Por se tratar de cidade de colonização
alemã, as crianças, em quase sua totalidade, falavam alemão, e os livros utilizados nas
escolas vinham da Alemanha. Com onze anos, Lya decorava poemas de Goethe e
Schiller.
Posteriormente, estudou em Porto Alegre (RS), onde se formou em
pedagogia e letras anglo-germânicas.
Iniciou sua vida literária nos anos 60, como tradutora de literaturas
em alemão e inglês. Lya Luft já traduziu para o português mais de cem
livros. Entre outros, destacam-se traduções de Virginia Wolf, Reiner Maria Rilke,
Hermann Hesse, Doris Lessing, Günter Grass, Botho Strauss e Thomas Mann. Ela diz que
traduzir é sua verdadeira profissão. E que faz tradução para ganhar dinheiro. Mas
também porque gosta. Um trabalho que exige respeito. Seu desejo é aproximar o escritor
estrangeiro do leitor brasileiro. Confessa que não pode ser inteiramente fiel, porque
pode-se correr o risco de ninguém entender nada. Mas não faz um carnaval em cima do
texto alheio, não inventa, não cria frases que não existem.
Conheceu Celso Pedro Luft, seu primeiro marido, quando tinha 21
anos. Ele tinha quarenta. Era irmão marista. Foi numa prova de vestibular. Achou-se
ridícula quando pensou: esse é o homem da minha vida! O irmão marista tirou a batina
para casar com ela em 1963.
Nessa paixão, começou a escrever poesia. Os primeiros poemas foram
reunidos no livro "Canções de Limiar" (1964).
Tiveram três filhos: Suzana, em 1965; André, em 1966; e Eduardo, em
1969.
Em 1972 lança mais um livro de poemas, "Flauta Doce".
Em 1976, escreveu alguns contos e mandou para Pedro Paulo Sena
Madureira, que era editor da Nova Fronteira. Pedro Paulo respondeu dizendo que os contos
eram todos publicáveis. Pedro Paulo, no entanto, aconselhou Lya a
escrever um romance, dizendo que ela era romancista. Dois anos depois ela escreveu
"As Parceiras".
Em 1978 lança seu primeiro livro de contos, "Matéria do
Cotidiano".
A ficção entrou em sua vida dois anos depois de um acidente
automobilístico quase fatal em 1979. Como teve uma visão mais próxima da morte, diz a
autora que começou a fazer tudo que evitava.
Primeiro foram crônicas, com o lançamento de "As Parceiras",
em 1980, e "A Asa Esquerda do Anjo", em 1981. Textos amenos. Uma espécie de
fingimento de que na vida tudo é bom. A morte é encarada como uma coisa normal. Mas
gostaria que todos os seus amigos fossem eternos. Mesmo assim, acha a morte uma coisa
mágica.
Em apenas oito anos Lya Luft sofreu duas perdas grandes demais. Dos
25 aos 47 anos foi casada com Celso Pedro Luft. Separou-se dele em 1985 e foi viver com o
psicanalista e escritor Hélio Pellegrino, que morreu três anos depois. Em 1992 voltou a
casar-se com o primeiro marido, de quem ficou viúva em 1995.
A escritora é conhecida por sua luta contra os estereótipos sociais.
"Essas coisas que obrigam as pessoas a ser atletas. Hoje é quase uma imposição: a
ordem é fazer sexo sem parar, o tempo todo. A ordem é não fumar, não beber. É essa
loucura o dia inteiro na cabeça. Quem não for resistente acaba enlouquecendo. E a vida
fica para trás. Hoje as pessoas estão sofrendo muito. Um sofrimento absolutamente
desnecessário. Especialmente as mulheres que fazem plástica logo que vêem uma ruga no
rosto. Plásticas de inteira inutilidade".
