Marchavam em fila indiana. Na frente ia o Fidêncio Lopes, o maioral do negócio. Dirigia
do pescante a travessia arriscada, com tino e segurança de velho boleeiro de diligência
que fora, batendo, anos, a mesma estrada. Logo atrás o Zeca e o Osório, em seguida os
cargueiros sem arreta, pelas dúvidas, que acolherados num aperto, atrasariam qualquer
manobra. Fechavam a marcha o Bento e o castelhano Negrito, que se lhes agregara, de acaso,
"pa mirar de mas cercano a los guitas". E como quarteador, para garantir
nos repechos, a umas cinqüenta braças na frente, ia o Chiru novilho de aspa fina,
como dizia o Fidêncio , para bombear o caminho.
A noite pendia para a madrugada, mas a névoa, adensada já nos baixios, cerrava mais a
escuridão. Mal se divisavam, diluídos na noite os vultos negros das coxilhas mais
próximas, e as árvores e as moitas fundiam-se na tinta escura, surgindo de chofre, a
roçar os ombros e as bombachas dos cavaleiros. De quando em quando, ao contornar-lhes as
faldas, os coxilhões elevavam-se numa grande mancha negra dentro da cerração e pareciam
crescer, barrando a estrada.
Silencioso dentro da noite perdia-se o campo enorme, imerso nos vapores cada vez mais
densos no ar frio e calmo.
Fidêncio Lopes fazia empenho em entregar o contrabando sem desconto algum, não só pelo
valor das mercadorias, como por orgulho e capricho de velho cruzador clandestino das
fronteiras. Era para diversos negociantes da vila e ia nos três cargueiros; sedas, jóias
e armas, afora alguma miudeza de pouca monta. Dezessete a dezoito contos. Mas o comandante
da guarda aduaneira, que de há muito lhe seguia os passos fugidiços, esperava desta vez
seguramente apreender-lhe o negócio. Fidêncio sabia disso e era, pois, uma questão de
honra profissional o enredar o rasto ao fisco e chegar a salvo. Ultimamente para
que serve o quarenta e quatro? arrematava disposto, antevendo escaramuça quente.
Pouca gente levava sempre consigo que em tropa grande há mais refugo que matambre
gordo.
Do ponto em que estavam, pouco mais de três léguas havia para entrar na porteira do
Capão Grande, já em terras do Fidêncio. Depois de alcançarem-na, estava concluída a
empreitada, pois "nos campos dele, só Deus". Tinham passado a linha divisória
um pouco acima do Centurion. Mais de uma semana de tempo ruim as chuvas tinham
levantado a água aos galhos ilhara-os do outro lado da fronteira, na pulperia do
Aguirre, a comer carne assada e jogar o truco. Aberto o tempo, fizeram-se de viagem, à
boquinha da noite.
O rio campo fora. Não era para qualquer achar o caminho certo naquele mundo de água
solta. As picadas do passo, borradas pela enchente, perdiam-se por mais de duas quadras
entre o mato baixo das margens, torcendo em cotovelos, mergulhando mato a dentro,
contornando sangas e atoleiros, sumidas na noite densa. Amarraram os cargueiros uns aos
outros para não se extraviarem e levantaram as canastras, se bem que tudo viesse retovado
com oleados e as bruacas fossem de couro inteiriço. Mas, pelas dúvidas, que água não
é brinquedo.
Fidêncio, com as botas atadas nos tentos, cutucou com o calcanhar o colorado, que dava
bufidos na beira d'água, e caiu na frente, certo que nem capincho em porto velho.
Rédea curta e venham vindo no mais, que eu aqui estou mesmo que em casa.
A água marulhava, soturna, nas patas dos cavalos, subindo às vezes até meia costela.
Através da noite grande e negra vinha o rumor abafado da cachoeira, quadras abaixo,
afogada pelas águas grossas da cheia.
O Negrito, que vinha na retaguarda, chasqueou para o Bento: "Pero, chê, por acá ni
los biguás". E, livrando o corpo a um galho baixo: "Palos,
antonces, adrede pa rachar las aspas a um cristiano. Por lo seguro no me quedo
aficionau".
O Bento, crioulo daqueles pagos e veterano em passagens idênticas, respondeu no mesmo
calão: "Hace fuego em los ojos, castejano, que te plantas em el
charcó".
Passado o fio da correnteza, embrenharam-se pela picada que serpejava entre os caponetes
ilhados, através dos sarandizais fechados, nunca em linha reta, sempre quebrando à
direita, à esquerda, procurando a feição propícia da terra firme. Afinal tinham saído
para o campo limpo, e já traziam duas léguas de marcha cautelosa e suspicaz, cada um com
a Winchester atravessada no lombilho, a mão no delgado, esperando pelo que desse e
viesse.
