A história do FORRÓ...

Abdias Campos



Onde o forró começou?
Inda hoje se procura
Onde a sanfona tocou
E qual foi a criatura
Que pela primeira vez
Abastado de honradez
Fez a poeira subir
Pisoteando no chão
Um côco, um xote, um baião
Quem fez o forró surgir?

Pergunta que ninguém ousa
Responder perfeitamente
Mas se atreve na lousa
Em um verso de repente
Escrever: Foi no Sertão!
Por via da construção
Da malha ferroviária
Que a sanfona chegou
E o forró começou
A ritmação diária

Vuco-vuco, vuco-vuco
O fole velho insistiu
Nas terras de Pernambuco
Foi aí que se ouviu
Foi escorregando à linha
A cada terra vizinha
Meio sem querer querendo
Chegava e logo animava
E o povo toda dançava
Pois ele andava mexendo

Desse jeito, no Sertão
O forró tomava pé
Teve nome de montão:
Rala-buxo, rasta-pé
Bate-chinelo, até samba
Veja que o forró é bamba
Pra receber apelido
O certo é que ele é festa
Que à brincadeira presta
Sem querer ser confundido

Como o nome apareceu?
Santa curiosidade!
Quem esse nome lhe deu
A origem de verdade
Veio do forrobodó?
Ou do inglês "for all"
(Para todos), simplesmente?
Eu só sei que até agora
O forró não perde a hora
De animar muita gente

Forrobodó quer dizer:
Divertimento, festança
Talvez este venha ser
O seu nome de herança
Mas a sua identidade
Tem mais complexidade
Por ser um ritmo também
Além de festa ficou
Como um baião de motor
Com velocidade 100

Na aridez do Sertão
É corriqueiro se ver
Grandes músicos que vão
Passando o tempo sem ter
A sua oportunidade
De mostrar para a cidade
O que existe na caatinga
Onde a cobra dá o nó
Ouvindo o som do forró
Tocador cheio de ginga

Em muitas zonas rurais
No domingo, às tardezinhas
São muitos os festivais
Quem com suas sanfoninhas
Esses heróis da cultura
Que dispensam partitura
Pra exibir-se à perfeição
Fazem para a gente sua
Que de alegria flutua
Sob o luar do Sertão

Foi assim desde o início
Bem antes de seu Luiz
Já existia o ofício
Desse forró que se diz
Ser um ritmo agreste
De alegria inconteste
Pela modificação
Chula só para quem quer
Tentar seu o que não é
Copiando outra nação

Foi na década de 40
Que ele chegou à cidade
Ali seu Luiz ostenta
A sua capacidade
Apimentando esse molho
Quebrando todo o ferrolho
Que existia no portão
Do salão da burguesia
Para mostrar a alegria
Que trazia do Sertão

Luiz Gonzaga, também
Botou o baião na roda
Deu a cara que hoje tem
E deixou ele na moda
Extraiu do violeiro
Repentista brasileiro
Que toca antes de cantar
Mais uma vez seu Luiz
Foi na escola aprendiz
Para se manifestar

O forró foi conquistando
O gosto nacional
Nomes que foram chegando
Davam qualidade astral
Ao composto do forró
Que não é a dança só
Nem o tocador somente
O forró tem a raiz
Fincada como matriz
Na alegria da gente.

O forró original
É feito do mesmo jeito
Mas o seu instrumental
Tem sofrido novo efeito
É normal, é salutar
Só não vamos aceitar
Outros ritmos diferentes
Com cadências e compassos
Mandados pelos espaços
E com letras decadentes

Forró universitário
Forró brega, forró chique
Forró de cunho ordinário
Querendo passar trambique
No ouvido da história
Que não perdeu a memória
Para manter a razão
Podemos sim, inovar
Sem querer realizar
Sua transfiguração

Mas, tá aí o forró!

Sua história, seu poema,

Seu canto de curió

A sua dança de ema

8 baixos, 120

Para qualquer bom ouvinte

Para quem é dançador

Esse ritmo que é festa

Que à brasileira atesta

E o mundo dá valor.


Abdias Campos é natural de Amparo - Paraíba, no Sertão do Cariri. Acostumou-se a ouvir o som que vinha da feira: a poética violeira, o forró lá do mercado, que tão bem executado lhe parecia comum. Depois viu o zum zum zum do tocador da cidade com muita dificuldade para fazer aquilo lá. O texto acima foi extraída do folheto "A história do FORRÓ", editado pela Folhetaria Campos de Versos - Recife (PE).

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