Lya Luft deixa claro que nada tem contra as cirurgias plásticas,
mas contra o rumo disso tudo. "Na ambição de serem sempre jovens, as mulheres
acabam perdendo o próprio rosto. São os falsos mitos da juventude para sempre. E isso
também inclui a febre atual da mídia, particularmente nas revistas femininas. Só se
fala como se pode ter vários orgasmos numa única noite. Só se fala em como a mulher
deve agir para segurar seu homem pelo sexo, especialmente o oral. São fórmulas de um
mundo conturbado, que foge ao afeto, distante de qualquer felicidade. Essa é outra coisa
para o enlouquecimento. Em todo lugar, o que existe é a supervalorização do sexo. Quem
não estiver fazendo sexo sem parar o tempo todo passa a ser anormal. Muita gente fica
complexada porque não consegue vários orgasmos numa noite. É tudo uma
imposição".
A autora diz ser uma constatação precária dizer que ela escreve
sobre mulheres. Mulheres não são seus personagens exclusivos. Escrevo sobre o que
me assombra, observa. E nisso está a infância. O importante é o compromisso com a
dignidade. Toda a sua obra poderia ser resumida como afirma num livro de
indagações.
Em 1982 publica "Reunião de Família", e em 1984 outros dois
livros: "O Quarto Fechado" e "Mulher no Palco". "O Quarto
Fechado" foi lançado nos E.U.A. sob o título "The Island of the Dead".
Quem é Lya Luft? Uma mulher gaúcha, brasileira, que faz cada
vez mais, aos sessenta e um anos, o que desde os três ou quatro desejava fazer: jogar com
as palavras e com personagens, criar, inventar, cismar, tramar, sondar o insondável.
"Tento entender a vida, o mundo e o mistério e para isso escrevo. Não conseguirei
jamais entender, mas tentar me dá uma enorme alegria. Além disso, sou uma mulher
simples, em busca cada vez mais de mais simplicidade. Amo a vida, os amigos, os filhos, a
arte, minha casa, o amanhecer. Sou uma amadora da vida. O que você nunca vai esquecer?
Escutar o vento e a chuva nas árvores do imenso jardim que cercava a casa de meu pai, na
minha infância". Puro maravilhamento. O que lhe causa repugnância? Preconceito,
hipocrisia. Vale a pena escrever? "Não escrevo porque valha a pena, mas
porque me faz feliz, simplesmente". O que falta à literatura brasileira? "Nada,
não falta nada. Ela é o que é, simplesmente, cheia de graça, desgraça, florescente,
múltipla, lutando com a crise econômica que atinge também as editoras, mas, como não
se escreve para ficar rico, tudo bem". E Deus? "Deus eu imagino como força de
vida: luminosa, positiva, imperscrutável". E o Brasil? Brasil cujo jeito é parecer
não ter jeito. "Não quero jamais ter de morar longe dele. Aqui tudo é possível. E
tanto está ainda por fazer". O que fazer para reverter esse quadro de miséria?
"Que os responsáveis por isso criem vergonha na cara". Quem não merece
respeito algum de ninguém? "Todos merecem algum respeito, no mínimo
compaixão". Você costuma rezar? "Não tenho nenhuma religião instituída, mas
tenho uma profunda visão religiosa, sagrada, da natureza, das pessoas, do
outro". Qual é seu momento ideal para escrever? "O momento em que meu livro
quer ser escrito. Mas normalmente produzo mais de manhã bem cedo. Gosto de ver o dia
nascer, aqui na minha mesa de trabalho e do meu computador". Se confessa uma
mulher tímida, embora não pareça.
Em 1987 lança "Exílio"; em 1989 o livro de poemas "O
Lado Fatal" e, em 1996, o premiado "O Rio do Meio" (ensaios), considerado a
melhor obra de ficção do ano.
Lya Luft afirma que hoje prefere ficar quieta consigo mesma. Já
casou demais. Já enviuvou demais. Não se imagina mais vivendo ao lado de ninguém. Mas
não quer desprezar os encantamentos que surgem por seu caminho. Lya afirma
ter sido um privilégio ter conhecido e vivido com dois homens que muito lhe ensinaram.