Era a zona perigosa. De dentro da treva podia a cada momento surgir, de abrupto, a guarda
que velava. Desafeita e confundida na noite opaca, a emboscada podia atalhar, estrupindo
de chofre numa arrancada, atacando à queima-roupa. Por isso, na frente, distanciado da
coluna, ia o Chiru, de bombeiro. Nele e na sua perspicácia e sangue-frio, estava a
segurança de todos. Era simples mas arriscadíssima a incumbência. Não tinha mais que,
ao pressentir a guarda, avisar os companheiros. Se, ao perceber o perigo já não pudesse
voltar, preveni-los-ia com um tiro, e depois cuidasse da vida... Era posto que demandava
coragem e dedicação. Todos, porém, confiavam no Chiru que, mesmo a custo da vida, não
os deixaria cair desapercebidos sob as carabinas da guarda.
Não as temiam, porém. Afeitos àqueles perigos e sobressaltos, sempre em risco, na
iminência da morte, cristalizara-se-lhes em hábito a existência errante e insegura,
noite e dia sobre as coxilhas da fronteira. Ora cautos, resvalando em fugas contornantes,
ora afoitos, rebatendo de frente, a bala, o fisco vigilante, carregavam sempre as
mercadorias que a tarifa fazia preciosas. Entre a vida e a morte, aproximadas na
expectativa dos recontros, passavam calmos, quase indiferentes, derivando para aquele
comércio perigosíssimo a bravura e o estoicismo da raça, vindos de longe, do passado
guerreiro, aceso outrora nas lutas que haviam feito vibrar o imenso arco da fronteira,
distenso do Iguaçu ao Chuí, nos vaivéns incertos das guerras e revoluções.
O Zeca, tentando divisar estrelas no céu encoberto pelo nevoeiro, murmurou a meia-voz
para o Osório, que vinha logo atrás: "Deve ir virando para as quatro. Como quer,
parece que escapamos".
Negrito, que não se sofria muito tempo calado, pôs o cavalo ao lado do Bento
"Sabes, chê, que estoy c'una gana danada de pitar?" O Bento sacudiu os
ombros. Que era ordem. Não se fumava. Acender farol aos guitas, não é? Só se fumasse
com a brasa para dentro.
De feito, naquelas ocasiões bania-se tudo que pudesse assinalar a presença de passantes.
Não se fumava e a conversa era pouca e em voz baixa. E deslizavam assim, cortando o campo
em silêncio, evitando os pedregulhos da estrada, onde os cascos dos cavalos fariam
ruído. O Fidêncio ia sempre alerta, ouvido atento aos mínimos ruídos que dissonassem
do rangido abafado dos cargueiros e arreios.
Por sorte, nem quero-queros haviam encontrado, que os denunciassem com o alarma estrídulo
de eternas sentinelas dos campos. O velho contrabandista prelibava já, no íntimo, mais
aquele buçal passado aos aduaneiros. Também, era que nem sorro velho naquelas coxilhas,
onde conhecia restinga por restinga, de há tanto que cruzava por ali. Mais algumas
quadras e estavam em casa. Depois era um brinquedo.
Na frente, meio indistinto, ouviu um estrépito surdo, como de cavalo que tropeça.
Havia de ser o Chiru. Indiozinho de confiança, aquele! Ia certo e vivo no rumo da
querência.
Com efeito, o Chiru ia na frente, no tranco do picaço, furando com os olhos a treva
cinzento-negra da madrugada de névoa, orgulhoso daquele posto de honra que lhe dera o
patrão. Era, apesar de muito moço, a confiança do velho Fidêncio. Morrera-lhe o pai o
ano atrasado, e ele passou a ser o capataz, o faz-tudo da fazendola da Limeira, onde o
dono quase não parava. Deixara o rancho com a mãe e instalara-se definitivamente na casa
do patrão, tomando a si todo serviço. Pouco mais que adolescente, a vida do campo
fizera-o homem depressa. Fidêncio estimava-o deveras, passando ao filho a velha gratidão
que tivera ao pai, de quando andavam na revolução de 93, curtindo juntos as durezas da
campanha, e onde fora por ele salvo, num entrevero, baleado na perna e destinado a morrer
sob as patas dos cavalos, se o amigo o não tirasse na garupa. Morto o velho companheiro,
que jamais juntara pecúlio, a proteção e a amizade reverteram ao filho, aquela amizade
funda e concentrada, niveladora de peões e de patrões, criados nas mesmas lides, onde
gradua, não o nascimento ou fortuna, mas o valor de cada um.
O Chiru ia pensando na sua vida. Tinha ainda que cangar duas juntas antes do inverno e
debulhar as carradas de milho que estavam no girau do galpão pequeno.
Afora todo o trabalho do campo. Inda mais agora, com a compra das duzentas reses do
Ferico. Gado lindo. Tudo pampa. Cada novilha de sobreano que dava gosto olhar-se. O
patrão já dera ordem de ajustar mais um peão, que os dois que havia não davam conta do
serviço. E ia passando em revista tudo o que havia a fazer, toda a sua vida simples e
laboriosa, sem desvios nem ânsias perturbantes, onde mal aflorava uma ambição. Mais
tarde, com certeza, assim que tivesse a sua juntinha de tambeiros, podia então, mesmo sem
deixar a estância da Limeira, dar uma arrumação na vida. Essa "arrumação"
era a Lavica... E ao pensar enchia-se-lhe o peito de uma onda doce. Ah! a Lavica... Como
um homem se deixa bolear... A sua imaginação abria uma clareira na noite e, num
retângulo do sol, via-a, todo o rosto trigueiro da chinoquinha inundado da luz dos olhos.
