solidão definitiva.
Apanhei outra garrafa de tequila (tenho que acabar logo com isto) no armário da cozinha,
busquei copos limpos entre os potes de arroz e farinha e açúcar, o frasco com o gengibre
em pó para misturar ao molho, as cerejas, vidrinhos de tempero e condimentos e sabores e
efeitos. Quando voltei à sala eles já haviam adormecido no tapete. Não os coloquei na
cama como fizera outras vezes, bebi mais dois copos e fui para o quarto. Mas não
conseguia dormir. Parece que eu estava esperando aquilo acontecer. Ouvi um barulho
sussurrado, retomei à sala e então me deparei com esta cena que ficará encravada na
minha memória como uma fotografia do meu fim. O que senti foi humilhação, nada mais
nada menos, e quase nada é mais violento do que a humilhação: Alfredo e Ana tinham
fingido dormir para que eu me retirasse, e agora se amavam nus sobre o sofá. Fiquei algum
tempo só olhando. Fiquei só olhando, era o que eu podia fazer. Então comecei a sentir
que minha mão deslizava devagar e viva sobre meu peito, que a minha pele reagia ao toque
dos meus dedos como se fosse o toque de outros dedos a circundar-me os mamilos duros e a
descer arranhando-me os sulcos entre as costelas, que eu tocava meu corpo como se tocasse
um corpo que não era meu, enquanto Ana grunhia umas palavras incompreensíveis e o seu
corpo ardia embaixo do corpo de Alfredo se retorcendo vivamente, era ela pronta, ela
pedindo, ela cravando as unhas nas nádegas de Alfredo num urro impressionante, enquanto
eu banhava as mãos com meus líquidos em três, quatro, cinco jorros doloridos que
levaram os últimos traços de vida que havia em mim.
Agora estou morto (estou sozinho, é a mesma coisa), sentado de costas para um sol que se
põe definitivamente, sufocado pela demora de Alfredo e Ana. Mas de certa maneira me
conforta saber que eles estão felizes, alguma parte de mim também está. Quero abrir a
janela mas já não me restam forças. Está muito abafado, a carne vai passar do ponto,
os legumes escolhidos, o gengibre em pó. Preciso ver como está o assado, talvez as
formigas tenham invadido o prato, talvez até já existam algumas boiando no caldo
vermelho das cerejas. Preciso me erguer e não me mostrar tão fraco para Alfredo e Ana.
Eu sei que eles vão chegar em seguida (eu sei de tudo), eles já estão a caminho, estão
de mãos dadas e atravessam devagar a faixa de areia que separa a casa do mar,
aproximam-se radiantes, eu sei, por entre os pequenos canteiros do jardim. Ana está muito
alegre e descontraída, sou capaz de vê-la ainda colher uma rosa, cheirar e prendê-la na
alça do vestido antes de abrir a porta e agarrar-se ao braço de Alfredo, gritar e
esmurrar o peito de Alfredo que está dizendo para ela ter controle e calma, Ana, por
favor tenha calma e não complique as coisas, não precisa olhar, Ana, leve estes pratos
daqui, junte estes frascos, mas por favor tente se controlar, Ana, veja só quanta formiga
no chão, me ajude a deitá-lo no sofá, cuidado Ana, temos que varrer essas malditas
formigas, pega a vassoura, Ana, mas pára de chorar, por favor pára de gritar, Ana, pára
com isso, pára.
Amílcar Bettega Barbosa (1964) é natural de São Gabriel (RS). Formado em
Engenharia Civil, é mestre em literatura brasileira e autor de O vôo da
trapezista (1994), Deixe o quarto como está (2002), e de Os lados
do círculo (2004). Participou das antologias Alquimia da palavra
(1993), Contos de oficina (1993), Caio de amores (1996),
Conto & cidade (1997), O autor ausente (1997), Antologia
crítica do conto gaúcho (1998, O livro dos homens (2000), Contos
sem fronteiras (2000) e Geração 90: manuscritos de computador (2001).
Teve trabalhos publicados nas revistas Ficções e Blau e no
jornal Zero Hora, de Porto Alegre (RS), entre outros. Alguns prêmios
recebidos: Prêmio Açorianos de Literatura categoria conto e autor revelação
(1995), Bolsa para autores brasileiros com obras em face de conclusão, da Fundação
Biblioteca Nacional (1999), e o Prêmio Portugal Telecom, o mais vultuoso da literatura em
língua portuguesa (2005). Participou, como escritor residente, da Ledig House
International Writers Colony, a convite da Ledig-Rowohlt Foundation (EUA, 1999).
Mora, atualmente, em Paris-França.
Texto extraído do livro Geração 90: manuscritos de computador, Boitempo
Editorial São Paulo, 2001, pág. 31.
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