Sua visão do masculino é muito positiva. Foram três homens, na verdade, que a
influenciaram e percorreram sua vida, erguendo seu rosto, seu percurso, abrindo seus
rumos: seu pai, Arthur Germano Fett, que considerava um homem culto, amigo e também
solitário; seu cúmplice, Celso Pedro Luft, de quem herdou o sobrenome; e Hélio
Pellegrino. Três homens inesquecíveis. Que sempre vão permanecer nas palavras, nos
pensamentos, nos acenos possíveis.
Não faz tarde de autógrafos, sente-se desconfortável com isso. Não
gosta de discutir teorias literárias, especialmente quando se referem à sua obra. Nunca
pensou em tradição literária ou, especialmente, em tradição literária gaúcha. Não
quer fazer literatura regional. Não quer ser representante de descendentes. Não quer
pertencer a grupo nenhum. Quer mesmo é ser livre. Quer ficar quieta no seu canto. No
livro "Secreta Mirada", lançado em 1997, ela se deixou com ela mesma e
discorreu sobre temas que nunca fala em discussões literárias, em entrevistas,
depoimentos.
"Sou dos escritores que não sabem dizer coisas inteligentes sobre
seus personagens, suas técnicas ou seus recursos. Naturalmente, tudo que faço hoje é
fruto de minha experiência de ontem: na vida, na maneira de me vestir e me portar, no meu
trabalho e na minha arte/ Não escrevo muito sobre a morte: na verdade ela é que escreve
sobre nós - desde que nascemos vai elaborando o roteiro de nossa vida/ O medo de perder o
que se ama faz com que avaliemos melhor muitas coisas. Assim como a doença nos leva a
apreciar o que antes achávamos banal e desimportante, diante de uma dor pessoal
compreendemos o valor de afetos e interesses que até então pareciam apenas naturais:
nós os merecíamos, só isso. Eram parte de nós./ O amor nos tira o sono, nos tira do
sério, tira o tapete debaixo dos nossos pés, faz com que nos defrontemos com medos e
fraquezas aparentemente superados, mas também com insuspeitada audácia e generosidade. E
como habitualmente tem um fim - que é dor - complica a vida. Por outro lado, é um
maravilhoso ladrão da nossa arrogância./ Quem nos quiser amar agora terá de vir com
calma, terá de vir com jeito. Somos um território mais difícil de invadir, porque
levantamos muros, inseguros de nossas forças disfarçamos a fragilidade com altas torres
e ares imponentes./ A maturidade me permite olhar com menos ilusões, aceitar com menos
sofrimento, entender com mais tranqüilidade, querer com mais doçura./ Às vezes é
preciso recolher-se".
Em 1999 a escritora lança o livro "O Ponto Cego".
A vida é maravilhosa, mesmo quando dolorida. Eu gostaria que na
correria da época atual a gente pudesse se permitir, criar, uma pequena ilha de
contemplação, de autocontemplação, de onde se pudesse ver melhor todas as coisas: com
mais generosidade, mais otimismo, mais respeito, mais silêncio, mais prazer. Mais senso
da própria dignidade, não importando idade, dinheiro, cor, posição, crença. Não
importando nada.
Bibliografia:
No Brasil:
- Canções de Limiar, 1964
- Flauta Doce, 1972
- Matéria do Cotidiano, 1978
- As Parceiras, 1980
- A Asa Esquerda do Anjo, 1981
- Reunião de Família, 1982
- O Quarto Fechado, 1984
- Mulher no Palco, 1984
- Exílio, 1987
- O Lado Fatal, 1989
- O Rio do Meio, 1996
- Secreta Mirada, 1997
- O Ponto Cego, 1999
- Histórias do Tempo, 2000
- Mar de dentro, 2000