Mais que os lábios úmidos, mais que o peitinho redondo de rola, mais que tudo nela,
prendiam-no aqueles misteriosos olhos de mulher, onde havia o infinito e a suavidade das
coxilhas, ora banhadas de sol, cantando de vida, ora imersas na saudade e no langor das
noites enluaradas. Neles moravam todos os seus sonhos mal definidos e profundos. Queria-a
e, pois, trabalharia para possuí-la. E uma doce certeza confortava-o. Era só mais....
Aqui, porém, interrompeu as cismas. Pareceu-lhe ouvir adiante um ruído de metais,
qualquer rumor abafado quebrando o silêncio, agora pressago e inquietador. Puxou a
pistola para frente e foi seguindo, de ouvido atento, os olhos muito abertos para
absorverem a luz escassa da noite nas pupilas dilatadas. Nada percebeu, no entanto, e foi
avançando. Raio de noite! Está que nem forno. Cresceu-lhe à direita o vulto negro
de uma reboleira de arbustos, e não a passara ainda, quando uma voz grossa e seca
intimou:
Faça alto, amigo!
E bem junto, como nascendo da treva, vultos de cavaleiros cercaram-no. Percebeu os
reflexos frouxos de botões de metal em dólmãs escuros. Sentiu um nó na garganta, as
fontes latejaram-lhe e nos ouvidos rolava como um trovão de intermitências surdas.
Não se mexa e diga quem é.
A hesitação foi rápida; aquela voz restituiulhe a calma. Num segundo lembrou os
companheiros que se aproximavam do perigo sem suspeitar. Tinha que preveni-los. Viu o cano
do revólver do guarda apontando-o. Talvez morresse, mas tinha que preveni-los. Foi
levantando a mão direita, devagar, colada ao corpo; encontrou o cinto, apertou a coronha
da pistola, o indicador tateava o gatilho.
Fale, amigo, senão...
Torceu o cano para o lado e premeu o dedo. Uma linguazinha de chama relampejou,
chamuscando-lhe os pelegos. O guarda, supondo-se alvejado, atirou também.
Era o quanto bastava. Prevenidos pelo duplo sinal, os contrabandistas executaram logo o
preconcebido. O Zeca e o Osório, com os cargueiros, penderam por uma encosta, sem ruído,
furtando a volta. Fidêncio e os outros infletiram à esquerda, coxilha acima, disparando
as armas. Era a manobra de sempre. Os guardas seguiram a direção dos tiros, enquanto o
contrabando mesmo, contornando, retomava longe o caminho, já à retaguarda do perigo,
reaviado e certo no destino.
Fidêncio com os companheiros continuavam retirando. Diferenciava-se o estampido sonoro
das Winchesters e a deflagração seca das Mausers da guarda, em tiroteio frouxo, ao acaso
dos alvos móveis e indistintos, afastando-se dentro da noite.
Tênues, começaram a dealbar no oriente as primeiras claridades do dia. Uma aura leve foi
dispersando a névoa adormecida nas baixadas. Em pouco surgiu o sol, longe na imensidão
do horizonte, dourando a silhueta dos capões de mato que demoravam no campo como manchas
escuras.
Arrastado pelo cavalo, Chiru ficara estendido num alto, os braços abertos e o rosto
voltado para o céu. O primeiro raio de sol, tangenciando a lombada das coxilhas
adormecidas, veio incidir-lhe na face, onde coagulara um fio de sangue.
Banhado daquela luz tépida, o gaúcho parecia apenas dormir, tão sereno tinha o rosto e
tanto, para aquela alma nobre, era simples a lealdade e até mesmo a morte.
Darcy Pereira Azambuja nasceu em Encruzilhada RS, em 1901 e
faleceu em Porto Alegre, em 1970. Foi desses raros escritores que se consagram com o
primeiro livro. Sua estréia, em 1925, com "No Galpão", teve o
reconhecimento da Academia Brasileira de Letras, mereceu a melhor crítica e recebeu o
favor público. O autor ia pelos 24 anos. E só voltaria a publicar novo livro de contos
regionalistas, nos moldes de "No Galpão", em 1956, passados 31 anos de
sua vitoriosa estréia. Ao longo desse largo espaço de tempo, deixou de fazer literatura
para entregar-se ao magistério superior e à administração pública. Chegou a
catedrático da Faculdade de Direito de Porto Alegre e a secretário do Interior e
Justiça do governo do Rio Grande do Sul. Nada, porém, impediria que seu livro de
estréia continuasse a "fazer carreira literária" para seu autor. Reeditado
sucessivamente através de todos aqueles anos (e ainda agora), "No Galpão"
transformou-se num livro de interesse permanente, mantendo-se nas livrarias há quase 60
anos. Dizem que, se os escritores deixassem sucessores, como nos inventários, este
contista seria o herdeiro de Simões Lopes Neto.